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Trienal de Arquitectura de Lisboa

Estudantes reflectem sobre a Cova da Moura.

“Como pode a arquitectura contribuir para melhorar as condições de vida do Bairro Cova da Moura?”. Este foi o repto lançado pela Trienal de Arquitectura de Lisboa às universidades de arquitectura e arquitectura paisagista. A Rua de Baixo dá-lhe a conhecer este desafio.

Lisboa será pela segunda vez palco da Trienal de Arquitectura. Entre 14 de Outubro deste ano e 16 de Janeiro de 2011, a capital vai mais uma vez tornar-se num grande fórum de discussão das questões da arquitectura contemporânea, e levar habitantes e visitantes a pensar, debater, reflectir e respirar arquitectura. Nesta segunda edição, a Trienal é “construída” sobre o tema “Falemos de Casas”, o primeiro verso de um poema de 1961 de Herberto Hélder, que traduz a necessidade de discutir a habitação, quer na sua versão física e imediata – a casa -, quer na dimensão simbólica do habitar um lugar e o mundo.

3,2,1…

Embora o mês de Outubro seja a data apontada como a de início do evento,  a Trienal já deu o seu pontapé de saída. Depois de lançados os concursos para os espaços expositivos, nomeadamente o do Museu Berardo e o do Museu da Electricidade, foi igualmente lançado um repto às universidades de arquitectura e arquitectura paisagista: “como pode a arquitectura contribuir para melhorar as condições de vida do Bairro Cova da Moura?”. Um desafio que segundo Delfim Sardo, Curador Geral da Trienal, “representa um momento muito importante”. Com esse objectivo a organização, juntamente com a Fundação EDP, promoveu no passado dia 25 de Janeiro, no Teatro Camões, um seminário para estudantes que serviu para reflectir e enquadrar o desafio de pensar este bairro e propor projectos tendo em consideração a sua complexidade social, cultural, étnica, de identidade e história de uma comunidade que vive num bairro social de construção clandestina. Para Delfim Sardo, o pressuposto deste desafio é “claro e directo: representa a importância reconhecida à componente ética, comunitária e social da arquitectura, à sua capacidade transformadora das condições de vida e à importância do contacto com a realidade na formação dos arquitectos”.

“Uma realidade complexa”

Questionada sobre o que levou a centrar atenções neste bairro, a organização da Trienal, pela voz do seu Curador, Delfim Sardo, explica que o bairro “é uma realidade complexa em termos sociais e culturais, oriundo de circunstâncias históricas peculiares e com um percurso atípico”, e para a escolha muito contribuiu o “reconhecimento de que este bairro possui uma dinâmica associativa que proporciona para os envolvidos neste projecto uma importante interlocução”. E foi exactamente por aqui que tudo começou, por uma reunião com a Comissão de Bairro, uma federação das diversas associações que aí estão implantadas, no sentido de fazer uma parceria para levar a bom porto este estudo. Posto isto, explica Delfim Sardo, o segundo passo foi o de desenvolver, em colaboração com a Fundação EDP, o projecto do seminário dirigido aos alunos e com o objectivo de os enquadrar na temática. “O desenvolvimento das diversas abordagens à questão simples que foi colocada é o centro deste projecto, sabendo que ele deriva das metodologias de cada faculdade, de cada equipa docente, das linhas programáticas de trabalho, e da ideologia que preside às opções pedagógicas, didácticas e de projecto formativo de cada instituição de ensino”, refere o mesmo responsável, sublinhando que, “em caso nenhum, no entanto, o case study deve ser tomado de forma exemplar. O que se pretende é precisamente o contrário, que os alunos desenvolvam os seus projectos a partir de um envolvimento com a especificidade da situação da Cova da Moura, que tentem compreender a complexidade olhando-a de perto”. Segundo Defim Sardo, o que a Trienal de Arquitectura propõe com este repto é que este processo seja entendido como “uma metodologia de compreensão do espírito do lugar, sabendo que o lugar é feito de pessoas, por pessoas e, daqui partir para o projecto”.

“Investigação conjunta”

À semelhança do que aconteceu na primeira edição da Trienal de Arquitectura de Lisboa, a organização propõe, através do lançamento deste concurso, que se faça “uma investigação conjunta sobre um tema de reconhecida relevância”, adianta José Mateus, director executivo da Trienal. José Mateus lembra que nas últimas décadas, a reflexão dos arquitectos e estudantes de arquitectura centrou-se na sua maioria em “componentes tangíveis, seja na sua relação com o território ou na sua natureza objectual”. No arranque deste novo século, “essa lógica foi conduzida ao extremo, como reflexo de um contexto mundial marcado pela proliferação de novas possibilidades acessíveis em tempo instantâneo”, sublinha. Por isso, a Trienal de Lisboa coloca o Concurso Universidades num outro campo de reflexão, “onde processo, metodologia, e outras vertentes não tangíveis, se revelam como partes fundamentais do trabalho do arquitecto”, conclui. A Trienal de Arquitectura de Lisboa tem como finalidade debater a qualidade e desenvolvimento da arquitectura portuguesa, constituindo-se como um grande fórum de discussão sobre a prática arquitectónica como expressão fundamental da criação do lugar, construção da cidadania integradora e afirmação cultural. Sendo um evento para todos, a Rua de Baixo lança aqui também um desafio: Não deixem de passar por lá!

Entrevista

Pode antecipadamente responder-me ao repto que a Trienal lançou às Universidades de Arquitectura: “Como é possível a arquitectura contribuir para melhorar, em concreto, as condições de vida das pessoas deste bairro?”

José Mateus: É possível contribuir de maneiras muito diversas. Mas, para chegar a elas, há que proceder a um trabalho de observação e diagnóstico do contexto extremamente minucioso. Entre essas melhorias poderá estar a valorização dos espaços urbanos públicos; a proposta de ligações do Bairro ao tecido urbano envolvente; intervenções nos edifícios de forma a dotá-los de infra-estruturas básicas que porventura não existam; introdução de peças novas (edifícios de habitação, equipamentos ou espaços públicos) que ajudem a estruturar melhor o bairro (em termos físicos e de vivências) e a corrigir problemas de imagem urbana; eventuais estruturas verdes ou hortas urbanas, etc. Mas, trabalhando preferencialmente sobre a realidade existente sem proceder a um “erase“ absurdo como já vimos noutros contextos.

Delfim Sardo: Não posso, não quero, nem acho desejável que quisesse. O repto lançado às universidades é complexo e, se a resposta fosse já conhecida, seria irrelevante. De facto, a única condição que espero vir a ser cumprida é a de que o trabalho que as diferentes universidades vierem a desenvolver, seja a que escala de intervenção for, releve de um conhecimento do bairro que passa pela visita e pela proximidade. Tenho a certeza que, pelo empenho que vi em professores e alunos, as respostas serão interessantes, mas sobretudo que o processo que a elas leva é enriquecedor.

Como correu o seminário e quais as principais conclusões que foram retiradas do mesmo?

O seminário foi muito bem sucedido na medida em que tanto professores como alunos puderam formar uma opinião mais nítida sobre a realidade socio-cultural do Bairro, que, é bastante diferente daquela que normalmente nos chega através de jornais e televisão. Para além das questões urbanas, territoriais, ou mais específicas da arquitectura dos edifícios em si, ficou claro que no Bairro da Cova da Moura existe uma estrutura de relações entre os moradores muito forte e uma identificação destes com o local onde vivem que confere um carácter à comunidade que muitos desconheciam e que é uma base essencial de trabalho para os estudantes. Para além disso, as diversas intervenções proporcionaram referencias de trabalho importantes, desde a esfera da acção política, à construção de estratégias de desenho com a participação da comunidade, ou à revisão de conceitos de cidade com base nas novas lógicas de sustentabilidade energética. A esse nível, penso que ficou clara a necessidade de entender o termos sustentabilidade no sentido muito amplo –  social, financeira, uso, energético, etc.

“Falemos de Casas”. Porquê este tema?

Delfim Sardo: O tema “Falemos de casas” é retirado a um poema de Herberto Helder de 1961.

Falemos de casas refere-se à forma primeira da relação com a arquitectura.

A casa é um arquétipo da forma arquitectónica, é a metáfora mais imediata e poderosa do habitar de um lugar ou do mundo, mas é também, pragmaticamente, o centro de muitas das questões que a arquitectura hoje necessita de colocar.

A ética e a noção de uma arquitectura empenhada no mundo possui na questão habitacional o seu centro e na casa a sua metáfora. É esta a razão para termos escolhido este tema.



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