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Tu, que Vives

Uma pobre imitação.

Nos recreios de todas as escolas, existem aqueles meninos esforçados que, não tendo especial talento para coisa alguma, se esgadanham para alcançar a aceitação dos seus pares. Muitas vezes, fazem-no por emulação das atitudes dos meninos mais populares. O sueco Roy Andersson lembra um desses meninos. O seu filme “Tu, que Vives” não é mais do que uma pálida imitação do universo de Aki Kaurismäki.

Desde os minutos iniciais, “Tu, que Vives” tenta o humor absurdo do finlandês, ele é a inexpressividade dos actores, eles são os momentos meio-surreais, ele é a banda que ensaia um pouco por toda a cidade, todos os membros muito pitorescos. Aliás, todas as personagens são muito pitorescas, muito idiossincráticas, como o próprio filme se vai esforçando por ser. Aliás, o que mais se vê (e se sente) em “Tu, que Vives” é o enorme esforço de Roy Andersson. Há sonhos e canções que se soltam a meio da narrativa, mas tudo tão arrumadinho, tão certinho, tão aprumadinho, tudo tão sem sal.

Se Kaurismäki põe a câmara de frente para os blocos de edifícios modernistas e as personagens perdidas num passado fixo, algures entre a fantasia rockabilly e a sisudez dos empregos modestos, criando uma estética que lhe é indissociável, Andersson coloca a câmara a três quatros, obliquamente, e assim filma edifícios modernistas e personagens perdidas num passado fixo – com muito pó-de-arroz na cara… recriando uma estética que é indissociável de Kaurismäki.

A “mais valia” de Roy Andersson é filmar tudo e mais alguma obliquamente, literalmente, meio de lado. Poderia, se quisesse, escrever sobre a falta de frontalidade do realizador sueco, mas isso seria confundir questões estéticas com questões éticas.

Genuinamente seu (ainda que com um sabor requentado), “Tu, que Vives” tem a infinidade de pequenas histórias que nunca ou raramente se cruzam ou entrelaçam, nem na narrativa propriamente dita, nem num plano superior, numa ordem criada por Andersson. Os pozinhos de comentário social inconsequente – “ai, os políticos são uns aldrabões e somos todos tão miseráveis e infelizes e as raparigas que bajulam os seus ídolos são tão parvas” – não são a cola que se pede a estas derivas. No fim, aparece uma mensagem supostamente apocalíptica que não adianta nem atrasa o que veio antes.

Apesar de um ou outro momento mais bem conseguido – a sequência do edifício-comboio não deixa de deslumbrar – é difícil recomendar vivamente “Tu, que Vives” a alguém.



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