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“Tudo é Possível” de Elizabeth Strout

Retratos obscuros em busca da luz

Depois do merecido sucesso de obras como Olive Kitteridge e, mais recentemente, O Meu Nome é Lucy Barton, a norte-americana Elizabeth Strout faz-nos chegar mais um (grande) livro onde enfatiza de forma pertinente e critica as incertezas e fragilidade da psique humana em (auto)conflito e confronto com a depravação moral.

Falamos de Tudo é Possível (Alfaguara, 2018), uma coleção de nove contos que se fundem em torno da personagem de Lucy Barton, uma escritora célebre que cresceu num ambiente de pobreza extrema, no seio de uma família ostracizada e que integra a comunidade agrícola de Amgash, no Illinois.

Ainda que este livro tenha como ponto de partida o elenco de O Meu Nome é Lucy Barton , estas nove peças narrativas não implicam a leitura prévia do referido título tal a competência da implícita contextualização. Mas se é fã da obra de Strout, Tudo é Possível é um livro obrigatório pois permite um maior conhecimento dos personagens (e das estórias) por via de memórias, mais ou menos indiscretas, mais ou menos morais, mais ou menos verdadeiras, das gentes que traçaram o percurso de vida de Lucy Barton, principalmente da sua infância e juventude. Essa exploração do passado é o combustível da escrita de Strout, uma mestre singular no que toca à construção de diálogos (e dilemas familiares ou vizinhos) mundanos que envolvem, definitivamente, o leitor.

O livro abre com O Letreiro, um conto que versa sobre o passado (e presente) da família Barton, nomeadamente do seu pai, um homem emocionalmente amargurado por uma vida difícil, e o seu irmão, um (quase) espetro humano atormentado pela imagem da miséria da família. Moinhos e Rachada, as estórias seguintes, abordam experiências de vida atormentadas por inseguranças que vão desde a modéstia extrema ao pudor versus perversão ou abstinência sexual.

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Também os ecos da Guerra do Vietname, outro dos maiores pesadelos de um país que teima em manter um perfil masoquista face ao seu passado, está presente nas expiações de Strout, no caso em A Teoria do Polegar-Atingido, relato que envolve relações e dependências extraconjugais que podem revelar e expandir a noção, ainda que por vezes abstrata, do amor.

Neste livro existe ainda espaço para (des)encontros entre uma mãe e uma filha separadas por um oceano e que se redescobrem depois de anos de uma ausência mais ou menos infligida (Mary do Mississippi); o reencontro atribulado entre Lucy e a sua irmã, que desperta ódios e invejas antigas (Irmã); as desventuras de uma proprietária de uma residencial que desempenha o papel de confessora de gente perdida, espiritual e moralmente (A Residencial de Dottie); uma espécie de Conto de Natal interpretado por um ator com tendências suicidas (Bênção); ou a relação entre um pai demente e uma filha atriz que percorreu mundo com a ideia que o seu progenitor lhe segurava a mão e a guiava entre os campos gélidos de uma vida (Cegueira da Neve).

No seu todo, Tudo é Possível, é uma poderosa análise da bondade e/ou crueldade das pessoas, sejam elas virtuosas ou mesquinhas, e Elizabeth Strout faz mergulhar o leitor no mar mais obscuro da condição humana: a mente de pessoas vingativas que rejeitam qualquer réstia de misericórdia em troca do fel de uma “verdade” que assombra a sua vida. Gente humana, de carne e ossos amargos que habitam cada uma destas nove estórias mas que lutam por uma réstia de esperança que lhes ilumine a, pois tudo é possível quando o ser humano se revela honesto e autêntico com os seus pares.



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