“Tudo são histórias de amor” | Dulce Maria Cardoso

“Tudo são histórias de amor” | Dulce Maria Cardoso

Um grande livro de contos, até mesmo para quem diz não gostar deles

Nos tempos que correm, vivemos num mundo feito de hype e construído com base em golpes publicitários, transformando a mediocridade em génio e, por contraponto, condenando à sombra o mais arrojado talento. É o caso de Dulce Maria Cardoso, escritora portuguesa que, pelos livros que já publicou, não será tontice jurar com a mão sobre a Bíblia que está entre os maiores escritores de língua portuguesa, contados com uma só mão.

Tudo são histórias de amor” (Tinta da China, 2014), o seu mais recente livro, reúne doze contos, alguns deles adaptados para cinema e teatro, que mostram toda a mestria da autora em esculpir as palavras ao ponto de se dirigirem bem ao centro do coração. E tudo com uma intensidade tal que, às tantas, damos por nós a pensar em Flannery O`Connor, ainda que aqui a religiosidade seja substituída pelo amor negro. Porém, no final, as palavras atravessam-nos a alma como lanças, e isso é algo que ambas as escritoras têm o comum: o poder de fazerem das palavras flechas incendiárias.

Todas as histórias giram à volta do desamor ou do amor trágico, não havendo lugar para finais felizes ou histórias onde príncipes e princesas proferem um “para sempre”. Fala-se da inveja, da maldade e da cobiça da mulher do outro – “Este azul que nos cerca” -, da insanidade e do fim de uma vida de sobrevivência – “Retrato de um jovem poeta” -, do amor pela imparável contagem do tempo e do pânico à morte – “Pânico” – ou do amor à justiça feita por mãos próprias – “Desaparecida”.

Ressalta, da leitura destes 12 contos, a ideia de um amor violento e imperfeito, cruzado com a maldade e solidão, que fará com que o leitor saia da sua zona de conforto e se aventure no lado sentimental mais obscuro da existência. Um grande livro de contos, até mesmo para quem diz não gostar deles.



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