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U2: A banda mais irritante do mundo

Os produtos de marca branca e os medicamentos genéricos são os que vendem mais, porque são os mais baratos e estão mesmo ali à mão

Que dê um passo em frente a primeira pessoa que nunca teve vontade de dar três carolos ao Bono Vox, quando se lembra daquele cabelo puxado para trás cheio de brilhantina e os óculos ridículos à ciclista dos anos 80.

Os U2 até tiveram uma primeira fase decente, providenciando um dos mais importantes esqueletos no armário de qualquer macho lusitano, como foi «With or without you», capaz de fazer chorar as pedras da calçada. A cena de ele andar de colete sem nada de baixo, também lhe conferia alguma veracidade rock’n’roll, muito embora o Jon Bon Jovi tenha tentado o mesmo, com resultados altamente discutíveis. Já o Bruce Springsteen, safava-se até com um fato-macaco da Lisnave.

Não que não tivessem vacilado à grande antes, mas entretanto, por alturas de “Rattle & Hum” os U2 resolveram mergulhar de cabeça e braços abertos no pior que a cultura dos Estados Unidos tinha, via referências transversais a Charles Manson («Helter Skelter») ou a Martin Luther King («Bullet the blue sky»). Como nessa altura, eles não eram tanto uma banda como uma start-up multimédia, reinventaram-se novamente como uma espécie de Primal Scream dos programas da manhã, com “Achtung Baby”, abraçando fervorosamente o que de mais piroso a febre do milénio tinha para oferecer. Foi então que Bono se tornou O Vocalista Mais Irritante De Sempre, com manobras publicitárias dignas do canal das televendas, como telefonemas para a Casa Branca, flirts com empresas de entrega de pizzas ou patrocínios de marcas de consolas. Isto, enquanto se posicionava como uma princesa Diana sem o sex-appeal, na forma de embaixador da boa-vontade sem ninguém lhe ter pedido nada.

Era vê-lo promover o diálogo entre líderes mundiais qual Ban Ki Moon, ou chamar a atenção para a fome em África enquanto ele engordava a olhos vistos e claro, enchia os bolsos.

Caro Bono: ninguém quer ouvir lições de moral de um milionário. Ou talvez queiram, se pensarmos no Steve Jobs, mas ao menos ele proporcionou ao mundo uma forma de ouvir boa música. Já os U2 fizeram precisamente o oposto.

29/3/07 Sir Bono and his wife Ali at the British Ambassador's residence where he received an Honourary Knighthood awarded to him by Her Majesty the Queen in recognition of his services to the music industry and his humanitarian work. Picture:Arthur Carron/Collins

Verdade seja dita que «One» foi outro prazer culpado a nascer da discografia da banda, que Johnny Cash fez o favor de reciclar de forma a poder ser escutada sem vergonha. Depois é um desfilar de músicas de BoyBand em crise de meia idade como «It’s a beautiful day». Claro que o dia está belo se a tua profissão for enriquecer a criar música para tocar nos supermercados.

Finalmente surgiu a fase “regresso às origens” em que a banda tentou, de forma claramente fracassada, emular o som de grupos como os Queens Of The Stone Age.

Posto isto, é de perguntar como é que ainda conseguem encher estádios. A verdade é que os produtos de marca branca e os medicamentos genéricos são os que vendem mais, porque são os mais baratos e estão mesmo ali à mão. Assim são os U2, a banda sonora ideal para quem ainda adquire CDs a 18€, e cuja compra mais recente terá provavelmente sido Nickelback. Depois abrem a janela do Seat Ibiza, dão uma volta pela rua onde cresceram, estacionam e vão ao mesmo café de sempre.

São pessoas que desistiram de viver.

Fotografia de capa de @catsanches



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