“Um céu demasiado azul” | Francisco José Viegas

“Um céu demasiado azul” | Francisco José Viegas

Um policial com sotaque do norte

Numa atitude que nos apraz saudar, a Porto Editora lançou recentemente uma nova edição de “Um céu demasiado azul” (Porto Editora, 2013), um dos mais apetecíveis romances policiais de Francisco José Viegas e que tem como maior protagonista Jaime Ramos, um detetive “tripeiro” da velha guarda que resgata para si o direito de assumir o papel de anti-herói e que tem, nos refinados gostos gourmet, um dos mais marcantes traços do seu perfil.

Outras das personagens que ocupam o universo de Ramos é o seu camarada de luta Filipe Castanheira, um jovem polícia apaixonado pela sua profissão e por uma açoriana que lhe raptou o coração, assim como Rosa, a vizinha do veterano agente da autoridade com a qual partilha uma relação de especial proximidade.

A trama de “Um céu demasiado azul”, livro também publicado no mercado brasileiro, alemão e francês, foca-se na investigação que Jaime Ramos leva a cabo depois de encontrado o cadáver de João Alves Lopes, antigo membro de um partido esquerdista nacional que é também conhecido pelas bem-sucedidas aventuras profissionais no mundo da publicidade. Como ponto de partida, para além da descoberta do corpo da vítima dentro do próprio carro, a dupla Ramos e Castanheira consegue uma série de pistas que os levam a considerar Amélia Lobo Correia, uma stripper itinerante e estudante de filosofia, uma potencial suspeita.

Para desconsolo de Rosa, a demanda de Jaime Ramos em descobrir o assassino de João Alves Lopes leva o primeiro a percorrer terras sul americanas, tendo como cenário Cuba e México. Num autêntica viagem ao passado, Ramos constrói um delicado e intrincado puzzle cujas peças são compostas de corações partidos, traições e sonhos perdidos que têm, como elos aglutinadores, elevadas doses de azar e coincidências que se tornam ainda mais autênticas quando transportadas para dentro de um Portugal mesquinho onde todas as armas são possíveis para um desejado fim.

Um dos homens mais conhecidos do espetro cultural nacional, cujo trajeto profissional o conduziu pela arte de lecionar, pelo jornalismo e pela edição, Francisco José Viegas atinge, dizemos nós, a plenitude da sua escrita com o retrato de um polícia à portuguesa que faz lembrar, por exemplo, o fantástico Mário Conde do cubano Leonardo Padura, através de uma narrativa exemplar e um assinalável requinte, principalmente no que toca ao perfil de Jaime Ramos, um dos personagens maiores da ficção nacional.

Vivamente aconselhado aos amantes do género policial mas não só, “Um céu demasiado azul” é um livro que apaixona, envolve e seduz de uma forma tão natural que, depois de apenas algumas páginas, o leitor desliga-se da realidade que o rodeia e dá por si dentro da ação vivida e sentida ao sabor dos ritmos e paisagens particulares, cujo fascínio é sublinhado pela presença de Jaime Ramos e companhia deveras limitada.



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