Um Corpo Estranho

Um Corpo Estranho

Pedro Franco e João Mota conhecem-se de outros arraiais e decidiram juntar-se para entrar no nosso organismo de forma complexa e intensa. Apresentam-se pela Experimentáculo e seis músicas compõem este registo que, cantado em português, apresenta uma prosa incrivelmente sentida, como apenas a língua de Camões permite

Um Corpo Estranho apresenta uma complexidade de sons, letras bem estruturadas e um grafismo que torna o seu EP de apresentação uma espécie de must have.

Pedro Franco e João Mota conhecem-se de outros arraiais e decidiram juntar-se para entrar no nosso organismo de forma complexa e intensa. Apresentam-se pela Experimentáculo e seis músicas compõem este registo que, cantado em português, apresenta uma prosa incrivelmente sentida, como apenas a língua de Camões permite.

Musicalmente é difícil defini-los, e, sinceramente, ainda bem… Não cai num rótulo, nem dá para juntar dois ou três rótulos. E é isso que nos leva a querer mais. Podíamos tentar ir buscar vários nomes para identificar o género, mas não é possível… E por isso são estranhos. E a verdade é que nem a própria banda deseja cair no fácil do género musical. Daí dizer que é preciso mais; estas seis músicas acabam por saber a pouco quando se pretende apresentar algo longe de um lugar comum. Por agora, fica o desejo de os vermos na estrada, ao vivo, e perceber a dinâmica em palco e, assim, absorver mais deste corpo que tem tudo para não ser estranho.

Para conhecer melhor quem integra o projecto nada melhor que uma conversa com Pedro Franco e João Mota.

Antes de mais, muitos parabéns pela imagem do álbum! De onde veio esta ideia?

João Mota – Crescemos na geração do culto do disco como objecto. Apesar de hoje em dia a partilha da música ser feita principalmente através da internet, o formato físico para nós é importante. A Experimentáculo tem por hábito lançar edições de cariz artesanal, quase objectos de coleccionador, o que nos agradou muito. Daí até ao conceito final do EP foi um processo rápido.

Pedro Franco – O prazer maior de comprar um disco não passa só pela música, mas por experienciar o objecto na totalidade. Lembro-me que, quando era miúdo, comprar um disco era um acontecimento e o prazer de manusear a peça e ler tudo o que lá estava dentro era igualmente fascinante. Tivemos alguns encontros com a Ana Polido, designer da Experimentáculo, e chegámos a um resultado que nos deixou muito satisfeitos.

João Mota e Pedro Franco… quem são vocês? Já tinham projectos anteriores? Falem-nos um pouco sobre cada um…

PF – Tocamos juntos desde miúdos, tivemos vários projectos no passado e nunca perdemos o contacto. Volta e meia cruzávamos impressões sobre as composições um do outro.

JM – Somos dois ouvintes compulsivos de música. Nunca conseguimos voltar as costas aos instrumentos e aos temas que fomos compondo ao longo destes anos e que se iam acumulando na gaveta.

A nível de banda, como e quando se decidem juntar? Um Corpo Estranho de nome, porquê?

JM – Iniciámos esta aventura em 2009. O Pedro enviou-me alguns temas que tinha no “baú”. Sempre trabalhámos muito bem juntos e eu comecei por escrever três ou quatro letras. Optámos desde o início por escrever em Português, talvez por ser uma coisa nova para os dois.

PF – Já o baptismo do projecto não foi tão natural. As palavras na língua materna têm outro peso. Mas penso que todas as bandas passam por esse processo. Surgiram vários nomes mas, no final, “Um Corpo Estranho” acabou por ir mais ao encontro do universo que criámos e queremos explorar.

Falem um pouco da forma como criam o material. As ideias para as letras surgem de onde? A música vai surgindo ou surge inicialmente?

PF – Não temos uma fórmula hermética de compor. Muitas das vezes o tema, ou uma frase do tema, nasce primeiro e a letra vai ao encontro da música. Outras vezes temos um poema que musicamos com acordes simples que depois vamos trabalhando e arranjando faseadamente. As ideias para as letras surgem naturalmente.

JM – Não temos uma mensagem específica da qual queremos falar. Apenas impressões de uma realidade que vai sendo manipulada no processo. Não são propriamente histórias que contamos, são peças que ficaram de fora do puzzle das nossas próprias vivências.

Como se definem musicalmente? Pelo tipo de música até parece que de certa forma se tentam afastar de estilos pré-definidos, certo?

PF – Não definimos. Vamos ao encontro do que a música nos sugere sem racionalizar demasiado o processo criativo. Não sei se alguém que faz música está certo que compõe num estilo específico. É um caminho cheio de desvios.

JM – Podemos gostar mais de um estilo ou de outro, mas acabamos sempre por cruzar estilos e, inevitavelmente, referências. Acho que nos limitamos a seguir a linha do que o tema nos sugere. Claro que eventualmente tropeçamos em algo que já foi feito, mas há pouco terreno virgem na música.

PF – Gostamos de pensar que o estilo é uma caixa onde cada ouvinte vai arrumar o artista. Ou, pelo menos, que não nos queremos auto-catalogar. Deixamos essa tarefa para quem ouve.

O que andam a ouvir actualmente? E o que vos influencia musicalmente?

JM – Há pouca coisa que me recuso ouvir. Claro que tenho o meu pequeno Olimpo. Tenho referências inegáveis que vão desde a música do delta do Mississipi até ao fado. É uma longa viagem, se pensarmos bem nisso…

PF – Ouvimos de tudo um pouco. Pessoalmente oiço mais cantautores do que bandas. Quando gosto de um artista quero sempre saber mais sobre a sua vida e as histórias à volta dos seus discos. Isso influencia-me bastante. Assumo o meu lado geek nesta matéria.

O que querem passar ao público? Têm alguma mensagem em particular que queiram transmitir?

JM – Queremos partilhar o que fazemos. É óptimo quando as pessoas gostam ou se identificam. Porque compor é um processo solitário. Os temas deixam de nos pertencer assim que os terminamos e os damos a ouvir. As pessoas retiram o que querem. Aí reside o gozo de fazer música.

PF – São apenas estórias musicadas que temos muito prazer em fazer e que gostamos de partilhar.

Este EP é o início. Quais os planos para o futuro? Podem desvendá-los?

JM – Estamos a crescer como projecto e a descobrir caminhos novos e já se vai ouvindo um burburinho de fundo. As pessoas têm-nos acarinhado e isso por si é encorajador. Mas é realmente um início. Queremos rodar estes temas e outros que já temos prontos ao vivo. De resto, vamos continuar a compor e seguir pelo caminho que nos parecer mais interessante.



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