“Um fim do Mundo”, de Pedro Pinho

“Um fim do Mundo”, de Pedro Pinho

Directamente do Bairro da Bela Vista para Berlim

O cinema português está uma vez mais de parabéns, e desta vez não é por menos. Apesar de toda a tempestade que o País enfrenta, ainda há esperança e um lugar ao sol.

Berlim é o local escolhido para o cinema nacional mostrar a sua qualidade e grandiosidade. Se durante vinte anos os portugueses, por qualquer eventualidade, não se apresentaram no grande festival alemão, isso acabou o ano passado, com o Urso de Ouro para “Rafa” de João Salaviza e o prémio Alfred Bauer para “Tabu”, de Miguel Gomes.

Este ano a presença lusa é forte; cinco filmes de quatro realizadores foram nomeados para a Berlinale, em três secções diferentes. João Viana leva dois, a curta “Tabâto” e a longa-metragem “Batalha de Tabâto”. Temos também “Terra de Ninguém”, de Salomé, a curta Cuba”, de Filipa César e, na secção “Generation”, a média-metragem Um Fim do Mundo”, de Pedro Pinho. Esta secção é dedicada a filmes sobre adolescentes e/ou dirigidos a um público essencialmente jovem.

“Um Fim do Mundo”, a preto-e-branco, tem a duração de 62 minutos, é assumidamente ficção, mas preserva um forte carácter documental. Desenvolve o retrato de um grupo de adolescentes do bairro da Bela Vista, em Setúbal. Um só dia. Um só fim.

As personagens são desgarradas, de representação quase livre, traduzindo-se numa naturalidade de um quotidiano marginal; diálogos ordinários e banais ecoam ao longo do filme. É então a câmara que está encarregue de captar todos esses personagens reais, soltos e fugidios. O jogo de contrastes, entre as tonalidades, é muito bem aproveitado, o que justifica claramente a escolha do preto-e-branco. Um facto, que se observa tanto na captação de simples objectos, como a nível cénico e paisagístico, no meio urbano ou rural, noite e dia, ou ainda na diferença de cores das peles dos personagens.

Eva, talvez a personagem central, uma miúda calada e introvertida, gera curiosidade aos outros, e um dia convidam-na para a praia. Harmonia e desacato vivem lado a lado neste dia de calor e vento. Jovens com hormonas descontroladas agitam-se entre areia e mar, conversas entre eles de cariz risonho, furioso, ciumento e até corte e costura são partilhadas.

Quando Eva está na praia, destaca-se o contraste da sua pele preta com a areia tão branca, reflexo de uma óptima fotografia em acção. A certa altura, Yara, a amiga de Eva, vira-se para ela e diz-lhe:  “És mesmo uma preta esquisita, fogo!” Yara é o oposto de Eva, sempre faladora, é dotada de uma lingua disparatada, alguns minutos antes, a caminho da praia com os amigos, ao passarem pela marina passam por um hotel e Yara diz: “Bem chique, chique bem”, num tom ressabiado”.

No fim do filme, um corte de luz propositado fará a noite escura sobressair entre luzes de carros, lanternas e fogueiras. Acabando impertinentemente com a paródia vivida no parque de diversões. O parque surge também no início; gritos histéricos de adrenalina expulsos em cada brinquedo, adolescentes agarrados ao telemóvel num engate inocente. Rapazes com um estilo visual à Cristiano Ronaldo e raparigas com rabos de cavalo bem altos, cabelo pegado e bem repuxado para trás, chocam e rechocam nos carrinhos de choque e supermercado.

Pedro Pinho nasceu em Lisboa em 1977. Estudou Cinema entre a ESTC da Amadora e a ENS- Louis Lumieré, em Paris, passando ainda pela London Film School. Da sua filmografia constam os filmes “Perto” de 2002, “No Início” de 2005, e “Bab Sebta” de 2008, longa-metragem documentário, co-realizada com Frederico Lobo, premiada no Fid Marseille, Doclisboa e Forum Doc Bh.

“Um Fim do Mundo” é a sua primeira ficção de formato longo, realizada no âmbito do projecto Bela Vista BV. Está nomeada em Berlim e é lá que se encontra Pedro Pinho.



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