Um Homem Na Cidade #2 – Ilustração de Bruno Martins

Um Homem na Cidade #2

Menos tempo que um vídeo no Youtube

Nos últimos tempos, têm aparecido através das redes sociais muitos projectos que procuram um financiamento via crowdfunding. Miguel Gonçalves Mendes, o realizador de “José e Pilar”, lançou mesmo uma campanha que chegou a todos os meio de comunicação nacional, procurando patrocinadores para o seu novo projecto. O crowdfunding é talvez uma das mais brilhantes ideias a surgir num tempo e numa época em que o papel do Estado como garantia da realidade cultural dum País se encontra em risco.

Não vale a pena relatar em pormenor tudo aquilo que aconteceu nos últimos anos em Portugal com os financiamentos públicos. Todos sabemos o que aconteceu e o porquê mas, mais grave do que isso, é acreditar piamente, numa sociedade cada vez mais “económica”, que a arte a cultura por si só devem ser olhadas da mesma forma como são outras áreas da sociedade. Não são, nem nunca serão. A arte e a cultura são apostas no escuro, na procura exacta da luz, da utopia, da reflexão, da humanidade e, como na própria vida, é difícil prever que este ou aquele filme, esta ou aquela peça de teatro, venham a viver no Olimpo da identidade portuguesa e brilhar no firmamento de um dos nossos momentos mais altos. A arte e a cultura, como expressão dum povo e dum País, é como uma vida. Todos os pais, quando são pais, não discutem o preço e o valor que vão investir num filho. Fazem-no pelo amor e pela esperança de que, um dia, esse filho tornar-se-á um ser humano excepcional, feliz, solidário, brilhante, e que em muito será um orgulho, não só para quem o criou, como para o País onde vive e pertence. O mesmo se passa com a arte e a cultura dum povo. Ela é a expressão máxima da sua existência e deve ser encarada sempre como um investimento que nasce da emoção do ser. O ser deverá ser sempre mais importante que o ter. Mas os tempos difíceis que atravessamos e que nos subjugam à ditadura do dinheiro não se compadecem com ideologias que, apesar de apartidárias, poderão sempre ser usadas e abusadas como expressões dum qualquer descontentamento, imagem real duma realidade, existência difícil dum povo.

Por isso mesmo, estes apelos e novas fórmulas de financiamento – que no estrangeiro conhece verdadeiros casos de sucesso – começam a despontar por aqui. Já são muitos os que tentam vingar para lá do financiamento público que não existe, para lá da ideia fechada de que apenas existe uma forma de financiar a arte e a cultura dum País. Para que o crowdfunding seja uma realidade viável, só falta que o público perceba a pertinência e urgência deste apoio e que caiam por terra os estigmas que ainda hoje ordenam aquilo que é, ou não é, culturalmente aceite em sociedade. Criou-se uma ideia perigosa de que apenas projectos financiados por institutos públicos têm uma espécie de selo de qualidade, como se esse selo as validasse automaticamente de qualidade e pertinência. Os outros, os que não conseguiram chegar aos apoios, são muitas vezes desconsiderados, como se tivessem perdido uma corrida ou, simplesmente, o facto de não ganhar um apoio público lhes retirasse o mérito do projecto que querem levar adiante.

É preciso um pouco mais de democracia nesta visão. Nem falo no dinheiro e de como ou quem o dá. Falo na visão pura de quem recebe a arte e a cultura que se faz em Portugal e que é muita e que não chega a toda a gente. Da próxima vez que ouvirem falar ou lerem sobre um projecto que procura financiamento através do crowdfunding percam cinco minutos do vosso tempo e dêem uma olhadela. Talvez assim a arte e a cultura em Portugal também alcance aquilo que todos nós procuramos: pluralidade, democracia, diferença e, acima de tudo, talento.

Crónicas Anteriores: #1 – Tanta Lisboa para ver e tão pouco tempo

Ilustração de Bruno Martins



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