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Um lugar [pouco] comum

Uma dinâmica Associação Cultural. A descobrir em Coimbra.

there is a place with a bit more time
and a few more gentler words*

Há um lugar em Coimbra, fruto da vontade e da persistência de um grupo de amigos que, de melodia e dinamismo no corpo, almeja contrariar o óbvio e a tendência da habitual programação cultural. A associação Lugar Comum, nascida há pouco mais de 6 meses, conta uma história sem mitos, mas com destino traçado pela música.

Partindo de uma experiência acumulada ao longo dos anos por alguns dos seus elementos na promoção, organização e realização de eventos musicais, no seio da Rádio Universidade de Coimbra (RUC), Carla Lopes, Hugo Cardoso, Joana Corker (design gráfico), Pedro Sousa, Ricardo Jerónimo, Ricardo Mariano, Rui Oliveira, Sara Mendes e Susana Sampaio Dias, criaram uma associação cultural com o intuito de oferecer propostas musicais que caminhassem por trilhos menos evidentes, erguendo um Lugar Comum que de cliché pouco tivesse.

Na génese desta associação está a RUC, Rádio da Universidade de Coimbra, já com 23 anos, conhecida pelo seu tom original e singular. “Foi a base para todos nos conhecermos. Se não fosse a RUC, dificilmente existiria a Lugar Comum (LC). Foi aí que tivemos o primeiro contacto com a organização de concertos, dado que todos os anos a RUC tem um concerto de aniversário, sendo uma primeira abordagem a esse mundo que depois multiplicámos à nossa maneira”, conta Carla Lopes, locutora de Tour de France e Radio Bambaataa (RUC).

“Faziamos os 5 parte da RUC, e queriamos fazer algo independente da estrutura na qual estávamos incluídos, por alguma falta de espaço e por uma certa necessidade de autonomia”, justifica Pedro Sousa, autor de Pop Dealer e locutor de Tour de France e do já extinto Metro, todos programas da RUC.

Ricardo Mariano, autor do programa de rádio Vidro Azul (RUC e RADAR), explica mais detalhadamente como se escreveram os primeiros parágrafos desta história: “Começámos de uma forma muito pouco formal e oficial, em Fevereiro de 2008. Fizemos um concerto em parceria com o Teatro Académico de Gil Vicente (TAGV) – “Indie Folk TAGV” –, as coisas correram bem e pensámos que poderiam correr sempre assim se fizéssemos as coisas por nossa conta”.

Os protagonistas da primeira noite “Indie Folk TAGV” foram o compositor britânico Magic Arm e os norte-americanos Ola Podrida, dois projectos sob o signo da ambígua etiqueta indie, que a associação – na altura, constituída por 5 membros e ainda por oficializar – conseguiu trazer a Coimbra.

O balanço da iniciativa foi de tal forma positivo, que os próprios responsáveis do TAGV incentivaram o grupo a organizar-se enquanto estrutura: “Daí a necessidade de uma associação, uma estrutura que conseguisse incorporar esse agenciamento de concertos, que nos desse liberdade para mais coisas para além disso, já que uma empresa se concentraria provavelmente somente na organização de concertos”, afirma Pedro Sousa.

A 3 de Setembro de 2008 nascia, assim, a LC, uma associação sem fins lucrativos, “sem no entanto prescindir de elevados patamares de exigência e maturidade, através da apresentação de propostas de irrefutável qualidade e originalidade”, como não receiam proclamar.

O nome, escolhido por Rui Oliveira – autor de Porto de Abrigo (RUC) –, surgiu como sinopse de tudo o que a associação pretende ser: “As pessoas vêem nos concertos organizados por nós um lugar comum de qualidade da cultura e da música indie”, desenvolve Rui.

“Surge muito pela comunhão em torno do mesmo tipo de música, não podemos negar. Se nos juntámos foi por partilharmos do gosto por um território mais ou menos definido de sonoridades”, acrescenta Pedro Sousa.

Com nomes no histórico da associação como Darren Hanlon, The Dodos, Butcher The Bar, Ruby Suns, Erica Buettner e Márcia Santos, os membros da LC sublinham que há uma coerência na linha musical que apresentam.

“Tudo se baseia em querermos ver em Coimbra bandas que não costumam tocar em Portugal, de que gostamos imenso e que costumamos passar nos programas de rádio que fazemos”, simplifica Ricardo Mariano.

Já Hugo Cardoso explica que não se baseia só no gosto comum dos membros da associação: “Não é tanto aquilo que nós gostamos, mas sermos sinceros na linha criada para a LC. Tentamos que haja congruência, promovendo uma cultura alternativa com determinada qualidade. Há sempre uma filtragem”.

O processo de procura e selecção das bandas que trazem a Portugal não é linear. “Não temos critérios muito estanques em relação às bandas. Começámos a oferecer coisas que ficavam só pelo Myspace, Last Fm, etc.. Para além de gostarmos daquilo que oferecem, temos também de perceber as boas oportunidades que nos dão. Muitas das bandas que queremos que venham cá tocar são dos E.U.A. e seria impossível para nós carregar esse tipo de gastos, então tentamos perceber sempre quando eles estão na Europa, para que seja compensador para eles virem cá tocar”, conta Ricardo Mariano.

Inspirados por sites como Day Trotter ou La Blogotheque, os membros da associação conimbricense conseguem, não raras vezes, chegar primeiro a alguns nomes.

“Esse é um dos grandes segredos e uma das nossas grandes vantagens. Uma justificação para não nos metermos em grandes atalhos por onde não nos sentimos tão confortáveis”, conta Pedro Sousa.

Hugo Cardoso justifica a filtragem de nomes com o lado financeiro do processo: “Partimos de uma premissa que é fazer uma ponderação de custos e receitas. Como exploramos um território mais alternativo e que não tem tanta visibilidade é difícil chegar a entidades públicas de que nós precisamos. Todos têm de ter sustentabilidade própria, mas não olhamos a lucros”.

“Nessa parte ser indie não tem piada, mas é a única”, diz Carla Lopes, soltando uma gargalhada.

Esta atitude, marcada pelo amor despreocupado pelos territórios menos explorados da música, é também encontrada tanto nas bandas que procuram, como no público que querem atrair.

“Um dos fundamentos da cena indie é dar mais importância ao prazer em tocar do que fazer exigências a quem organiza os concertos. Nos E.U.A., esta é uma prática que se faz desde a década de 80/90 em que bandas já com grande nome, mas com etiqueta indie, são capazes de tocar em pequenas salas, bibliotecas, liceus, lojas de discos ou museus”, evidencia Pedro Sousa.

Carla Lopes concorda: “Há uma série de formalidades que são dispensadas pela vontade de tocar ao vivo que é o tira-teimas da música”.

O acompanhamento das bandas quando já estão em território nacional é também feito de forma muito informal e próxima. Na LC, é obrigatória uma franqueza estabelecida entre os dois lados.

“Normalmente, as bandas ou os projectos que fazem este tipo de música têm uma atitude muito descontraída e nada de estrela, associada à etiqueta indie. Para nós é bom porque não somos profissionais de promoção de música e é bom para eles porque têm a mesma atitude em relação à música – não são profissionais que andam pelo mundo a tocar para ganhar dinheiro”, explica Ricardo Jerónimo.

“Fazemos o acompanhamento deles desde o aeroporto até novamente ao aeroporto, como se tivéssemos a receber amigos e não pessoas que contratámos. Isto é determinante para eles chegarem à sala e estarem confiantes e cientes do espírito que envolve todo o evento e toda a cidade”, concorda Carla Lopes.

Não tendo tradição em eventos desta índole e sofrendo as consequências da centralização cultural em Portugal, a cidade de Coimbra reúne, na opinião dos membros da LC, todas as condições necessárias para que a situação se modifique.

“É uma cidade estudantil, com gente jovem de vários interesses, devendo isso ser explorado. Era isso que faltava e é isso que queremos colmatar”, afirma Hugo Cardoso.

“Não havia tradição, é verdade. A única tradição que há em Coimbra é a de nos queixarmos, dizendo que não há nada e depois assobiar para o lado. Uma das coisas que me incentivou a integrar a LC foi precisamente esta vontade de deixar de fazer isso e de fazer alguma coisa pela cena cultural da cidade”, afirma convictamente Ricardo Jerónimo, autor de Domingos Paciência (RUC).

Se outrora a procura de espaços era um obstáculo, actualmente as coisas estão mais ou menos conseguidas: “Estabelecemos relacionamentos muito informais com determinados espaços, soluções alternativas que não passam pelas clássicas, como o Kirsh (restaurante de fondue/bar), o Salão Brazil (restaurante/bar/sala de espectáculos) ou a Oficina Municipal de Teatro”, conta Ricardo Mariano.

Relativamente a dificuldades que ainda enfrentam, os membros da LC referem consensualmente a falta de apoio da Câmara Municipal de Coimbra (CMC).

“Há uma questão relativamente à CMC que me parece um pouco hipócrita, que é o facto de eles nos dificultarem tanto a passagem de licenças para um concerto, alegando a falta de interesse cultural para o município e, posteriormente, inserirem os nossos eventos na agenda cultural”, ironiza Pedro Sousa.

Ricardo Jerónimo acrescenta: “Isto quando a LC está a fazer com que venham a Coimbra nomes que nunca viriam a outra cidade que não Lisboa ou Porto, fazendo que venham a Coimbra pessoas de 100 e 200km de distância, como já tem acontecido”.

“Uma coisa que aconteceu mais rapidamente do que nós pensávamos, foi criarmos à volta da LC um certo hype. Há muita gente que vem aos concertos por serem da LC – é já uma marca, identificam-na com uma série de coisas”, justifica, ainda, Ricardo Mariano.

A parte estética da LC é algo que os seus membros consideram essencial para criar essa marca. A cargo da designer Joana Corker, a imagem da associação constrói-se muito à volta do desenho. “No início, disseram-me que gostariam do universo do desenho, baseando-se essencialmente na exploração do traço. A linguagem dos trabalhos da LC insere-se muito nesse espectro”.

“À semelhança desse espectro indie norte-americano, dos sites, publicações, de certas bandas que constroem autênticos imaginários em termos de imagem, da forma como se expõem, nós também quisemos fazer isso com a LC. Diferencia-nos muito de outras estruturas”, conclui Pedro Sousa.

Quanto ao futuro da LC, estão previstas algumas mudanças, nomeadamente no que diz respeito ao alargamento das áreas que abarcam, sendo ambição certa chegar a outros domínios artísticos, como sejam a escrita, o teatro, o cinema, a fotografia e as artes plásticas.

“É uma pretensão nossa alargar o âmbito da associação e sermos este lugar comum, aberto a pessoas com boas ideias”, diz Hugo Cardoso.

Sendo assim, e à semelhança do debate realizado a propósito do festival “Indie Folk TAGV” – “Os Territórios Indie e as suas Fronteiras”, a LC irá promover ainda a discussão cultural, através de “Programação Musical: Estruturas Alternativas” com a participação de Vitor Belanciano (jornalista do Ípsilon), João Araújo (programador do Estaleiro Cultural Velha-a-Branca em Braga), Pedro Jordão (programador do Mercado Negro em Aveiro) e Gonçalo Castro (Antena 3), dia 16 de Maio, no TAGV. A par da discussão de ideias, realizar-se-á o festival “Indie Songs Don’t Lie”, a decorrer nos dias 20 e 21 de Maio, na discoteca Via Latina, com a presença dos canadianos Handsome Furs, do alemão Nils Frahm e do norte-americano Peter Broderick. Já em Junho, nos dias 6 e 19, a LC trará ao Kirsh Jesca Hoop e Simone White, respectivamente.

*Morrissey.



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