“Um milionário em Lisboa” | José Rodrigues dos Santos

“Um milionário em Lisboa” | José Rodrigues dos Santos

A erupção do vulcão arménio

Ainda na primeira metade de “Um milionário em Lisboa” (Gradiva, 2013), José Rodrigues dos Santos ensaia um diálogo entre Kaloust Sarkisian e Sir Kenneth Bark, curador da National Gallery. O tema é a definição de arte portadora da noção de belo e as mudanças desse paradigma depois do flagelo da Primeira Grande Guerra.

Para a conversa convocam-se nomes como Marchel Duchamp, Picasso, Stravinsky, Virginia Wolf, Dostoiévski, Platão e Sócrates. Percorrem-se séculos em poucas páginas e discute-se convenções, ideias, conceitos e revolução das mentes face ao novo, ao diferente. Ainda que não seja, dizemos nós, uma das prioridades deste romance de José Rodrigues dos Santos, a ideia de “formar” o leitor está bem patente nas mais de mil páginas que representam os dois mais recentes livros do autor, que assenta a sua escrita numa base de assinalável e eficaz entretenimento.

Algumas semanas depois de lançar “O Homem de Constantinopla”, chega-nos entretanto “Um milionário em Lisboa”, uma obra ficcionada sobre Calouste Gulbenkian que visa dar seguimento ao primeiro livro e leva o leitor a conhecer um pouco do progresso do “senhor cinco por cento” nos negócios do petróleo, que o tornariam no homem mais rico do mundo,  na construção da maior coleção privada de arte que o planeta já conheceu bem como o amor que o arménio desenvolveu pela capital portuguesa, local que serviu de exílio durante a Segunda Grande Guerra.

Este livro dá eco a episódios como a detenção de Sarkisian pela PIDE, a criação da sua fundação homónima, permitindo ainda continuar a viagem pela mente de um dos mais brilhantes homens de negócios que o mundo já conheceu.

Ainda que seja Kaloust o personagem maior deste livro, Krikor, o seu único herdeiro, tem um papel deveras importante na trama, sendo que a primeira metade do livro centra a atenção sobre o atribulado e dramático percurso de vida do jovem Sarkisian que, depois de correr atrás de uma paixão avassaladora por Marjan Kinosian, se vê envolvido numa das mais negras fases da história do século XX, sendo engolido pelo movimento que ficou conhecido por “Genocídio Arménio”, uma marcha de morte organizada pelas forças do Império Otomano que massacrou perto de um milhão de homens, mulheres e crianças de origem arménia.

Fazendo o leitor atravessar alguns dos momentos mais marcantes do século XX, José Rodrigues dos Santos torna “Um milionário em Lisboa” num diário de costumes e vivências de assinalável competência, revelando estratégias de um homem com um ímpar poder negocial que conseguiu domar a seu bel-prazer as mudanças geopolíticas provocadas pela dialética belicista das duas Grandes Guerras e que viu, em Lisboa, um definitivo porto de abrigo, muito por culpa das semelhanças entre o espírito português e o arménio e a arquitetura gémea entre Constantinopla e Lisboa, isto depois de viver alguns dos momentos mais importantes da sua vida em Londres ou Paris.

A escrita cativante de José Rodrigues dos Santos torna a narrativa de “Um milionário em Lisboa” – tal como já tinha acontecido com “O homem de Constantinopla” – num autêntico filme romanceado, que não dá tréguas ao leitor que rapidamente é seduzido por uma estória invulgar onde a ação se divide pelos quatros cantos de um mundo sempre à beira do colapso.



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