1_ninguem_e_100mil-header01

Um, Ninguém e Cem Mil

“Um, Ninguém e Cem Mil”, tragicomédia de Luigi Pirandello sobre o modo como nos multiplicamos uns diante dos outros, estreou em Lisboa, no Teatro Tivoli e irá passar pelo Rivoli no Porto nos dias 23 e 24 de Setembro.

É a mais recente criação teatral do Dragoeiro – Companhia Teatral (o primeiro grupo de teatro profissional dos Açores), uma adaptação para teatro do romance homónimo de Luigi Pirandello (1867-1936), prémio Nobel da Literatura em 1934, um dos mais importantes autores teatrais do séc. XX, mundialmente conhecido pela sua peça “Seis Personagens à Procura de Autor”.

Em “Uno, nessuno e centomila” (1926), seu último romance, Vitangelo Moscarda, 28 anos, banqueiro influente e pai de família, narra tudo o que lhe aconteceu a partir do momento em que, inesperadamente, a mulher lhe revela que o seu nariz, ligeiramente torto, pendia para o lado direito. Começa aí uma descida a um inferno pessoal em torno da sua identidade, que o leva à loucura e ao descalabro financeiro.

A identidade, a forma como nos constituímos uns diante dos outros, questões tão características do universo de Pirandello, são decisivas neste texto. Vitangelo Moscarda só se apercebe do problema do seu nariz quando a mulher o aponta.

Na origem deste projecto está Nelson Monforte, director artístico do Dragoeiro (a primeira companhia de teatro profissional dos Açores), que há muito admirava o trabalho de Virgílio Castelo, e a sua capacidade de estabelecer uma grande empatia com o público. “- Eu gosto de quebrar a 4ª parede”, justifica.

De várias ideias em cima da mesa, incluindo a “Morte de Ivan Ilitch” de Tolstoi, o texto de Pirandelo foi aquele em que melhor conseguiram antever a criação de um espectáculo para um público transversal. Virgílio Castelo explica:

“O texto tem a simplicidade dos génios e tem a particularidade de conseguir verbalizar as coisas que pensamos. Houve pessoas que no final das ante-estreias vieram dizer-nos, “ – Pois, isto são as coisas que nos passam pela cabeça quando queremos dormir e não conseguimos”. Nós tivemos um grande trabalho para tornar este espectáculo acessível e ao mesmo tempo que trouxesse o essencial do Pirandello.”

Nelson Monforte, encenador e actor açoriano, complementa-o, conta-nos que o seu trabalho junto das populações nas ilhas, em sítios onde as pessoas vivem de forma muito humilde, lhe ensinou que todas as pessoas vivem um espectáculo como uma experiência sensorial e que aderem a ele quando são capazes de se projectarem naquilo que vêem. E por isso criou para a representação um registo que se aproxima das suas memórias no Pico:

“Eu queria que o Virgílio falasse como os baleeiros, lá da minha ilha, em que eles estão a falar e a vivenciar a cena e nós acreditamos neles. Contam-nos, vivenciando a cena. Um discurso indirecto e directo ao mesmo tempo, alternando, no passado, no presente.”

Em cena está também a violoncelista Margarida Moser que, discretamente, toca em constante relação com o personagem. Nelson Monforte quis deixar a sua presença em aberto, entre uma terapeuta e uma música.

Guantánamo, um hospício…

Na primeira parte do espectáculo Virgílio Castelo usa um fato branco, que parece feito de um material descartável, asséptico. Na segunda parte despe essa pele e fica com um fato cor de laranja que sugere tanto o presídio militar de Guantánamo como um asilo. Nélson Monforte explica que quis mesmo manter a ambiguidade e diz que Pirandello também construiu essa duplicidade no próprio texto. Curiosamente o cor de laranja também nos liga a uma outra dimensão que surgiu quando Virgílio Castelo falou da abordagem que fez deste papel. Contou-nos:

“A mim não me interessou tanto a especulação intelectual e racional, porque essa já está no texto do Pirandello, o texto interessa-me como ascese à procura de uma pureza essencial. Foi uma experiência de despojamento, como se fosse em peregrinação deitando fora o que não é necessário. É isso que acontece a Vitangelo Moscarda.” E também ao actor, ele mesmo, dirá:

“Já fiz dezenas de personagens, tem havido um desdobramento de várias zonas da minha personalidade à procura de dar verdade àquelas coisas que estão dentro de mim. Eu continuo a ter o problema de todas as pessoas: Quem sou eu? Não há maneira de chegarmos ao âmago de ninguém porque pelos vistos nem cheguemos ao nosso.”

“Fazer a corda”

“Um, Ninguém e Cem Mil”,  é também o cruzamento de Monforte com Hermano Maia, produtor que desde há sete anos vive e trabalha em Portugal, trazendo artistas brasileiros da música e do teatro, e que se associa pela primeira vez a uma produção teatral no nosso país. A ideia é poderem levar o espectáculo a todo o país, fazendo aquilo que antes do 25 de Abril se chamava o fazer a corda, como lembra Virgílio Castelo, que confessa a sua pena por ter vindo para o teatro numa altura em que se tinham deixado de fazer tournées. Porto, Faro, Açores, Madeira e o próprio Brasil, estão no horizonte próximo.


“Um, Ninguém e Cem Mil”, com Virgílio Castelo, estará em cena, pela primeira vez no Porto, no Teatro Rivoli, nos dias 23 e 24 de Setembro, às 21h30.Encenação: Nelson Monforte

Interpretação
: Virgílio  Castelo Música: Margarida Moser Produção Executiva: Hermano  Maia Produções

Fotografia de Isa Silva



Também poderás gostar


Pin It on Pinterest

Share This