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“Um Postal de Detroit” de João Ricardo Pedro

Faz de conta que é noite cerrada na nossa alma

Reviver a História, a vida ou a morte, pode ser uma amálgama de sentimentos antagónicos, principalmente se a vamos descobrindo, e reconstruindo, como se de um complicado puzzle emocional se tratasse. A verdade (sinta-se a liberdade de colocar a palavra entre aspas) está repleta de ecos de diferentes quadrantes, podendo o seu somatório não revelar o resultado, supostamente, esperado ou desejado.

É esse exercício da matemática da vida que João Ricardo Pedro, vencedor do Prémio Leya 2011 e autor de “O Teu Rosto Será o Último”, faz por via de “Um Postal de Detroit” (D. Quixote, 2016), romance cuja génese remete para um final de tarde quente de setembro de 1985, fatídico dia 11 (não, não é engano ou gralha) que marca na nossa memória o maior acidente ferroviário ocorrido em território português entre um Sud-Express com destino a Paris, repleto de emigrantes, e um Regional que seguia para Coimbra.

A falha, que se crê humana, deu lugar a um choque frontal em Alcafache, ponto da Linha da Beira entre Magualde e Nelas, e ceifou a vida a dezenas de pessoas (algumas fontes elevam a fasquia até às duas centenas ainda que não existam ainda hoje, trinta anos depois, um número oficial), algumas delas ainda sem a devida identificação.

No dia seguinte a esse trágico acidente, a mãe de Marta, a nossa heroína omnipresente, recebe um inesperado telefonema. Do outro lado da linha informam que a mochila da filha, estudante de Belas-Artes, apareceu nos destroços. Silvana, a empregada da casa e dona de um qualquer sexto, sétimo ou oitavo sentido, previa uma desgraça. João, no seu mundo de índios e cowboys no Oeste distante, assistia à cena.

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Trinta anos mais tarde, agora no papel de esquizofrénico narrador, recordaria o miúdo sensível e devoto a uma irmã que desapareceu deixando apenas como rasto alguns cadernos de desenhos que misturavam vidas, realidades e efabulações mas que votavam ao esquecimento a sua vida. Será que para Marta, o seu irmão não existia além da figura de um intrometido que lhe assaltava o quarto?

A partir dessas recordações desenhadas, o (nosso) narrador entra numa viagem sem regresso ou destino e tenta recriar os passos de Marta nos dias que antecederam à tragédia de Alcafache. Pelo caminho, tortuoso, misterioso e onírico, ficamos a conhecer uma miríade de personagens entre prostitutas vesgas, aspirantes a campeões de boxe, polícias, assassinos, médicos, especialistas em futebol (de clara devoção verde e branca), fiéis servidores de rostos semelhantes a personagens de romances clássicos, mestres estrábicos do bilhar às três tabelas ou técnicos bairristas especialistas em (des)arranjos eletrodomésticos.

De Horácio Joaquim Jiménez passando por Ângela, Ahab, Bayarmaa («que antes foi Amanda e que antes de ser Amanda foi Núria e que antes de ser Núria foi Zélia e que antes de ser Zélia foi Fernanda e antes de ser Fernanda já havia sido Nandinha»), Raul, Alcides, Franclim, Hipólito ou Sofia, todos têm um lugar certo, no momento certo, no contexto certo, seja ele um bairro alfacinha, uma prisão no litoral alentejano ou uma breve incursão a Paris ou Detroit.

Independentemente do grau de fragmentação de cada relato, memória ou protagonista, João Ricardo Pedro consegue com que o todo narrativo seja coeso, inteligente assim como quase, quase, divertido e dramático. A marginalidade das ora curtas ora longas frases de “Um Postal de Detroit”, assim como das imagens que recorrentemente nos assaltam, exorcizam e cauterizam a dor da morte, da ausência, das paixões não correspondidas.

Entre a loucura e o discernimento fugaz da realidade, ainda que moldada com base num acentuado negrume, João Ricardo Pedro cruza e apresenta a vida tal como ela é e oferece um livro luminoso, viciante, muito, mas muito bem escrito.



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