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Um precipício no mar

Dos Artistas Unidos, com encenação de Jorge Silva Melo na Guilherme Cossoul, de 28 de Outubro a 7 de Novembro de 2010.

Consegue imaginar um pesadelo de horror ser a sua verdade? Consegue prever a dor de uma perda? Consegue valorizar sem perder? Consegue sobreviver à perda de um filho? Consegue suportar o horror de perder o que é parte de si e da sua vida? Consegue suportar a dor e a culpa, mesmo quando não teve culpa alguma? Consegue gerir o vazio e o silêncio do vazio? Consegue imaginar-se a ficar sem nada e assistir a tudo, sem nada poder fazer? Consegue imaginar-se viver o futuro sem o seu futuro? Consegue viver sem o seu maior tesouro, sentido e alegria de viver?

Não é um espectáculo de teatro comum. Não há sequer um diálogo. Não é um texto português nem aborda um tema feliz. Não se recomenda a jovens pais e mães. Não acontece a toda a gente mas infelizmente acontece nos dias de hoje. É um espectáculo cru e sentido, que pode ser só nosso por representar um medo interior ou uma realidade próxima, é íntimo e assustador. Eis um teatro intimista que nos transporta facilmente para o lugar do outro, que dá vontade de chorar, de abraçar o actor em cena e de fingir que aquele pesadelo na verdade é só ficção, uma peça de ficção do Simon Stephens, que vai estar em cena até domingo, na Guilherme Cossul, pela voz de João Meireles e encenação de Jorge Silva Melo.

João Meireles interpreta a dor de um jovem pai e conta a sua história, em primeira pessoa, e aparentemente, em primeira mão, a cada um dos espectadores que o escuta.

Não parece teatro, parece real. Parece até que ajuda estarmos ali, quietos, calados e atentos a ouvi-lo e escutá-lo durante aqueles trinta minutos. Afinal o desabafo e partilha ajudam a aliviar a dor.

A peça é contemporânea e retrata a perda e a impotência do ser humano perante os infortúnios da vida como a perda de um filho. Essa perda, esse vazio, essa tragédia desperta a pergunta clássica da existência e da responsabilidade de Deus e do como será a vida de um pai, três semanas depois desse dia. Infelizmente todos nós vivemos ou sabemos de histórias destas na nossa família e/ou amigos. E como é possível que Deus exista depois disto nos acontecer? “Há coisas que não se explicam mas que um dia vamos saber explicá-las”, diz ele.

Apesar desta cruz, sente-se a fé deste pai com um buraco na barriga e a sua vontade de acreditar na lógica de Deus, de encontrar uma resposta para o seu trágico destino, de lutar por um novo futuro, de lutar pela Vida depois do choque da perda do grande amor da sua vida.

A encenação de Jorge Silva Melo é anti-teatral e o mais íntimo e banal possível, para nos fazer sentir que o actor podia ser um de nós. Por isso, se torna genial e ousado este espectáculo. Não se espera nem nunca se viu nada assim em teatro. É estranho e inesperado. Não é teatro, é uma história terrivelmente real aos nossos olhos e pés.

João Meireles tem razão para acordar nervoso todos os dias desde que interpreta este papel. Não admira! É a prova que este Alex vive e respira dentro de si. A sua interpretação é transparente, credível e sofrida por si e por todos aqueles que acompanham as suas palavras e escolhem experienciar esta viagem de dor e de tristeza ao precipício do mar.

A não perder, se for feliz, até domingo, na Guilherme Cossul, em Lisboa.



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