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“Uma Coluna de Fogo” de Ken Follett

Entre a tolerância e o fanatismo

Depois das conhecidas e bem-sucedidas sagas que foram Os Pilares da Terra e Um Mundo Sem Fim, eis que Ken Follett apresenta um novo desafio aos seus leitores. Chama-se Uma Coluna de Fogo (Editorial Presença, 2017), é o primeiro tomo de uma, claro está, trilogia, e remete-nos para um regresso à mítica Kingsbridge do século XVI.

Tudo começa no natal de 1558 quando Ned Willard regressa a Kingsbridge depois de um ano ao serviço de um negócio de família em Calais, França, e descobre que o mundo tal como o conhecera mudou. A Europa vive sob uma atmosfera cinzenta, marcada pela tirania e intolerância, os tumultos acontecem a cada esquina e a “sua” cidade está dividida pelo ódio que divide religiões e, inesperadamente, Ned vê-se no lado oposto da mulher com quem deseja casar, Margery Fitzgerald, uma relação que assim se vê ameaçada pela diferença de credos entre católicos e reformistas e que rapidamente se alastra aos campos comerciais, económicos e políticos entre as famílias dos amantes.

Estão assim lançados os dados para uma aventura em forma de romance histórico que nos transporta por terras de Hispaniola, Espanha, França e Escócia, mas, infelizmente, pouca Kingsbridge, e é sublinhado por várias camadas de avareza, desconfiança e fome de poder, elementos que favorecem a génese de diversas conspirações que parecem envolver quase todos os personagens.

E ciente que ao leitor é devida uma contextualização, Follett dedica as primeiras páginas do livro a uma exposição da conjuntura que se vivia na Inglaterra de 1558, através de um encontro entre Ned e sua mãe Alice, Reginald Fitzgerald e seu filho Rollo, Earl of Swithin e o futuro marido de Margery, Bart. A conversa é mediada por Sir William Cecil, o futuro gerente da propriedade de Isabel I e o Secretário de Estado às ordens de Henrique VIII. Após a morte de Francisco II, o objetivo de Cecil é travar a violência e conseguir uma transição pacífica para Isabel I. Por outro lado, para católicos como Rollo e sua família, Isabel é ilegítima e, por isso, a ideia é apoiar Maria, rainha da Escócia, para que esta ascenda ao trono inglês. A ideia é evitar que a protestante Isabel assuma o trono, pois isso significaria a perda da sua riqueza e influência.

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À medida que as páginas avançam, Ken Follett não perde a oportunidade de tornar a narrativa mais rica, graças à presença de muitos ilustres personagens históricas, alguns deles reais, outros fictícios. Assim, do elenco de luxo de Uma Coluna de Fogo destacam-se, por exemplo, e além dos já referidos, Catarina de Médicis, Henrique III, Francisco II, John Calvin, Sir William Cecil, Sir Francis Drake, Sir Francis Walsingham (mestre de espionagem de Isabel I), Jaime I (que sucedeu a Isabel I em 1603) e Guy Fawkes (soldado inglês católico que encabeçou a “Conspiração da Pólvora”, movimento que pretendia eliminar Jaime I). Dos personagens saídos da criatividade do autor, salientemos, Rollo, o irmão de Margery, Pierre Arumande de Guise, (um perigoso e intrigante “alpinista social”), Alison McKay (amiga de infância de Mary Stuart), Sylvia Palot (livreira e protestante) e Barney Willard (irmão de Ned).

Ao longo deste bem intrincado romance, Follett reúne uma série de temas e acontecimentos independentes que se complementam e percorrem a geografia de Uma Coluna de Fogo com a habitual mestria e talento do escritor britânico, mas que assume particular brilhantismo no exercício pleno enquanto contador histórias na relação crescente de rivalidade entre Ned Willard e Pierre Arumande de Guise. A forma como Follett dirige os seus personagens faz com que a linha entre realidade e ficção se torne tão ténue que se torna complicado destrinçar entre o que escrevem os anais ou o imaginário (a derradeira página do livro tem uma lista que mostra quem é/foi real ou fictício), não sendo alheio a isso a competência como os diálogos são apresentados, especialmente no que respeita à sua assertividade e precisão temporal.

De leitura apaixonada, mas que também assume uma componente instrutiva, Uma Coluna de Fogo é uma saga épica, dividida em cinco partes (não contando com o epilogo à parte), que se centra num período da História da Europa, que lutava por aquilo a que se ousa(va) chamar liberdade religiosa, entre a tolerância e o fanatismo, e principalmente do contexto inglês, e traça um percurso de meio século. Nota-se, como sempre, o fantástico trabalho de investigação de Ken Follett e apesar de se tratar do primeiro volume de uma nova trilogia, pode também ler-se este romance sob a perspetiva de uma fatia da História centrada no período pré e pós 1558.



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