UMA SOLIDÃO DEMASIADO RUIDOSA

“UMA SOLIDÃO DEMASIADO RUIDOSA”, a partir do romance de Bohumil Hrabal

O Peso Das Memórias.

É a constante lembrança das memórias que nos leva à solidão ou será que é a solidão de uma rotina que nos prende às memórias? Estas e outras questões existenciais sobre passado e presente e de como é que as memórias influenciam a forma como vivemos e encaramos o mundo são abordadas num solilóquio, apresentado no espaço dos Artistas Unidos.

 O ator e também aqui encenador, António Simão, volta a este texto vinte e três anos após a sua estreia no CCB, para nos lembrar de que a solidão, para além de inquietante, pode também ser bastante ruidosa. Porém, este adjetivo não se aplica apenas à automatização do trabalho de Hanta – única personagem desta espetáculo que conta ter passado 35 anos da sua vida numa cave a prensar livros. O “ruidoso” aqui também se aplica ao peso das memórias e da passagem do tempo na mente cansada de um homem que dedicou praticamente toda a sua vida ao trabalho.

Em entrevista, o ator confessa-nos que este foi um espetáculo que marcou o seu percurso e inevitavelmente, compara a sua perspetiva de há 23 anos atrás com a de agora: “Não é uma reposição, é uma revisão da matéria dada”. Ao passo que na estreia em 1997, focou-se mais na performance física por ser um ator mais jovem a interpretar um velho, agora faz uma abordagem mais madura, tendo em conta a experiência e o conhecimento que foi adquirindo. Não se trata de uma reprodução do que foi feito, apesar de se situar no mesmo contexto “amarelecido e cru da Checoslováquia de Kafka”. Vê-se aqui um homem perdido entre canecas de cerveja e memórias de uma quase felicidade sob a forma de uma conferência, num tom intimista e orgulhoso.

A simplicidade deste espetáculo, mas principalmente o texto, transportam-nos para o ambiente social conturbado vivido pelo autor Bohumil Hrabal cidadão de um país com fronteiras indefinidas, levando-nos a refletir acerca das fragilidades das fronteiras nos dias de hoje, quer sejam territoriais ou humanas. Territoriais, em virtude do alcance das tecnologias que nos ligam a toda a parte e nos põem a par dos acontecimentos mais distantes; Humanas, no sentido em que o contacto físico e a proximidade com o outro é posta em causa devido ao conforto que advém do avanço tecnológico. Vemos aqui em cena um homem de idade, cansado e a debitar acontecimentos do seu passado e de um certo modo, podemos nos sentir familiarizados com esta situação. Quem é não gosta de falar dos tempos em que foi feliz? Quem é que não gosta de se vangloriar pelas suas pequenas conquistas? E quem é que realmente nos ouve quando o fazemos? É difícil não sentirmos empatia em relação a Hanta, porém é fácil ignorarmos as memórias dos outros.

Mesmo para quem não presenciou a primeira versão, pode agora testemunhar essa mesma maturidade e um compromisso muito exigente com este espetáculo, cujo texto é de uma densidade e intensidade que só um ator com uma vasta carreira é capaz de ter ao seu próprio cuidado enquanto intérprete e encenador.

 

FICHA TÉCNICA

 

Encenação e Interpretação António Simão 
Cenografia e Figurinos Rita Lopes Alves 
Luz Pedro Domingos 
M12

 

No Teatro da Politécnica de 11 a 28 de Março
3ª e 4ª às 19h00 | 5ª e 6ª às 21h00 | Sáb. às 16h00 e às 21h00

Em Almada, no Teatro Municipal Joaquim Benite de 3 a 5 de Abril
Nas Caldas da Rainha, no Teatro da Rainha de 21 a 23 de Maio
No Cacém, no Auditório Municipal António Silva a 30 de Maio

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

FICHA TÉCNICA

Encenação e Interpretação de António Simão

Cenografia e Figurinos Rita Lopes Alves 

Luz Pedro Domingos 

M12

No Teatro da Politécnica de 11 a 28 de Março
3ª e 4ª às 19h00 | 5ª e 6ª às 21h00 | Sáb. às 16h00 e às 21h00

Em Almada, no Teatro Municipal Joaquim Benite de 3 a 5 de Abril
Nas Caldas da Rainha, no Teatro da Rainha de 21 a 23 de Maio
No Cacém, no Auditório Municipal António Silva a 30 de Maio

 



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