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“Uma Verdade Simples” de Jodi Picoult

A busca pela verdade e nada mais que a verdade

Neste livro da autora popular americana Jodi Picoult, cuja ação é sublinhada pela descoberta de um neonato morto num celeiro Amish, o que conduz a um choque de culturas, Pessoas Simples vs Englischers, bem como a um confronto emocional e racional, e ao desenvolvimento das relações interpessoais entre as personagens principais e os restantes intervenientes que as rodeiam, “Uma Verdade Simples” (Bertrand, 2018) é uma história de suspense que prende o leitor desde a primeira página.

Um bebé morto e não identificado, uma mãe desconhecida que o abandonou. E tudo isto no meio de uma quinta amish.

Embora toda a premissa inicial do livro gire em torno do crime, da presumível culpabilidade de Katie Fisher, a progenitora do bebé, e das diferenças entre as Pessoas Simples e as do mundo exterior a essa comunidade; esta história vai mais além do típico suspense, o crime que tem que ser resolvido e julgado, introduzindo uma componente pessoal à narrativa e às personagens, de forma congruente, apelativa, credível e acima de tudo, emocionante.

A narrativa compele a uma leitura compulsiva desde a primeira página até ao final das 477 páginas.

Acabou tão subitamente quanto começou. E, deitado no feno acachapado e manchado, havia um bebé entre as suas pernas. (…) – Meu Deus – rezou -, faz com que isto desapareça, por favor.

Existem diversos momentos, onde, para entendermos as decisões tomadas no presente, a autora transporta o leitor ao passado, evidenciando momentos pontuais e cruciais da vida de Katie e Ellie.

É difícil não sentir um misto de emoções contraditórias em relação Katie, a jovem acusada de ter assassinado o próprio filho, após o seu nascimento do mesmo, sendo a única suspeita plausível do crime, o que poderá parecer estranho a início mas à medida que a história se vai desenvolvendo, e entramos no mundo Amish, através dos olhos de Ellie Hathaway, tudo começa a fazer sentido. As peças começam a encaixar, não só em relação ao caso mas em relação à vida privada de todos os intervenientes, começamos a entender Katie e o seu comportamento errático, e até mesmo, a simpatizar com ela.

Não era pessoa de acreditar no destino, mas tinha escapado por um triz e isso não podia deixar de ser um sinal; como se precisasse literalmente que me fizessem parar para perceber que tinha andado a correr na direção errada.

Ellie, uma advogada feroz na defesa dos seus clientes, desiludida consigo mesma, com as decisões que tomou, e com a sua relação estagnada, vai deparar-se com uma das situações mais complexas da sua vida, e perante o caso, toma uma decisão que vai afetar, não só a vida de Katie e dos Fisher, mas também a si mesma.

Katie, a jovem Amish, que se recusa terminantemente a admitir que teve um filho, vê a sua vida do avesso, quando as verdades do passado invadem o presente, mas serão essas verdades o suficiente para provar a sua culpabilidade ou inocência?

 – (…) vou mostrar-vos que aquele bebé pode ter morrido por uma série de razões. (…) Vou mostrar-vos porque é que os Amish não cometem homicídio. E, mais importante ainda (…) vou deixar Katie Fisher contar-vos a verdade.

Os Fisher, pais de Katie, são extremamente ligados às regras da sua comunidade e da sua igreja, produtores de lacticínios e tabaco. Aaron, um homem intransigente, que apesar de amar os filhos, se nega a aceitar qualquer situação que desrespeite as regras; Sarah, uma mãe que sofre com as decisões do marido mas as aceita sem oferecer oposição.

Chegamos a Leda, ponto de ligação entre Katie e Ellie, banida da comunidade por se ter casado com  um menonita e a Jacob, único irmão restante de Katie, que após ser banido por querer seguir os estudos, foi repudiado por Aaron, e proibido de qualquer contacto com a irmã mais nova.

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A início a frieza e impassividade dos Fisher, irá chocar não só a Ellie, que terá de viver com eles e acompanhar Katie a cada instante, mas também o leitor, em especial aquele que não saiba o funcionamento de uma comunidade Amish e os ideais que defendem.

Pouco a pouco, essa atitude, aparentemente, tão gélida e desapegada, dá lugar a um entendimento mais profundo das relações familiares, comunitárias e religiosas.

Ellie, que se recusava a aceitar ter que permanecer ali na quinta, isolada de tudo, até o fim do julgamento, começa a entender partes de si própria, ao mesmo tempo que recebe uma surpresa do passado.

Cooper irá ajudá-la a compreender o que se passa com Katie e abalar as suas resoluções referentes ao passado e presente de ambos.

O problema aqui é que há muito tempo que a Katie deixou de ser uma cliente. Talvez até desde o início. (…) Mas os sentimentos que nutres por ela são um mistério, pois, para todos os efeitos, a Katie descartou algo que tu matarias para ter: um filho.

A ligação entre Ellie e Katie irá mais longe do que a de uma simples advogada e cliente, mas a dúvida persiste até ao final.

Será Katie inocente ou culpada deste crime?

– Isto era meu (…) Esta memória era a única coisa que me restava. E tu revelaste-a.

– Fi-lo para te salvar.

– Quem disse que eu queria ser salva?

“Uma Verdade Simples”, de Jodi Picoult, é um livro de suspense, repleto de situações dramáticas, que envolve o leitor na cultura Amish, nos processos jurídicos e de investigação criminal, ao passo que o embrenha nas emoções das personagens, nas suas dúvidas e receios, alegrias e tristezas, fazendo-o esquecer, parcialmente, da premissa original. É um drama contagiante, emocionante e surpreendente.



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