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E depois da família, o que será de nós?

"Uma Família Portuguesa", em Cena no Teatro Aberto até dia 2 de Maio.

Uma Família Portuguesa, peça vencedora de um dos mais importantes prémios para a dramaturgia nacional, sobe agora ao palco da Sala Vermelha do Teatro Aberto, encenada por Cristina Carvalhal. Filomena Oliveira e Miguel Real, os autores, expressam o desejo de que esta peça possa contribuir para o despertar colectivo que tanto urge. Em cena até dia 2 de Maio.

Numa altura em que a família está no centro de todos os debates, inclusive do político, ganha outra oportunidade a estreia de “Uma Família Portuguesa”, peça vencedora da edição de 2008 do Grande Prémio de Teatro do Novo Grupo e da SPA – Sociedade Portuguesa de Autores. Este, o mais antigo dos actuais galardões atribuídos em Portugal à escrita para teatro, é também um dos mais cobiçados pelos dramaturgos portugueses, já que garante a representação do texto, a sua edição e a tradução para língua inglesa. Jaime Rocha (Homem Branco, Homem Negro, 2004), Fernando Augusto (A última batalha, 1999) e João Santos Lopes (Às vezes neva em Abril, 1997) foram alguns dos autores distinguidos em edições anteriores.

O que é uma família típica portuguesa?

O texto de Filomena Oliveira e Miguel Real apresenta-nos uma família cujas três gerações coabitam na casa que receberam do patriarca, já falecido. A avó Isaura(Teresa Faria), o pai José (João Maria Pinto), a mãe Rosa (Luísa Salgueiro) e os filhos, Ricardo (Bruno Simões) e Rui (Carlos Malvarez), amontoam-se diante de nós num espaço segmentado, atafulhado de tralhas, onde nem há uma mesa para jantarem em conjunto. O clã fica completo com o avô António (que já está morto, mas que é recorrentemente evocado pela viúva) e com Joana, a filha ausente que, perto do final da peça, irá morrer no hospital depois de uma interrupção de gravidez.

A teia narrativa ainda vai no adro: o pai, reformado, é um antigo combatente em África e os seus delírios, a sua angústia, tornam-se no fio de linha que une todas aquelas personagens. O filho Ricardo é empregado bancário e recebe comissões de negócios não muito claros, a mãe Rosa é empregada na secretaria de uma escola e o filho mais novo quer ir para a Escola Militar, para Enfermagem. Quer assim poder contribuir para as despesas da casa, porque a falta de dinheiro é um problema constante para esta família. A avó chantageia-os constantemente por viverem na casa deixada pelo seu marido. O chefe de família vive atormentado pela casa que nunca pôde comprar e pela ajuda financeira que tem de receber do filho mais velho.

Talvez seja interessante fazer um close-up sobre este pai, até porque é através dele que hoje temos um friso de uma memória colonial: débil na sua saúde, um cancro levou-lhe um pulmão, enfraquecido psicologicamente pela guerra colonial, tem acompanhamento psicológico do Hospital Militar e é um homem derrotado: ”Fazia-me bem era sair desta vida. Qualquer dia deixo de tomar os medicamentos!”. Envergonha-se do que fez em África embora, segundo as suas palavras, não tenha feito nada que os outros não fizessem. Depois da guerra há-de tornar-se militante comunista e fazer segurança nos comícios. Mais uma coisa que a par da guerra lhe correu mal, o partido. Aliás, a única coisa que lhe correu bem na vida foram os filhos, três. Por vezes bate-lhes, como o seu pai também lhe batia. A certa altura, Rosa há-de atirar isso à cara da sogra: “ O seu filho está assim não é por causa da guerra, é por causa da tareia que levou do pai”. Zé tem pesadelos, delírios e ataques de pânico e qualquer coisa o desestabiliza. Os medicamentos são o seu grande momento de acalmia. Tem uma grande ligação com a mãe. Esta tem como ladainha uma prece que roga aos céus, “-Passa-me para mim o mal deste filho!”, exige que na hora da refeição se ponha prato para o marido e possui, junto à poltrona da sala, uma gaiola grande com a qual está em estreita ligação.

Inscrevermo-nos nesse riso de nós

É neste quadro depressivo, unido por um altar, colocado no centro da cena, onde a avó Isaura coloca as suas preces para que o filho seja poupado ao mal que o consome, que Cristina Carvalhal, a encenadora, inspirada pela leitura de “Portugal, o medo de existir”, de José Gil, vai baralhar os géneros e instalar um tom de paródia e farsa: ”O tom de comédia acaba por ser o mais forte. Ou pelo menos quisemos instalar essa perspectiva, de nos rirmos de nós próprios, do nosso provincianismo, desta clausura que todos eles respiram”.

Este tom de comédia, que parece estar já disponível no texto, é sublinhado pelo recurso ao canto que acaba por ter um curioso efeito de sentido: a cantoria une esta família disfuncional e desalinhada que, afinadamente, troça e brinca na Canção da Mocidade e no Fado do Isolado (Isolado nota bem, que não fique ninguém resignado nesta sala!). É um breve lampejo de família, esta que João Maria Pinto guia com a sua viola tornando-se, verdadeiramente, o chefe da casa.

A escolha do elenco

O convite para encenar esta peça acabou por ser também para Cristina Carvalhal, dezassete anos volvidos, o regresso àquela que tinha sido, durante sete anos, a sua primeira família teatral. E se a peça estava já definida, o elenco foi da sua escolha e teve por base as linhas-força que a leitura do texto lhe foi dando: ”Queria ter um peso matriarcal forte, mais uma vez essa ideia da família sempre a amparar, a proteger, a criar a não autonomia, o peso da família sempre a criar esse ninho”. Curiosamente João Maria Pinto, que ficou com o papel do pai, tinha feito a guerra em Moçambique. A avó, desempenhada por Teresa Faria, acaba por se ir tornando numa das personagens principais: “Esse é o problema deste Zé, é o ter esta mãe, este pai, este passado, esta vivência que o oprime… aliás, cheguei a pensar fazer de Isaura a narradora”.

O trabalho sobre o texto, a enxertia

Para a dramaturgia do espectáculo Cristina Carvalhal não trabalhou em conjunto com os autores. “Eles deram-me liberdade para cortar e trabalhar e foi isso que fiz, antes e já nos ensaios, em processo. Esse trabalho de corte, de escolha e até inserção de outros materiais, é uma prática cada vez mais corrente. Cortei muitas coisas para ficar mais essencial e transformámos este pai, ou seja, alterámos a linha narrativa. Ele morria no fim e agora, pode não ser totalmente perceptível, ele de alguma forma no começo já está morto. E conta a história, torna-se narrador que intervém no inicio… e que depois se passeia por este espaço de memória… que é o espaço da acção, e volta no fim à narrativa. Essa figura do narrador não existia, eu gosto muito de narradores no teatro. E enxertámos estes materiais, o Lobo Antunes,  o excerto sobre o Latifúndio de uma sessão de esclarecimento da reforma agrária…”.

Este trabalho dramatúrgico passa também pelo trabalho com os actores, um trabalho físico com a ajuda de Margarida Gonçalves: “Depois de um primeiro momento de análise do texto partimos para improvisações e algum desse trabalho trouxe-nos materiais que foram ficando. Houve a preocupação por um desenho físico, por uma coreografia da coisa, as relações deles fisicamente, espacialmente, são tão importantes como o texto”.

Trabalharmos com os materiais das nossas vidas

No texto que escreveu para o espectáculo, Cristina Carvalhal afirma que “o que fazemos e dizemos em cena, ecoa involuntariamente naquele que age e em todos os outros que interagem com ele, e dessa forma o eco, invisível por natureza, corporiza-se tornando-se também ele signo teatral.” É assim que a dimensão contemporânea da história recolhe materiais que decerto irão ter momentos diferentes de interpretação. Se a grande parte dos espectadores poderá estabelecer alguma familiaridade com a adaptação do fado do embuçado, provavelmente a canção da mocidade já trará alguma estranheza às gerações mais novas.

Quando conversámos reforçou essa ideia: “De cada vez que se parte para um trabalho, parte-se também para uma viagem interior. Isso é comum a todos os projectos criativos. Neste caso o facto de ser português tem um eco maior, ressoa em nós de outra forma, estamos a falar directamente de nós, não somos nós a imaginar outras realidades, são as coisas que vivemos, as melodias que ouvimos na nossa infância, e isso ecoa de outra maneira “.

O pico dramático do espectáculo acontece depois da família receber o telefonema avisando das complicações hospitalares que surgiram com Joana. No meio da maior barafunda, todos se organizam para irem para o hospital. Lançando o final ouve-se, de forma apoteótica, a música de “E depois do adeus”. A encenadora explica-o:

– Por um lado é um recomeço, mas é um recomeço que parte de uma morte. Acho que isso é importante. Esta canção é muito especial para mim, não sei explicar porquê, não foi porque tenha vivido essa sensação de liberdade, tinha oito anos na altura do 25 de Abril, nem percebi muito bem o que se passou, mas para mim é muito essa ideia de recomeço e de morte. Esta família vai, finalmente, ter a possibilidade de viver o seu momento de libertação, tragicamente, primeiro com a morte da filha e depois do pai, mas isso fará abanar esta paz podre, disfuncional. Nós não tivemos essa experiência, é uma das nossas peculiaridades, a nossa revolução não ter sido trágica. Foi de flores, e isso às vezes não é a melhor maneira de romper o cordão umbilical. Romper o cordão umbilical é romper, é gritar, e se calhar nós não fizemos isso.

Uma Família Portuguesa
De 26 de Março até 2 de Maio

Quarta a Sábado às 21h30, Domingo às 16h

Texto: Filomena Oliveira e Miguel Real
Dramaturgia e encenação: Cristina Carvalhal
Música: João Gil
Cenário: Ana Vaz
Figurinos: Ana Vaz e Maria Gonzaga
Luz: Melim Teixeira
Apoio ao movimento: Margarida Gonçalves
Interpretação: Bruno Simões,  Carlos Malvarez, João Maria Pinto, Luísa Salgueiro e Teresa Faria



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