Urgências 2006

Urge dizer…

O Teatro Maria Matos, em Lisboa, recebe até 30 de Julho o espectáculo Urgências 2006. Um projecto que nasceu há dois anos, ali mesmo no Maria Matos, e que hoje se apresenta com onze novas peças, de outros tantos criadores, interpretado por oito actores, que se desdobram em diversas personagens para nos falarem das suas urgências. Uma co-produção Mundo Perfeito, Produções Fictícias e Teatro Maria Matos, que Tiago Rodrigues encenou como se de um longo festival de curtas-metragens, mas de teatro, se tratasse.

“O que tens de urgente para me dizer?”, eis o mote deste trabalho… O que há de urgente para dizer nos dias de hoje, e a propósito dos dias de hoje, que não pode deixar de ser dito? Ainda que não tenhamos resposta para estas interrogações, Tiago Rodrigues assegura: urge fazer, dizer, ouvir e ver!

Ainda que partindo de um mesmo ponto, os onze textos apresentados são bastante diferentes. O estilo das suas interpretações também, pelo que encontrar coerência no Urgência 2006 não é fácil, mas, por outro lado, ninguém falou em coerência. Acima de tudo são quadros da vida quotidiana que este grupo quis mostrar de uma só vez porque “este espectáculo tem urgência”.

Num mesmo palco aberto, que não esconde as suas entranhas, encontram-se todos os actores, o seu guarda-roupa e acessórios, os adereços e cenários usados durante as 2 horas e 30 minutos deste espectáculo. Sem ordem aparente, inicia-se o extenso desfile das onze peças, que se sucedem sem anúncio, e um rodopiar de actores que, sem aviso, vestem e despem personagens. E enquanto na frente do palco os actores tentam captar a nossa atenção, o nosso olhar desvia-se para aquela televisão lá ao fundo que passa imagens sem som, para o barman que distribui bebidas pelos actores e para a actriz que prepara a sua peruca e o seu bigode… Não há concentração que resista.

Luís Filipe Borges é autor de “Última chamada”, que conta a história de um encontro casual, ou talvez não, entre uma noiva que vai para Paris e um comediante que lhe promete uma única coisa: “Vais ser amada!”… Como é que isto não é suficiente para uma mulher? Luís Mestre protagoniza o hilariante “Trabalhador Independente” de Nuno Costa Santos. Falamos de Nando que tem como fiel animal de estimação o seu livro de recibos verdes. Um dos melhores quadros, pelo texto de Tiago Rodrigues, e pela interpretação de Cláudia Gaiolas e Tónan Quito, é o “Coro dos amantes a caminho do hospital”. Um texto dito em discurso directo, umas vezes em simultâneo outras em sobreposição pelos dois actores que descreve os momentos dramáticos e finais de uma vida feliz.

Porque urge que todos tenham direito a expressar as suas urgências a palavra é dada ao público… E assim ficamos a saber que urge andar mais devagar; urge não ter pressa; urge acabar com os intervalos; urge dizer à minha avó que tenho muitas saudades dela; urge fazer espectáculos mais curtos; urge ver que o marido fez a cama de manhã; urge falar livremente, dizemos nós.



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