Ursula Rucker

A história, a obra e a vida de uma das artistas mais interessantes da actualidade

Imaginem um bairro americano, onde problemas como a toxicodependência, o abuso das mulheres, a pobreza e o racismo são problemas com que as pessoas têm que lidar dia a dia. Agora, expandam esse bairro a toda a América e a todo o mundo. O resultado? A realidade. Uma realidade muitas vezes cruel e dramática, mas infelizmente verdadeira. É dessa realidade que nasce a inspiração de uma poetisa, que decidiu juntar grande nomes da música electrónica e gravar músicas para melhor transmitir a sua mensagem.

Ursula Rucker nasceu e foi criada em Filadélfia e desde muito pequena iniciou a sua documentação do mundo que a rodeava. Licenciou-se em jornalismo na Universidade de Temple e manteve a sua escrita apenas para si própria até ao dia em que necessitou de transmitir ao mundo tudo aquilo que a inquietava.

Foi em 1994 que Ursula apresentou pela primeira vez os seus poemas ao público, no bar Zanzibar Blue de Filadélfia, e desde logo surpreendeu a audiência com os seus textos. Diz quem presenciou, que as palavras de Ursula eram ao mesmo tempo fortes e vulneráveis e mostravam uma raiva que finalmente tinha sido dada a conhecer ao mundo. Rapidamente, as palavras de Ursula chegaram ao ouvido do produtor King Britt que a convidou imediatamente para o seu primeiro registo de “spoken word” , “Supernatural” no mesmo ano de 1994. Produtores ligados ao mundo da dança ficaram desde logo encantados com a voz de Ursula e remisturas dos temas de “Supernatural” faziam as delícias dos clubes e discotecas embora os temas mais populares fossem aqueles cantados “acapella” .

Nesse mesmo ano, surge a primeira incursão pelo mundo do hip-hop através do convite dos Roots para a participação no seu álbum de estreia “Do You Want More?!!!??!” com o tema “The Unlocking” onde ela descreve a vingança de uma mulher depois de ter sofrido uma violação. As críticas à participação de Ursula foram bastante positivas, tendo participado nos consequentes albúns dos The Roots, incluindo o galardoado “Things Fall Apart” de 1999. Em “The Adventures in Wonderland”, do albúm “hilladelph halflife”, Rucker conta-nos a história de uma mãe solteira que torna-se traficante de droga para dar de comer aos filhos. Uma letra chocante mas que exemplifica na perfeição o talento e inquietação de Rucker.

“no milk and honey in this land/
‘cos justice has been denied/
‘cos it’s play dirty or die by the hand/
that’s holding all the guns/
plunge deep into religion was my first decision/
to save me and my daughter’s lives.”

Os textos escritos para os albúns dos The Roots, alertaram as pessoas para os problemas da realidade urbana. Utiliza uma linguagem directa, onde o principal objectivo é a transmição de uma mensagem e não a subjectividade dos textos. A solicitação para espectáculos ao vivo assim como a pressão para novas participações começaram a surgir. Colaborou com os 4Hero, no tema “Loveless” do albúm “Two Pages” de 1998 e com Josh Wink em “Sixth Sense” no albúm “Herehear” de 1998. Participou em tournées com os 4Hero e Jamaaladeen Tacuma um pouco por todo o mundo.

Finalmente, em 2001 Ursula Rucker lança o seu albúm de estreia em nome próprio – “Supa Sista”. Editado pela !K7, uma editora europeia, o albúm foi recebido pela crítica como uma das surpresas do ano. Ao contrário do que muitas vezes acontece na construção de um albúm, a música foi composta tendo como base os poemas de Rucker. Os artistas convidados tiveram que moldar os temas de forma a encaixar perfeitamente a sonoridade com os textos. Para compôr esses temas, bastou convocar alguns dos seus amigos de percurso com os quais já tinha colaborado anteriormente. King Britt, 4Hero, Alexkid e Jonah Sharp acederam de imediato ao convite e deram uma envolvência musical simples e emotiva aos temas escritos por Rucker. Foi criado assim um albúm único, onde as palavras são coladas a temas com inspiração no jazz, soul, hip-hop e drum-n-bass.

Para além das habituais referências aos problemas urbanos, das mulheres e do racismo, Rucker  questiona uma sociedade dependente da tecnologia em “digichant” e critica o estado actual do hip-hop e da música afro-americana, no tema produzido pelos 4Hero “What???”

“By rhyme I don’t mean nursery

Flow don’t mean get your smoke on

Sing means…well…n**** just sing the song”

É dificil escolher pontos de referência num disco que vale pelo seu todo. A produção é superba e a diversidade musical assenta que nem uma luva na voz e magia das palavras, muitas vezes venenosas, de Rucker. Um albúm fantástico, que provavelmente será recordado num futuro próximo como um marco da música moderna.

Dois anos depois do lançamento do primeiro albúm de originais, Ursula Rucker regressa. Regressa aos albúns e a Portugal. Agora, é a vez de “Silver or Lead”. Uma aliciante e coerente simbiose entre política, poesia, vulnerabilidade e ritmo, e com ele uma nova possibilidade de reflectir sobre a aparente normalidade e apatia da existência humana. O próprio título do disco espelha a complexidade de determinadas escolhas da vida. As palavras estão mais afiadas mas a mensagem é a mesma. Embora mais político, o albúm disserta sobre as questões da vida urbana contemporânea partindo de experiências particulares enquanto mulher, mãe e artista. Toda esta mensagem está envolvida por um manto musical jazz, soul, hip-hop, repleto de ambientes electrónicos criados pelos seus colaboradores/amigos do anterior albúm.

Assim, podemos encontrar neste albúm os amigos europeus, 4Hero e Jazzanova e os companheiros de Filadélfia, King Britt, Tim Motzer, Robert yancey, The Roots e The Society. Para além dos ritmos e ambientes já conhecidos do anterior álbum, Ursula Rucker, mostra bastante flexibilidade, envergando por ambientes afro-latinos com a colaboração de Lil’ Louie Vega dos Masters at Work,  num dos temas do álbum, “Release”.

Um albúm cheio de grandes momentos e que vale a pena rever tema a tema.

Soon – O primeiro tema do albúm que nos fala da escravatura e de toda a componente socioeconómica de um flagelo que marcou uma época e que possivelmente ainda marca o pensamento de Rucker. É interessante e irónica a calma e sedução da voz de Rucker durante todo o tema, principalmente, a forma hipnótica do seu início, contrastando com a frieza e dureza do tema. “Seen children come and go/ Lead some out themselves/See infanticide was love (for a slave woman)/Slave pussy was gold for capture/Sold for gold/Felt like gold/Yielded gold/ And more gold.”

What A Woman Must Do – Um ambiente criado pelos Jazzanova, mostra-nos Ursula Rucker mais activa dissertando sobre a necessidade urgente da emancipação da mulher, continuando um tema bastante abordado no primeiro registo de originais.

Lonely Can Be Sweet – Um tema bastante “soft” e uma auto-caracterização de si mesma, de como uma mulher sozinha está melhor que bem acompanhada

“I’ve taken up hedonism as a hobby/Making it harder for the next man/To step into my life/Without a plan for how to please me/Better than I please myself.”

Time – O ritmo dos 4hero marca um tema marcado pela questão religiosa e de como é urgente a capacidade do mundo se tornar mais tolerante e compreender cada uma das religiões.

Q & A – A mistura das percursões e de sons cria o ambiente perfeito para um tema que surge como um aviso de que é necessário agir e alterar a forma passiva como encaramos a vida.

Realese – Os ritmos afro-latinos compostos por Lil’ Louie Vega, envolvem o tema mais político de todo o álbum. Um crítica clara a tudo o que aconteceu após o 11 de Setembro e onde deixa clara a ideia que tudo é possível de ser ultrapassado através do amor das pessoas, apelando a todos que libertem o seu coração.

I/We – Um ambiente mais calmo abraça um tema marcado pela mensagem social e interventiva. Critica a acção do governo sobre a situação de muitas crianças nos Estados Unidos da América, marginalizadas e sobre as quais deveriam de ser tomadas medidas porque são o futuro do país.

Damned If I Do – Mais um tema que incentiva a acção, contra a passividade e abstracção das pessoas sobre aquilo que as rodeia e caracteriza-a como sendo a única forma de encontrar a verdade. Um tema mais soul.

Return of Innocence Lost – Um dos momentos mais pessoais, intimistas e mais chocantes de todo o albúm. Marca o fim do albúm a quem o ouve. Fala-nos da sua infância que não deve ter sido nada fácil. Expõe pensamentos dolorosos sobre o seu nascimento e sobre o desaparecimento do irmão, revelando pela intensidade das palavras um ambiente familiar muito pouco saudável. Foi considerado pela própria um dos poemas mais pessoais que já escreveu.

Em suma, este é um disco fantástico que confirma aquilo que o primeiro albúm já tinha dado a entender. Uma poetisa de excepção, com textos simples, sem grandes rodeios, que pretende ir directamente ao assunto e que merece toda a atenção. Para além dos textos magníficos, esta senhora teve o descaramento de colocar no seu albúm alguns nos melhores produtores do mundo no que toca à música electrónica. Criou um registo que já se tornou um dos melhores do ano e para nossa felicidade, virá mais uma vez a Portugal apresentar “Silver or Lead”, em dois concertos que se irão realizar na discoteca Lux nos dias 26 e 27 de Novembro.

Ao vivo Rucker é fenomenal. A última vez que pisou solo nacional foi no Teatro de São Luis em Lisboa, no passado mês de Março, onde uma sala repleta de pessoas aguardava com bastante ansiedade a presença de Ursula em palco. Ainda não havia lançado este último registo e tinha na mala apenas o primeiro albúm de originais, “Supa Sista”. Havia uma expectativa em saber se os temas que funcionam na perfeição em disco teriam a mesma harmonia em palco. Foi ver para crer. Apenas acompanhada por um guitarrista, Tim Motzer (e um valioso conjunto de samples), a voz de Ursula encheu a sala e a sua poesia facilmente conquistou a plateia.

A um concerto quase perfeito (e com um som fabuloso na sala) terá faltado pontualmente alguma intensidade, mas bastava fechar os olhos por alguns momentos para se entrar numa outra dimensão.

Ursula conseguiu recriar muito bem os ambientes intimistas que transmite nos seus trabalhos, quer a solo, quer nas colaborações com meio mundo da música electrónica, as quais lhe começaram por dar a fama e o reconhecimento. O último tema “Supa Sista”, foi recebido com uma merecida ovação em pé por parte de um auditório rendido. De forma justa e inequívoca.

Nos próximos concertos em solo nacional,virá acompanhada de Tim Motzer, guitarrista com o qual costuma fazer as suas apresentações ao vivo e que também colaborou em “Silver or Lead”. Para além de Motzer, provavelmente, irá actuar um percussionista ou um teclista. Estes concertos irão ser dominados pelo último albúm, mas obviamente que o seu trabalho de estreia não será esquecido. Um concerto a não perder.

Enquanto o concerto não chega, comprem o novo albúm, deitem-se no vosso sofá, metam a aparelhagem bem alto  e ouçam o que uma das artistas mais interessantes da actualidade tem para vos dizer



Também poderás gostar


Pin It on Pinterest

Share This