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V Festival Internacional de Banda Desenhada de Beja

A cidade de Beja recebe um dos maiores festivais portugueses de BD no final de Maio. Paulo Monteiro é o director do certame e explica-nos como tem conseguido colocar Beja no mapa dos amantes da 9ª arte.

O Festival Internacional de Banda Desenhada de Beja está novamente de regresso, desta feita na sua 5º edição. Este evento irá decorrer entre 30 de Maio e 14 de Junho e mais uma vez promete marcar o ano como um dos maiores acontecimentos realizados em Portugal ligados à Banda Desenhada, com 20 exposições com mais de 70 autores de 8 países, desde a Bélgica, o Brasil, os Estados Unidos da América, a Escócia, a Espanha, a Itália, a Sérvia e, obviamente, Portugal, workshops, sessões de cinema, conferências, lançamentos e sessões de autógrafos.

A programação encontra-se espalhada pela Biblioteca Municipal, pelo Museu Jorge Vieira – Casa das Artes, pelo Museu Regional de Beja e pela Casa da Cultura onde se encontra a Bedeteca de Beja o centro principal deste festival.

Para vos falar mais sobre o que podem esperar deste festival, a Rua de Baixo teve o prazer de estar à conversa com o director do festival, Paulo Monteiro.

RDB – Como e quando nasceu a ideia para realizar este projecto?

Paulo Monteiro – Falar do Festival de Beja implica voltar alguns anos atrás, até 1996, ano em que nasceu o Toupeira – Atelier de Banda Desenhada, constituído essencialmente por jovens autores de Banda Desenhada de Beja. Com o tempo, e devido ao trabalho realizado no seio do Atelier, foi sentida a necessidade de dar enquadramento a estes autores e explorar o potencial existente através da criação de uma Bedeteca.

A Câmara Municipal de Beja decidiu então abraçar o projecto, criando a Bedeteca de Beja, um equipamento municipal cuja preocupação é estimular o gosto pela Banda Desenhada e, ao mesmo tempo, contribuir para enquadrar os autores da região divulgando o seu trabalho. Ora uma das várias vertentes da Bedeteca é a de realizar um Festival anual nesta área: o Festival Internacional de Banda Desenhada de Beja, que teve em 2005 a sua primeira edição.

Penso que é mais do que justo dizer que o festival é já bem conhecido e acarinhado pelos amantes de Banda Desenhada em Portugal. No entanto, e tentando generalizar, tenho ideia de que a maioria das pessoas ainda não tem conhecimento deste evento. Concordas?

Na verdade não tenho essa ideia. É claro que quando estamos muito envolvidos num projecto, o mundo à nossa volta tem tendência para se resumir ao que estamos a fazer, por isso posso estar enganado. Mas temos tido desde o primeiro momento uma grande cobertura dos media (mesmo a nível internacional). O Festival é anunciado em todos os jornais nacionais (e em muitos jornais regionais), em todos os canais de televisão, nas rádios nacionais… É claro que a banda desenhada não abre telejornais nem é capa de jornal (raramente). Talvez por isso o público mais “arredado” da banda desenhada ainda não o conheça… A principal forma de promover um evento no nosso país passa naturalmente pela televisão. Precisamos, a esse nível, de maior visibilidade…

Seria impossível nesta conversa não mencionar o festival internacional de Banda Desenhada da Amadora (FIBDA), uma vez que se trata do festival sobre Banda Desenhada com maior reconhecimento em Portugal. Quais são na tua opinião as grandes diferenças entre estes dois festivais?

A Amadora é uma referência no nosso país, o maior Festival nacional. Neste momento, e falo do V Festival Internacional de Banda Desenhada de Beja, tenho a ideia que, em termos de exposições e área expositiva, a Amadora e Beja são dois festivais muito equivalentes. Existem algumas diferenças, nomeadamente em relação à filosofia do próprio Festival, não temos tema, nem sessões de Prémios. Talvez apostemos mais em nomes de vanguarda, e menos nos autores mais conhecidos (como o Bilal, ou o Moebius, por exemplo).

Também damos grande importância aos chamados “autores alternativos” e aos autores em início de carreira. Isto porque nos parece muito importante que o Festival de Beja seja o mais “fresco” possível, que acompanhe as tendências da moderna banda desenhada em vertentes menos conhecidas pelo público em geral. Temos a preocupação de trazer alguns autores pouco conhecidos em Portugal, cujo trabalho assuma algum carácter de “urgência”. Mas também reparámos que a vinda de Dave McKean gerou dinâmicas muito interessantes. Talvez o ideal seja fazer uma ponte entre os autores mais “comerciais” e os autores mais “experimentalistas”, se bem que o Dave McKean tenha um pouco dos dois. Outras diferenças residem no tipo de cenografia e na área comercial. A Amadora tem um espaço comercial fantástico se pensarmos nas características do mercado nacional. Para nós é impossível, pelo menos nesta fase manter uma quantidade de stands semelhante. No primeiro fim-de-semana temos muitos editores e livreiros entre nós. Depois, somos nós a assegurar o Mercado do Livro, o que o torna “menos vistoso” que o da Amadora. No entanto temos sempre cerca de 40 editoras representadas, e uma oferta muito variada, com várias centenas de títulos.

Outra diferença grande reside no facto de Beja ser uma cidade que nos permite promover uma grande proximidade entre os autores e os visitantes. A cidade tem um belo centro histórico, vários focos de interesse e tem a seu favor o facto de ser uma cidade pequena, o que permite que as pessoas se encontrem frequentemente nos cafés, nas esplanadas e nos restaurantes, fora dos locais habituais das exposições.

Por fim, assinalava o facto da Amadora ser uma cidade situada no centro de uma grande área populacional, ao contrário de Beja. As dinâmicas geradas pelos dois festivais são, neste sentido, bastante distintas…

Ao longo destes últimos anos cada vez mais se têm organizado eventos relacionados com Banda Desenhada ao longo do país. És da opinião que este é o caminho a seguir ou que seria melhor apostar num menor número de eventos mas de maiores dimensões?

Acho que é o caminho a seguir. Os eventos maiores saberão definir a sua escala de acordo com os objectivos ou ambições que estabelecerem.

De qualquer forma parece-me muito importante que a cultura, de uma forma geral, seja o mais descentralizada possível. É impossível gostar do que não se conhece. É necessário abrir janelas um pouco por todo o lado. Estimular a curiosidade… Ajudar a criar leitores, e massa crítica, claro. No campo particular da Banda Desenhada isso parece-me não apenas muito importante, mas mesmo fundamental.

O que podemos esperar este ano no que toca às exposições?

Em relação às exposições tentámos criar algumas “famílias”, de forma a chegar um pouco a todos os potenciais visitantes: no que concerne aos autores portugueses contemporâneos, teremos individuais de Alex Gozblau, Pedro Burgos e Richard Câmara; entre os chamados “alternativos”, exposições de Marco Mendes e João Maio Pinto; a pensar nos mais novos, as individuais de Carlos Rocha e Rui Cardoso; na área da manga teremos entre nós uma exposição de Hugo Teixeira, e as colectivas All-Girlz Banzai e Luminus Box; teremos ainda algumas exposições onde damos primazia a projectos colectivos – All-Girlz, Venham + 5 e Voyager; e uma outra colectiva onde podemos ver a contaminação existente entre a banda desenhada e a serigrafia, com a exposição Atelier de Serigrafia Mike goes West.

Entre os autores estrangeiros, teremos entre nós Alberto Vázquez, Craig Thompson, Denis Deprez, Fernando Gonsales, Gary Erskine e Lorenzo Mattotti.

No total teremos 20 exposições, 6 das quais colectivas. Ao todo estarão em Beja, contando com os autores das colectivas, cerca de 70 autores de 8 países, mostrando todas as tendências, correntes e gostos.

Todos os autores estarão em Beja no primeiro fim-de-semana, com excepção dos autores estrangeiros da exposição de serigrafia, o que, para nós e para os apreciadores do seu trabalho, será uma enorme alegria… É claro que existirão várias sessões de autógrafos, entre outras actividades…

Quais vão ser as grandes diferenças no festival em relação ao ano passado?

O ano passado tivemos mais núcleos e menos exposições. Este ano teremos apenas 4 núcleos, mas 20 exposições, sendo que a maioria estará concentrada na Casa da Cultura e na Biblioteca Municipal. A nível da programação paralela também vamos ter algumas novidades…

Uma questão que te deve ser constantemente colocada é, porquê um festival em Beja? Uma vez que se trata de um local afastado da zona de Lisboa e Porto correndo assim o risco de ter um menor número de visitantes.

É verdade. Seria pouco realista imaginar 20 ou 30 mil visitantes no Festival. O Alentejo, que corresponde, em território, a um terço do país, tem cerca de 600 mil habitantes. A Grande Lisboa tem cerca de 3 milhões! À partida estes números são esmagadores, se pensarmos apenas do ponto de vista quantitativo. Em todo o caso acreditamos que nos próximos 2 ou 3 anos o Festival de Beja poderá ter 10 ou 11 mil visitantes todos os anos. Para uma cidade do interior este tipo de eventos revela-se fundamental, pois gera muitas dinâmicas no seio da própria região. Vem muita gente de fora… O facto de Beja ser uma cidade do interior só torna mais premente a necessidade de promover este tipo de manifestações.

Não seria correcto, nem ético, imaginar que apenas Lisboa e Porto devam acolher este tipo de eventos. É urgente descentralizar a cultura em todos os seus aspectos. Um dos grandes problemas do nosso país tem sido precisamente esse: concentrar demasiado as coisas na capital, o Porto também se costuma queixar dessa situação. É preciso dar a ver e a ler um pouco por todo o lado. E em Beja também, claro…

Por outro lado a localização geográfica de Beja também pode ser uma vantagem…

Como tem sido o feedback da maior parte dos artistas em relação ao festival? Penso que, e corrige-me se estiver errado, o ano passado Dave Mckean gostou muito do ambiente e da camaradagem.

O ambiente é muito acolhedor. E a cidade, sendo antiga, acaba por contrastar com alguns aspectos mais vanguardistas das exposições. A maior parte dos autores gosta muito da modernidade do Festival, aliada à tradição desta região. E gostam também da forma como concebemos as exposições, sempre com a cenografia contida, para dar primazia às pranchas em exposição. Depois, como a cidade é pequena, acabamos sempre por estar juntos, autores e visitantes, o que possibilita que se troquem muitas conversas e impressões. Tentamos, ainda, dentro do possível, receber a acarinhar as pessoas que convidamos… O Dave McKean gostou realmente muito do Festival e disponibilizou-se para vir sempre que o convidássemos. O Lourenço Mutarelli, do Brasil, vinha apenas por 3 dias e ficou connosco uma semana e meia! Tudo isto nos deixa muito felizes…

Como já é comum existe sempre um espaço dedicado a palestras e workshops. Quais os artistas que este ano nos podem deslumbrar com alguma da sua sabedoria?

O primeiro fim-de-semana do Festival concentra todos os autores em Beja. É, por isso, o mais “forte” do evento. Sendo assim, tentamos concentrar as actividades com os autores presentes nesses dois dias, principalmente com os estrangeiros, já que a sua presença é sempre rara e especial. A pensar neste facto, teremos várias conversas com Craig Thompson, Fernando Gonsales e Lorenzo Mattotti. Gary Erskine fará um workshop para jovens aspirantes a autores de banda desenhada, e Denis Deprez apresentará a sua obra e falará sobre o seu método de trabalho. Mas haverá ainda tempo para vários lançamentos, conversas com outros autores e editores, apresentação de projectos, etc. Este ano teremos sempre 3 ou 4 coisas a acontecer ao mesmo tempo durante o primeiro fim-de-semana. Depois, e ao longo do Festival, teremos workshops com Richard Câmara, encontros com Rui Cardoso, workshops com António Coelho, do Atelier de Serigrafia Mike goes West, etc, etc.

É verdade que existe a intenção neste festival de discutir a associação portuguesa de Banda Desenhada? Para quem não está familiarizado com o tema podes explicar-nos em que consiste esta associação e quais os seus objectivos?

Sim, mas ainda estamos a combinar as coisas… Em relação aos objectivos da Associação, não serei a pessoa indicada para falar no assunto, mas penso que passarão pela necessidade de dar visibilidade ao trabalho dos artistas, precavendo alguns direitos, nomeadamente a nível da legislação, direitos de autor, etc.

Fala-nos um pouco sobre ti e do teu percurso na Banda Desenhada. Como é que um homem do norte veio parar a Beja?

O meu pai é de Lisboa, e a minha mãe de Vila Franca. Mas viveram cerca de 8 anos no Porto e em Gaia. Os meus primeiros anos de vida, passei-os em Gaia. Depois, por vários motivos, os meus pais voltaram para a casa dos meus avós, em Alverca do Ribatejo, onde vivi até aos 23, 24 anos, altura em que vim para Beja. Sempre achei muito mágica a ideia do Sul. E não me arrependo nada de ter vindo viver para Beja – é uma cidade fantástica e muito especial… Durante muito tempo fui a Gaia todos os anos. Na verdade sinto-me um bocadinho como se fosse de todo o lado…

Este ano poderemos contar novamente com o vosso fanzine “Venham + 5”? O do ano passado foi muito bem recebido, tendo vencido o prémio de melhor fanzine no FIBDA e conquistado recentemente algumas nomeações para os troféus Central Comics.

Sim, será lançado o número 6 no primeiro dia do Festival. O “Venham + 5” tem uma característica muito interessante que reside no facto de ser essencialmente composto pelos autores do colectivo Toupeira, de Beja, mas por ter sempre muitas colaborações exteriores. É um projecto aberto a todos os autores, independentemente de “escolas” ou estilos ou tendências plásticas. No fundo, um pouco como o Festival. Ao longo destes anos, recebemos já vários prémios nacionais e várias nomeações. É claro que estamos muito contentes com isso, e com muita vontade de trabalhar nas nossas histórias…

Em relação à zona comercial com o que vamos poder contar?

O ano passado tivemos 43 editoras representadas no Festival. Além de um número relativamente elevado dos chamados editores independentes, fanzinistas, etc. Este ano vamos fazer um pouco a mesma coisa, sempre com a preocupação de ter no Mercado do Livro os autores representados nas exposições. Isso é muito importante…

Para terminar pedia-te para nos falares um pouco sobre projectos para o futuro, não só relacionados com o festival mas também a nível pessoal.

Em relação ao Festival, gostava que se assumisse como um evento que atraísse cada vez mais gente, e que estimulasse a paixão e o gosto por esta arte fantástica que é a banda desenhada. E isto em todas as suas vertentes.

A nível pessoal tenho muitos projectos! O mais importante neste momento é acabar o livro de banda desenhada que estou a fazer… Talvez lá para o fim do ano…



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