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Valar Morghulis

Uma pequena crónica de gelo e fogo sobre a Guerra dos Tronos.

Conta uma antiga história que dois homens de imaginação invulgar e caneta aguçada se encontraram na mui erudita vila de Oxford em maio do distante ano de 1926. Esses homens além de muitas iniciais no nome, partilhavam um gosto pelo medievalismo e pelo épico que desde logo os aproximou. Esses homens chamavam-se: J.R.R. Tolkien e C.S. Lewis.

O primeiro deles foi o autor de obras tão emblemáticas quanto, “O Senhor dos Anéis” ou o “Hobbit” e o segundo seguiu para a criação das “Crónicas de Nárnia”. Por esta altura é válida a pergunta: O que têm Tolkien e Lewis a ver com a “Guerra dos Tronos”? Nada e tudo…como tentarei explicar um pouco mais à frente.

Quando em 1996 e do outro lado do oceano, um outro senhor – com muitas iniciais no nome – de imaginação invulgar e caneta aguçada lançou o primeiro volume das “Crónicas do Gelo e do Fogo”, a sua obra foi imediatamente catalogada como High Fiction ou seja, ficção épica passada em mundos ou sociedades ficcionais. O que o colocou dentro da mesma classe das obras anteriormente mencionadas e para sempre em comparação com elas e naturalmente com os seus incontornáveis autores.

O autor, G.R.R. Martin, que por essa altura era já argumentista e autor galardoado com alguns prémios literários, admitiu a influência de autores como Tolkien nas suas obras, mas o seu estilo literário bastante duro e realista, afasta tudo o que seja mais que apenas uma influência, já que está muito mais perto (neste aspeto) da ficção histórica do que das sagas de fantasia anteriores ao seu trabalho.

Esse afastamento em termos de estilo – muito embora a descrição do universo onde se passa a ação seja também extremamente detalhado – não é obra do acaso, mas antes uma contra-resposta ao universo mais utópico de autores como Tolkien e Lewis, feito de motivações transparentes como a honra, amizade, dever ou ambição. A isso, Martin contrapõem com um espectro muito mais largo de motivações e pulsões, como o desejo, a raiva, a inveja, o ardil e principalmente a vingança….

É provavelmente essa crueza e realismo associada ao incrível detalhismo de centenas de personagens (perto de mil) e uma narrativa ágil, extremamente envolvente e vívida , que permite o enorme sucesso da obra literária de Martin e desde o ano de 2011, a série televisiva baseada nas “Crónicas do Gelo e do Fogo” e que herda o título da primeira obra: “A Guerra dos Tronos”.

Falemos então da série que teve a sua estreia no já longínquo ano de 2011, mais precisamente no dia 17 de Abril desse ano pela mão da norte-americana HBO e que desde cedo tornou-se um caso sério de popularidade.

Elogiada pela crítica, e vista compulsivamente por velhos e principalmente novos fãs – que nunca leram um parágrafo dos livros de Martin – que ficaram agarrados às tramas dos Lannisters, Starks , Targaryens, Baratheon entre outras famílias que se desejam apoderar do Trono de Ferro a qualquer custo.

David Benioff e D.B. Weiss foram contratados para dar forma à série, fazendo parte também do grupo de 6 produtores executivos (onde também encontramos G.R.R. Martin). E assim começou uma epopeia em termos de produção e realização para concretizar uma das mais desafiantes transições do papel para o pequeno ecrã da história da televisão.

Um longuíssimo casting foi feito e foram selecionados atores de toda a parte do mundo (maioritariamente das ilhas britânicas), sendo no entanto um must ouvir praticamente todos eles com um sotaque britânico que empresta ainda maior classe e distinção aos habitantes dos 7 Reinos de Westeros, que falam ainda, em alguns casos, Alto Valeriano e Dothraki, línguas que contaram para a sua criação com o apoio de linguistas contratados para o efeito.

Entre os escolhidos destacam-se naturalmente por trabalhos anteriores: Sean Bean (Ned Stark); Peter Dinklage (Tyrion Lannister); Nikolaj Coster-Waldau (Jaime Lannister); Liamm Cunningham (Sor Davos); Charles Dance (Tywin Lannister); Stephen Dillane (Stanis Baratheon) além de uma pequena participação do grande Max Von Sidow no papel do Corvo de 3 olhos.

GoT

Contudo, se algo existe de constante na Guerra dos Tronos é a imprevisibilidade narrativa e como tal , ser um ator conhecido de forma alguma é garantia de longevidade ou destaque na série, sendo por vezes algumas personagens à partida menos relevantes, aquelas que mais destaque tomam no desenrolar dos acontecimentos – isto para quem nada conhece da obra escrita – que o diga John Snow (Kit Harington)…

E já que falamos daqueles que nunca leram os 5 livros escritos de um total de 7 idealizados por Martin, faz muita diferença saber que na narrativa original, a história é contada alternadamente por 8 personagens, o que permite entender a história por perspetivas muito diferentes. Que as personagens por mais importantes que possam parecer, podem morrer no episódio seguinte e que ao contrário de obras mais maniqueístas, as personagens da Guerra dos Tronos crescem e mudam de motivações ao longo da história.

É importante também dizer que as obras de Martin não são para crianças ou gente impressionável, e não se trata apenas da violência extrema, apresentada sem pudor, mas principalmente pela dimensão sexual da obra que não tenta esconder em momento algum, o desejo, a luxuria, a sexualidade desabrida manifesta até em relações incestuosas, na pedofilia ou na violação. O Homem perante si mesmo e os seus desejos, diriam provavelmente Freud ou Adler.

Agora na sua sexta temporada, a Guerra dos Tronos enquanto série parece menos estável do que os livros em matéria de consistência narrativa e qualidade das personagens. A 1ª temporada foi claramente a melhor e mais premiada, a 3ª foi mais bem conseguida que a 2ª e nas temporadas 4 e 5, as personagens parecem por vezes cair dos céus (em comparação com o que acontece nos livros), mas ainda assim é provavelmente a mais complexa e conseguida série dos últimos 10 anos.

Se as duas últimas obras forem tão boas como Martin apregoa, ainda teremos muitos episódios de agarrar ao sofá nesta magnífica Guerra dos Tronos.

E nunca se esqueçam que o Inverno está a chegar!

Valar Dohaeris.



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