Valete @ Campo Pequeno (30.11.12)

Valete @ Hard Club (15.12.2012)

A estreia de Valete nos palcos do Porto cumpriu com todas as promessas

Depois do concerto arrasador num Campo Pequeno a rebentar pelas costuras, Valete cumpriu o que havia prometido: incendiar o Hard Club (HC) naquela que era a sua estreia em palco na cidade invicta.

Mas antes desse momento épico (“épico” e “apoteótico” serão adjectivos constantes neste artigo), a noite tinha muita coisa para oferecer. O Hard Club foi aquecendo ao som de um veterano e de dois rookies do rap português, provavelmente, os dois mais importantes nomes da nova geração do hip-hop português. De um lado, Rey, street rapper sem concessões, ofereceu os seus beats pesados, dos quais se destacaram os do seu último álbum (“Sua Alteza o Vagabundo”, 2011), como “Clube Rude” ou “O Povo Todo”, e outros avulsos, como a histórica «Foda na moda» (sim, essa track que, nos primórdios, circulava por Emules e Kazaas como sendo dos Dealema ou dos Da Weasel). O line-up consagrou-o como segundo em palco, a seguir a Virtus, o que, em boa verdade, não fez muito sentido, tamanho o hype que este último tem gerado junto do público neste ano que agora finda.

Acompanhado por DJ Score nos pratos, Virtus deu um belo concerto, fazendo desfilar as malhas de “UniVersos” (2012) com a inteligência do costume: «História de todas as histórias», «Só Artistas», por exemplo, mas também, coisa que ainda não tínhamos ouvido nos seus concertos, a lindíssima «Diferença». Houve ainda tempo para chamar ao palco Nocas Infinito e cantarem juntos uma das faixas do anunciado álbum deste último, com lançamento previsto para o próximo ano. A fechar, uma grande festa com toda a AMRCrew (crew de street artists e músicos de hip-hop da qual Virtus faz parte) em palco ao som de «Outros Modos» (com Minus). Quem esteve no HC, pôde testemunhar que os poéticos versos de Virtus começam já a estar debaixo da língua de muita gente, pelo que nos resta aguardar por um concerto em nome próprio.

A passadeira vermelha para Valete foi desenrolada por Deau, que, por esta altura, goza de um feedback impressionante junto do público, só comparável àquele de que rappers com muitos anos de carreira (Mundo, por exemplo) se podem gabar. O rapper do Porto esteve igual a si próprio (uma energia contagiante, a que só tem quem realmente sente prazer no que está a fazer) e lançou o rastilho daquela que seria uma noite, repetimos, épica. Além do clássico «Lamento», de “RetiEssências” (2012), o seu primeiro álbum, ouviram-se «Basta acreditares», «Porque é que», «Super homem», «Menino dos subúrbios», «Longa vida ao rei» ou «Teresinha».

Por esta altura, já o Hard Club estava a abarrotar, com a plateia cheia e as escadas laterais e o varandim repletos de rostos ansiosos pela presença de Keidje Lima em pessoa. O “fenómeno Valete” não é de agora e o seu street cred de massas – aspecto que não deixa de ser irónico num artista que se rebela permanentemente contra a cultura de massas e que ainda há pouco coordenou e participou na mixtape “Contra-cultura”, oferecida à entrada – vem já dos tempos de «Fim da Ditadura», tema icónico onde o rapper libertou, pela primeira vez, toda a sua fúria sedenta de revolução.

Foi com “Educação Visual” (2002, em nossa opinião, ainda o seu melhor disco até hoje) que Valete iniciou, na escuridão e em ambiente intimista (contrariando as expectativas dos que esperavam uma entrada bombástica), a sua passagem pelo HC, cantando «Serial Killer», com um enorme eco no público. Sempre ladeado por Bónus e Adamastor, com quem, em tempos, formou o grupo Canal 115, e suportado nos pratos por DJ X-Acto, Valete desfilou clássicos desse disco: «Mulher que Deus Amou», «Nada a perder», «Nossos Tempos» (do melhor texto sociológico que o hip-hop português já produziu) e, claro, «À Noite», essa grande e mitológica (“Vem a lua / e vês a metamorfose dos seres vivos”) canção, com a participação de Bónus (ainda tínhamos esperança de ouvir «Liricistas» com os respectivos convidados, mas ficou adiado).

Com direito a espaço próprio, Bónus cantou o clássico «Do Lumiar para Vocês», recebido em apoteose pelo HC, ao qual Adamastor respondeu, por sua vez, com aquele que é, provavelmente, o seu som mais conhecido, a bombástica «Underground» (“Debaixo do teu calçado / estão os melhores homens da cidade”). Depois disto, foram várias as vezes em que Valete pôs o HC a gritar “ADAMASTOR, VOLTA”, o que redundou, como se esperava, no momento mais comovente da noite. «A melhor rima de sempre» (faixa que Valete remisturou para a mixtape dos Orelha Negra): Valete e Adamastor a um canto, de frente um para o outro e com as cabeças baixas, o primeiro com a mão sobre o pescoço do segundo, o primeiro dizendo-lhe, como que num segredo partilhado com o público, “Adamastor / todos adoram, todos imploram / pelas ruas rimas que as ruas condecoram / Sem o rap nunca terás uma vida, mano / sem o rap, serás uma alma obscurecida / E não tens forma de deixar o movimento / Porque ainda tens de vir fazer a melhor rima de sempre”. Só quem lá esteve pode contar o que o HC, silencioso e expectante, primeiro, eufórico e triunfal, depois, sentiu nesse instante, momento belíssimo que, só por si, já valia o bilhete.

“Serviço Público”, álbum editado em 2006, foi o pretexto para o resto da noite, que só viria a terminar eram já 4h30 da manhã (!). Noite política, com certeza, com Valete a tocar o álbum que o consagrou, definitivamente, como um rapper político e contraditório (todo o radicalismo viver paredes meias com a contradição, como se sabe), espécie de Immortal Technique português. A autoconsciência de que é, hoje, uma espécie de instrutor ou pedagogo para uma geração politicamente acéfala (pós-modernista, para usar um eufemismo), e a seriedade (porventura excessiva) com que a encara, ficou bem patente no número de vezes que, depois de uma música ou de um discurso, dizia “isto é sério, isto é uma cena séria”. «Anti-Herói», «Revelação», «Subúrbios», «Monogamia», «Canal 115» (com Bónus e Adamastor, em ambiente de festa) foram das faixas mais calorosamente recebidas (só faltou «Serviço Público») num HC que atingiu o seu clímax com a inevitável «Roleta Russa», oportunidade para Valete introduzir um novo e divertido refrão: “Sexo sem control(o) é roleta russaaa…”. Mas a noite não teria saído política se Valete não tocasse o hino que o lançou como artista politicamente fracturante: com grande parte da plateia aos saltos, «Fim da Ditadura» eclodiu como se de um petardo se tratasse, e, a certa altura, a voz do público quase se sobrepunha à do próprio Valete.

Paralelamente, Valete foi tocando alguns dos trabalhos que tem lançado enquanto não chega “Homo Libero”, o seu aguardadíssimo álbum com lançamento previsto para o próximo ano. Ouviram-se «10 Anos», «Mulheres da minha vida», «Meu país» (faixa que reflecte sobre o actual fenómeno da emigração portuguesa, e que tão emocionadamente o público recebeu) ou «Os Melhores Anos» (com Jimmy P em palco, com um braço ao peito). A dado momento, o HC tornou-se uma arena de pesos pesados, quando Valete chamou a palco Mundo, Fuse e Deau e, todos juntos, improvisaram em palco (escusado será dizer que Deau deu um autêntico show). De “Homo Libero”, Valete só deu mesmo um cheirinho, com a já conhecida «No meio das labaredas», cujo verso “Que se foda o comunismo, eu amo é as pessoas” indicia uma possível inflexão na visão marcadamente política (e não raras vezes ortodoxa) de um artista que nem sempre conviveu bem com o rótulo de “comunista” e todos os “istas” que daí derivam ou podem derivar (em «O Barbeiro de Sevilha», Valete diz muito lucidamente: “Pronto para o antagonismo que vem com o meu radicalismo / cuspir a verdade traz consequências / estou pronto para a imponência dos ataques da concorrência”)

Além do concerto propriamente dito, é de destacar a visão de um artista que soube servir-se do suporte multimédia para engrandecer um concerto onde, atrás de si, numa tela gigante, passaram imagens, letras, videoclips e até testemunhos (Valete fez questão de passar vídeos de dois dos mais antigos iniciadores do hip-hop português). Se a necessidade de dizer isto pode soar estranha no mundo do espectáculo actual, deixa de o ser quando falamos do meio hip-hop, onde, muitas das vezes, o aparato técnico se resume aos intérpretes. Valete quer fazer coisas grandes e sabe munir-se dos instrumentos para o conseguir – a força panfletária da palavra e das imagens é mais uma peça do dispositivo performático com que Valete pretende fazer passar a sua mensagem junto do público.

Musicalmente épico, memorável, o concerto de Valete no Hard Club mostrou ser, além de tudo isso, uma celebração ecuménica da heterogeneidade: para nós, que já frequentamos este meio há muito tempo, nem na recente festa da Vicious no Coliseu se registou uma tamanha variedade de pessoas e estilos num concerto de hip-hop. Prova não só do poder de alcance de um artista, mas também do trilho universal que o hip-hop vem percorrendo no nosso País.

A terminar, uma pergunta inevitável à organização: porquê a insistência em começar os concertos à meia-noite de um sábado e terminá-los quase às 5 da manhã? Fará algum sentido? Seremos os únicos que, depois de um concerto, gostam de ter tempo para ir beber um copo com os amigos e comentar os momentos da noite?



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