Valete

Guerrilheiro Verbal.

Não vale de muito escrever um grande texto introdutório para apresentar Valete quando se transcreve uma entrevista como a que vão ler a seguir.

Importa só referir o propósito desta entrevista: Valete acaba de lançar o seu segundo álbum, “Serviço Público”, que foi editado em parceria pela Horizontal Records e a Footmovin.
Siga a entrevista…

Música

Depois do “Educação Visual” ter sido o sucesso que foi, como lidaste com a pressão de um segundo álbum…?

(risos)
Posso dizer que o meu primeiro trabalho foi um álbum em que eu rapidamente percebi que aquele não era o meu auge enquanto MC. Foi um primeiro registo para eu ganhar experiência, maturidade… até ao nível do contacto com o estúdio, com os produtores e para ter a percepção do que é um álbum. Por isso não tive tanta pressão assim, porque sabia que conseguia facilmente superar-me.

Depois de ouvir o “Educação Visual”, reparei em detalhes e pormenores que, para um álbum, são importantes e que o Educação Visual não tinha. Acabava por ser quase que uma demo…

O meu álbum é o “Serviço Público”, tem a minha cara, tem empenho, um ano de trabalho, músicas com pés e cabeça e sente-se que é uma coisa muito mais elaborada.

Provavelmente sentirei pressão para um terceiro álbum, para este não senti.

Do feedback que já tiveste, as expectativas foram atingidas?

Sem duvida! Sem dúvida… eu acho que a maior parte das pessoas gostou muito, nem estavam à espera que eu conseguisse superar-me. Porque evolução é mudança e mudança às vezes causa incómodos para certas pessoas. Há pessoas que estão muito ligadas ao teu anterior trabalho e quando tu mudas não seguem essa mudança. Os artistas, muitas vezes, evoluem mais que o seu público. Não foi o caso. Eu mantive o estilo, que é o estilo do Valete, mas acho que agora é tudo mais elaborado, mais complexo e muito mais trabalhado. Tem um nível mais adulto, mais maduro, mais evoluído também.

Acho que as pessoas sentiram isso: que é uma coisa mais elaborada, a todos os níveis.

Li numa entrevista que tinhas intenção de não te repetires nos temas que abordas. Essa intenção manteve-se? Tens alguma opinião sobre isso? Eu acho que o “Educação Visual” era mais conceptual do que este “Serviço Público”. Tinha uma linha comum, talvez mais abstracta. Neste álbum falas um pouco de tudo, no geral…

Estou-te a perceber, mas não concordo. Acho que há temas em que tu podes sentir isso mas é propositadamente. Neste álbum eu tenho um tema chamado «Serviço Público» em que o conceito do tema é como se fosse um telejornal apresentado por mim. Vou emitindo verdades, que são verdades que as pessoas não estão habituadas a ouvir. São as verdades não veiculadas pela comunicação social, então o “Serviço Público” tem muita informação, mas o álbum tem muitos temas diferentes, por isso não tem esse cariz tão conceptual.

Eu como MC tenho a preocupação –  acho que os outros MC’s também a deveriam ter – de fazer uma música com tema e focar-me somente naquele tema. Já ando um pouco cansado dos temas de estilo livre, rimam muito, sobre tudo, mas não dizem nada. Eu gosto de ter um tema e seguir nele…

O “Serviço Público” é o “Educação Visual” parte 2…

Os temas são diferentes mas é uma sequela no sentido em que o primeiro álbum foi um trabalho de observação, de reportagem, e este é um álbum de opinião, ou seja, um “Educação Visual” parte 2 sem dúvida.

O teu flow também mudou, parece-me menos energético, isso foi pensado ou foi uma evolução natural?

Menos energético? (risos)

Não concordo, não concordo mesmo.

Até te vou dizer que eu tinha uma dificuldade em passar sentimento, emoção e até energia em algumas músicas do “Educação Visual”. Era uma falha minha enquanto MC. O que trabalhei para o “Serviço Público” foi exactamente isso.

Quando eu faço um som como o «Revelação», em que há um diálogo com Deus, tinha de o fazer assim, de forma serena… Como o «Subúrbios», que exige uma presença diferente.

Cada som é um som e algo que eu acho que tenho e que foi trabalhado é esse tipo de versatilidade. Consigo fazer um tema como o «Anti-Herói», em se ouve um nível de emotividade ao extremo, depois um som como o «Roleta Russa», que é um storytelling com um beat muito lento, de 82 bpm [ndr: batidas por minuto] onde tive que dar uma cadência diferente.

Sente-se que eu tentei ser o mais adaptável possível. Cada instrumental merece um flow, cada tema merece um flow… O que posso dizer que estou, ao nível do flow, onde eu quero estar. No “Educação Visual” havia coisas que não me agradavam tanto.

O meu trabalho como MC tem sido tentar ter a capacidade para rimar nos instrumentais mais rápidos e para ter envolvência nos beats mais lentos.

Outra das diferenças é o uso da linguagem, agora é mais agressivo, mais rude. Foi propositado?

Nada é propositado. São fases que vives que, depois, espontaneamente, descarregas tudo o que estás a sentir no tema que estás a escrever.

A minha relação com a música é uma relação de verdade, ou seja, eu sinto necessidade de observar as coisas e depois manifestar-me. Se tu me ouvires a gritar com esse pessoal que é programado, que consome os hits da rádio cegamente, é porque aquilo me incomoda muito. Caso contrário não faria aquilo com aquela emoção, com aquela intensidade.

No “Serviço Público” sou eu a 100%. Com a minha emotividade, com a minha parte destrutiva, com a minha parte negativa, eu com as minhas inclinações políticas. Sou eu! Sem qualquer tipo de desonestidade.

Na minha opinião a tua agressividade é capaz de afastar os ouvintes ao invés de os fazer receber a mensagem. Por exemplo no tema «Pela Música pt.1» és muito ofensivo…

Vou-te dizer uma coisa, eu sou formado em Ciências da Comunicação e uma das coisas que retirei do curso é que, em muitos casos, ofender é muito pedagógico. É a ofender que ensinas.

Se te ofendo tu ficas ofendido mas vais-te obrigar a um processo de reflexão.

Quem ouve «Pela Música pt.1», a primeira coisa que vai tentar perceber é se se identifica com aquela pessoa que eu critico.

O primeiro passo para a mudança é a tomada de consciência.

Há gente a quem tu emprestas um CD e não acha nada de especial, mas, passado um mês e depois de ouvir cem vezes aquilo a passar na rádio e na televisão, já adora o CD. Só porque a rádio e a televisão lhe impingiram, ou seja, ele não escolhe música, ele apenas recebe música. É um programado, é um irracional!

Por isso esse tema está a ter um efeito positivo. Há quem ouça e passe a quem se pode identificar com o retrato que faço. Claro que há quem fique ofendido mas eu há muito tempo que desisti de ser consensual.

Neste álbum há uma maior crítica à indústria musical. O que é que te revolta nessa mesma indústria?

Principalmente as rádios, porque o conceito de rádio e de comunicação social tem que ser, em primeiro lugar, um conceito de instituição independente. Nós queremos uma rádio que passe a melhor música que existe. A rádio tem de estar independente de tudo, tem de passar a melhor música, tem de filtrar o que é básico.

O que é que acontece hoje? A rádio tem acordos com editoras majors. Há editoras que, antes de sair o álbum, já garantiram que o single vai tocar nas rádios 100 vezes por mês. A rádio dá espaço para que esses artistas básicos das editoras majors segreguem a boa música que se está a fazer.

Política


Nas tuas músicas revelas-te como ideologicamente ligado ao comunismo. Estou certo? O Partido Comunista Português é o partido em Portugal com que mais te identificas?

Eu, quando era mais novo, mantive uma relação com a JCP e o Partido Comunista é um partido com que eu, ideologicamente, me identifico muito, mas no qual não voto. Principalmente por não estar de acordo nem me identificar com a sua estrutura actual. Acho que é um partido pesado, conservador que não se preocupa com as questões que são muito importantes. Como a religião, a criminalidade, as drogas, o aborto. Não se preocupa com a veemência que deveria.

Hoje voto no Bloco de Esquerda porque é um partido que, ideologicamente, está muito próximo das minhas referências políticas. O Bloco tem-se realmente preocupado com as novas questões com muita força, veemência e a energia necessária para fazer esse combate.

Em relação ao estar ligado ao Comunismo. Desde que Marx idealizou este conceito já sofreu muitas alterações na cabeça das pessoas e até na história da humanidade. Vou-te dizer que o Comunismo e o Marxismo são referências essenciais para todo o gajo que é de esquerda, seja ele do PS ou Anarquista, Marx e o Comunismo são referências para toda a esquerda. Foi de lá que eles retiraram toda a sustentação ideológica.

O Comunismo foi implantado em alguns países do mundo. Qual desses modelos achas que pode servir de referência?

O modelo Cubano, que não é exemplo para mim, é um modelo que tem algumas virtudes e do qual se pode retirar algumas coisas.

Cuba tem 120 mil professores, a maior parte das pessoas são doutoradas, a taxa de alfabetização é das maiores do mundo. Não há gente rica a explorar e a gozar com a pobreza dos outros. Quase que se pode dizer que só existe uma classe social.

As pessoas são muito cultas, educadas e preparadas. Percebem o esforço político que está a ser feito.

Cuba tem um grande problema que é o embargo económico que bloqueia a economia cubana e por isso Cuba nunca vai sair da situação em que está, até porque é um país que não tem muitos recursos naturais.

Dois modelos que para mim são um grande exemplo e que, no futuro, podem singrar e inspirar outros países, são os modelos da Venezuela e da Bolívia. São países com democracias implantadas, presididos por políticos democraticamente eleitos e onde o Estado é um Estado presente.

Na Venezuela haviam muitas empresas estrangeiras que exploravam o petróleo e roubavam, roubar é mesmo o termo, quase 90% da riqueza do país. A Venezuela é o quinto exportador de petróleo do Mundo, é um país riquíssimo a nível de recursos naturais e a maior parte da população é pobre.

O Hugo Chavez chegou e disse: “Isto tem de acabar. O Estado vai explorar mais de metade do petróleo.” E hoje mais de cinquenta por cento da exploração petrolífera é feita pelo Estado e o dinheiro reverte para a população.

Um país pode ter empresas privadas mas é sempre para beneficiar esse mesmo país. Não se pode aceitar uma empresa privada que explore o país e que deixe o povo desse mesmo país mais pobre.
Foi isso também que, na Bolívia, o Evo Morales fez. A Petrobrás, uma empresa brasileira, fazia a exploração de cerca de 70% do gás natural da Bolívia, que é uma das suas maiores riquezas naturais e o povo Boliviano é paupérrimo, vive com um dólar por dia. O Evo Moralez disse: “Isto assim não pode ser”…

É isto que eu defendo: um estado sempre presente. Porque o estado não se pode divorciar de todas as questões. Não pode privatizar a saúde, a educação… há sectores que têm de estar sobre a alçada do estado.

Religião

Tiveste educação religiosa?

Sem dúvida. Tive educação Católica…

E isso ainda se mantém em ti?

Não… A religião é o ópio do povo e é um facto de perpetuação e de continuação da ignorância das pessoas e das próprias sociedades.

Pode-se manter uma relação com uma entidade divina sem pertencer a um movimento religioso. A religião serve para instituir comportamentos, moral… A religião impõe estilos de vida, impõe uma moral. Isso é tirar a individualidade.

A religião anda a tirar o espírito de revolta às pessoas. Há gente que não quer fazer este combate porque a religião impõe uma falsa moral.

Literatura

No teu álbum existem algumas referências literárias. Qual é a tua relação com a literatura?

Eu gostava de ser um leitor mais compulsivo do que aquilo que sou. Gostava de ler mais, mas pela vida que tenho e até pelo preenchimento que a música tem na minha vida não o consigo ser.

Quais foram os livros que te mudaram de alguma forma?

Isso é uma pergunta difícil…

Li um livro há pouco tempo que me marcou muito. Um livro do economista Jeffrey Sachs, chamado “O Fim da Pobreza”, onde ele explica que é possível acabar com a pobreza extrema até ao final de 2025, sem necessidade de uma grande engenharia financeira. Eu não acreditava nisto, porque pensava que havia um bloqueio capitalista, mas o Jeffrey mostra por a+b que é possível.

Outro livro que me marcou, apesar de o ter lido quase que transversalmente, foi o “Manifesto Comunista” do Marx e do Engels. Foi um livro que me introduziu na política e que me deu os ideais que tenho até hoje.



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