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Valsa com Bashir

Dançando por entre as memórias.

Vou ser solene: “Valsa com Bashir” demorou 26 anos para ser feito. Apesar de tecnicamente o processo de produção ter tomado apenas quatro anos, na prática, a sua feitura começa no dia em que Ari Folman, soldado israelita, abandona a carreira militar. Segue-se um vácuo absoluto até este filme, ou melhor, até ao dia em que Ari Folman, realizador israelita, percebe que, ao contrário do que seria expectável, não tem memórias de guerra. A guerra de Ari Folman é a do Líbano, 1982 – tem 19 anos. O filme de Ari Folman é Valsa com Bashir, documentário animado de hora e meia, esfuziante e aterrador, belo e grotesco. Ari Folman é não só o realizador como o argumentista, o co-produtor e, claro, o protagonista.

O interesse começa na descrição: raras vezes ouvimos falar de documentários animados (caramba, verdade seja dita, raramente ouvimos falar de documentários ou de animações extra-Pixar/Disney/Dreamworks). E ver um documentário animado – há quem diga que o primeiro – com esta projecção (nomeado para a Palma de Ouro em Cannes e para o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro; vencedor nessa mesma categoria nos Globos de Ouro) e a ser tão bem recebido pela crítica e pelo público (unânimes não será exagero meu) é um caso ainda mais raro. Não é hype, é só uma estória bem contada.

“Valsa com Bashir” podia ser apenas um interessante rodopio animado, sem ser um bom filme. Ou podia contar uma boa estória e ser um pesadelo visual. Ou ainda ser digno de nota pelo género inusitado a que pertence. Ou ser meramente interessante pela abordagem ao conflito no próximo Oriente. O milagre (perdoem-me o biblicismo) é conseguir juntar todas estas características num resultado final cinematograficamente coeso, culturalmente relevante e pessoalmente significativo. Mas, e vou ser solene mais uma vez, tiremos um aspecto da frente: não é um filme anti-Israel. Não é sequer um filme de guerra no sentido convencional, não havendo lugar para actos heróicos, camaradagem, ou qualquer outro tópico da cartilha bélica em película. A guerra não é o tema, é só cenário.

No limite, este não é sequer um filme político, apesar de todas as ramificações por esse campo; é tão simplesmente um filme sobre um soldado com memórias violentas reprimidas que se torna, algures no processo de recuperação cognitiva, num filme anti-guerra – todas elas. Ainda assim, é difícil escapar à dupla actualidade inadvertida de “Valsa com Bashir”: a segunda guerra do Líbano em 2006 e o recente ressurgimento do conflito em Gaza. E, mesmo não sendo um filme bélico, duas das sequências melhor conseguidas envolvem tiroteio: a cena em que os soldados israelitas conduzem um pequeno tanque e disparam para todos os lados aleatoriamente e a sequência que dá nome ao filme, em que um soldado israelita metralha furiosamente, trôpego, sob o olhar de um poster gigante de Bashir Gemayel.

Há outro objectivo para Folman, este menos evidente do que as memórias pessoais: determinar o seu grau de culpabilidade como soldado israelita nos massacres de Sabra e Chatila, ambos campos de refugiados palestinianos no Líbano ocidental e palcos de excruciantes massacres às mãos da milícia falangista cristã. O contexto de violência é a razão principal para que a animação fosse, segundo o próprio Ari Folman, o único caminho possível na realização de “Valsa com Bashir”, para não falar da extrema dificuldade (e preço) em reproduzir, por meios convencionais, o Líbano de 1982 em guerra.

Um milhão e meio de Euros depois, o resultado é uma aventura estética sem precedentes e um ensaio sobre moralidade. A animação, um novo método inventado por um israelita, mistura animação clássica com animação em Flash e em 3D, é assombrosa, ainda que por vezes alguns movimentos possam parecer pouco fluidos. É impossível não nos lembrarmos de outros filmes esteticamente arrojados como “A Scanner Darkly” (as pessoas), “Paprika” (as alucinações) ou “Renaissance” (pelas implicações políticas), todos de 2006.

Outro aspecto interessante em “Valsa com Bashir” é a sua riqueza estilística. A começar nos diálogos, a maioria dos quais são conversas reais entre Folman e outros ex-soldados israelitas. Mais: não só é animado como tem um curto segmento de footage real e a própria animação não é linear, dando saltos históricos de 1982 para as conversas de Folman com os ex-camaradas, passando do relato e evocação de memórias para sequências oníricas de grande fruição estética para o espectador. Realidade, animação, memórias, alucinações, sonhos, lição de história, manifesto pacifista, expiação catártica – “Valsa com Bashir” encaixa em todas as categorias.

Voltando à escolha pela animação, é ela que permite relatar eventos e gozar de paisagens sonhadoras sem que haja um corte entre os dois e é ela que permite olhar para a guerra de uma forma completamente nova, mas corre ao mesmo tempo o risco de estilizar a guerra, distanciando o espectador dos seus horrores – o que iria ostensivamente contra os propósitos de Folman; por isso mesmo, no final somos resgatados da animação e confrontados com footage do pós-massacres, numa manobra que alguns podem considerar um truque baixo, mas que funciona estritamente como um anódino da beleza das sequências animadas.

Ainda assim, os perigos do uso de animação permitem atingir um grande objectivo do realizador: distanciando o espectador daquele conflito em particular, ganha-se universalidade, podendo a lição ser aplicada a qualquer guerra armada e servindo o propósito de libelo pacifista por não se cingir a um embate em específico. E esqueçam o moralismo: a animação é um enlevo.

Destaque ainda para a banda sonora, um score original do compositor alemão Max Richter (produtor do segundo álbum de Vashti Bunyan, vencedor do European Film Award 2008 e nomeado para um prémio ANNIE) composta ainda por temas dos OMD e dos PiL, em mais um caso exemplificativo dos recursos estilísticos variados que Folman e a sua equipa usaram.

Num cinema perto de si e brevemente em formato de graphic novel. Difícil de lembrar, impossível de esquecer.



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