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Valter Lobo

"Um homem com ilusões que parecem as de uma criança"

Prolongando ou não uma estação do ano que teima em aparecer com regularidade, Valter Lobo apresenta-nos um “Inverno”, em formato EP.

Carregado de melodias calmas e melancólicas que parecem prolongar o mais frio dos dias – aqueles em que ficamos a ver a chuva a cair abraçados a um chá -, este EP leva-nos à instrumentalidade indie dos novos nomes da música, como Bon Iver. Mas a voz é em Português, sem falsetes, apenas a essência do sentimento natural de quem canta músicas de amor, desejos e inquietudes.

Composto por cinco músicas, este primeiro avanço de Valter Lobo teve como single de apresentação «Eu não tenho quem me abrace este Inverno», e já tem tido espaço no airplay das rádios nacionais. E por isso os finais são felizes; sempre em crescendo, estes temas não nos deixam na tristeza, mas sim no desejo de mais estações do ano ou um LP.

Falou-se com o mentor do projecto, um advogado que se tenta libertar dos estigmas e imposições que a sociedade coloca, fazendo das suas letras hinos de resolva. Mas a introspecção dos dias mais cinzentos e curtos conduz-nos a sentimentos mais profundos. Valter Lobo busca um sonho, o sonho de tocar as pessoas musicalmente.

Quem é Valter Lobo? Fala-nos um pouco sobre ti…

Responder concretamente sobre quem somos é muito difícil.

É um humano que erra e acerta. É um homem com ilusões que parecem as de uma criança. É alguém que quer fazer e ver coisas belas. Ele vive em cima dos sonhos e às vezes deixa de lado o racional. No meu BI consta que ainda não tenho 30 anos e que sou natural de um vale no Norte de Portugal, a cidade de Fafe, bem no coração do Minho.

Em Fafe resido e estou a trabalhar, embora tenha fugido durante sete anos para Braga, onde me licenciei em Direito mas também passei de adolescente para adulto. Na vida e na música.

A música entra como e quando na tua vida?

Desde pequeno que sempre gostei de música, de a ouvir. Mas o gosto surgiu sozinho e naturalmente. Não tinha relação com ninguém que tocasse ou fosse viciado em música. Tinha um walkman vermelho que andava sempre comigo. Ia gravando cassetes com as bandas da altura e rompia as fitas a ouvi-las. Um pouco mais tarde, com a entrada nos anos 90, fiquei fascinado com o pop rock britânico, ouvia Suede, Blur, mas era completamente fanático pelos Oasis. Tenho toda a discografia, singles, VHS e DVD’s originais, bem como quadros e t-shirts religiosamente guardados. Foi por eles que me dirigi a uma escola de música para aprender guitarra: entrei e disse que queria saber tocar todas as músicas do “what’s the story morning glory”. Em Espanha, antes de um concerto, cheguei a cumprimentar de mão o Noel Gallagher! Quanto a bandas, tive uma em adolescente e outra durante a universidade, em Braga. Mas a sério, só agora.

Como é o teu processo criativo? Começas pela letra ou o instrumental?

Normalmente começa pelo instrumental, passo muito tempo com a guitarra nas mãos. Tenho uma na sala e outra no quarto. Vou fazendo acordes, muitas vezes inconscientemente mas depois vão surgindo as melodias e começo a ir buscar os sons que quero. Às vezes também dou comigo a cantarolar uns versos e gravo-os logo para o telemóvel ou computador. A letra vem depois, depois de o som da canção me transportar para um local qualquer ou me imbuir de um sentimento, na sua maioria melancólicos. No entanto, a letra já vem influenciada também pelas ideias e pensamentos. Não surge de um momento para o outro, nem por mero acaso.

Qual o teu instrumento de eleição? Tocas muita coisa?

O meu instrumento é a guitarra em ex aequo com a voz. Não me considero nenhum grande executante dos dois, mas gosto do resultado do que faço. Grande parte dos artistas que admiro não devem tocar muito melhor do que eu. O que importa é a melodia que crio e a identidade que lhe dou.

Falando um pouco do EP, ele nasce literalmente no Inverno de 2011, e surge devido à participação no Termómetro, ou já existia um desejo de juntar umas músicas e lançá-las ao público? Como foi a participação no festival?

Este EP, embora tenha surgido no Inverno de 2011/2012, era algo que já queria fazer há muito tempo. O projecto Valter Lobo não tem data de nascimento. Surgiu desde que sei que consigo criar músicas, tocá-las e cantá-las. Isto pode ser há 15 anos. Como nunca deixei de fazer música, embora a guardasse para mim, decidi que era a altura para o gravar, que já teria a experiência e maturidade para o fazer com a qualidade que pretendia. Quanto a participar no Festival Termómetro, é sempre uma grande experiência e uma óptima montra nacional. No entanto, com ou sem a participação nele, iria gravá-lo e tentar editá-lo. Trata-se de uma edição de autor.

De onde veio a inspiração para as músicas? As letras transmitem a dor do desejo e do amor… Queres descrever um pouco o sentimento por detrás das músicas deste EP?

A inspiração vem do que sinto e dos sonhos que procuro realizar. A dor reporta-se muito ao desencanto que vou ganhando com o mundo. Poderia ser tão bom e bonito e nós, humanos, teimamos em torná-lo feio e escuro. As pessoas estão muito distantes, há invejas em tudo. Não há uma vontade de crescimento colectiva mas individual. Cada um quer ser maior do que o outro e isso afasta as pessoas. O mesmo se passa com o amor. Pessoalmente, posso dizer que sou um sortudo. Mas as pessoas já não vivem amores sem limites. Há outros condicionantes em jogo. Há o dinheiro, há o estatuto, há preconceitos sociais. O conceito de amor nas minhas músicas é de um amor “desconfortável”, sem casas ricas, sem preconceitos. Um apartamento vazio com um colchão no chão… ao lado só os bens essenciais e itens de culto como CDs de música, livros, desenhos… É de duas pessoas que esperam, uma pela outra, debaixo da chuva…

Quando encontrarmos estes amores, estaremos perante amores verdadeiros.

Já o “Inverno”, traz-me outro tipo de inspiração. Sou muito influenciado pelas estações. No Inverno temos os sentimentos mais à flor da pele, interiorizamos os nossos pensamentos, estamos mais frágeis e vulneráveis. O Verão é mais estúpido, mais carnal. Seguem-se apenas os instintos.

Como te apresentas ao vivo? Tens uma banda ou apresentas-te maioritariamente a solo e em formato mais acústico?

Ao vivo apresento-me em todos os formatos. Já toquei na Rádio a solo com a guitarra acústica, no Termómetro fomos quatro elementos, como uma banda normal. No entanto, agora vamos em duo. Eu e o José Duarte Antunes, que foi quem produziu as músicas e as gravou, bem como fez outros arranjos instrumentais. Eu toco guitarra e voz. Ele leva teclas, guitarra, metalofone, melódica e controla as programações. Utilizamos uma caixa de ritmos e software para os ritmos. Para locais mais pequenos e intimistas acho que resulta muito bem este formato.

As tuas influências vão de Damien Rice a Bon Iver, passando pelos The National ou Editors…. E a nível nacional? Quem tens como influência ou exemplo?

A nível nacional também gosto de alguns músicos. Gosto, em todos os aspectos, do David Fonseca. Da música, dos espectáculos, do que ele faz em casa com vídeo e fotografia. É uma verdadeira inspiração. Gosto também muito do Tiago Bettencourt, e das canções mais cruas dele. Já no que toca à parte lírica, para além destes dois, admiro as letras do Pedro Abrunhosa, e como ele encaixa um Português tão bem escrito nas suas canções. Entre outros, é claro… Ouço tudo. Agora há artistas bandas novas que também sigo. O Noiserv e os Best Youth, têm conceitos de banda/artista de que gosto muito.

Como é ouvir as músicas que criaste na Rádio? Já começas a ter algum airplay…. O que sentes?

É uma sensação mesmo muito boa. É um pouco de reconhecimento do meu valor, de que o trabalho que se fez a fundo perdido está a começar a ser aceite por quem percebe e entende de música. São balões de ar para o meu peito.

Quais os planos para o futuro…. Podes desvendar desde já as ideias que tens ou datas breves para te podermos ver/ouvir?

Agora quero promover o “Inverno” e quero muito tocar ao vivo, em todos os “cantinhos”. O facto de participar na compilação dos Novos Talentos Fnac 2012 poderá trazer outras novidades para breve. Gostaria muito também de tocar ou participar em projectos com outros músicos. Aprender coisas novas, viver outras experiências. Como sou eu que comando este barco, o processo criativo não pára. Até ao fim do ano, é certo que mais um EP ou LP estará cá fora. Resta-me só saber se vai ser mais uma edição de autor ou se vou ter outro tipo de apoio. É certo que vai acontecer mais alguma coisa.



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