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Vânia @ Teatro da Trindade

Resistiremos

O estilo de Anton Tchekhov é inconfundível em “Vânia”, a peça que estará até 10 de Junho no Teatro da Trindade, em Lisboa. Elisa Lisboa, João Lagarto, José Wallenstein, Lucinda Loureiro, Pedro Lima, São José Correia, Teresa Tavares e Wagner Borges dão vida às personagens do clássico dramaturgo russo.

A uma propriedade rural chega Aleksandr, um professor universitário reformado, e a sua bela e jovem mulher Helena. Aleksandr é cunhado de Ivan Petrovitch, mais conhecido por Tio Vânia, e pai de Sonia, que até então viviam calmos e concentrados no trabalho do campo.

Daqui a 100 anos o Homem será feliz. Daqui a 1000 anos o Homem será feliz. É deste modo que se inicia a peça. A procura da felicidade no futuro e uma desvalorização do presente face às expectativas é um dos aspectos mais marcados da peça. Assiste-se a vários seres humanos para quem o futuro é uma referência e o passado um lugar onde se desperdiçaram as possibilidades de ter sido feliz no presente. Uma vontade de se estar onde nunca se poderá, seja esse espaço físico, mental ou temporal.

As paixões são uma das marcas constantes da acção. Desde a mais repentina àquela que está guardada há anos. O tabu impera nas relações amorosas de Vânia. Os seres humanos mostram-se frágeis, incapazes de ultrapassar os limites que demarcaram para si próprios apesar de uma vontade inimaginável que os assola.

Um sentimento de melancolia invade a peça do princípio ao fim e coloca em causa valores que as personagens tomavam como certos. Nada se mantém como antes com a chegada do casal. As guerras e os conflitos emergem, ainda que mergulhados em grande parte das vezes numa boa dose de humor.

O cenário imponente de madeira enquadra a história desta família que rompe em muitos aspectos com o tradicional. Evoca-se também o ambiente rural em que as acções se desenrolam e traz-se para cena as florestas que tantas vezes surgem nas falas das personagens. Joga-se com a luz e com a sombra na procura da emoção necessária para completar o momento.

O interior de cada personagem é tornado conhecido através de diálogos que na sua essência são monólogos, bem ao estilo de Tchekhov. As personagens falam uma com as outras como se desabafassem para si mesmas. Os olhos poucas vezes confrontam as personagens com quem contracenam.

O elenco mostra-se à altura das personagens e consegue construir um dinamismo fácil de acompanhar. Os destaques vão para São José Correia e Teresa Tavares que se transformam em duas personagens poderosas, constituídas com bastantes pormenores e com uma carga dramática acentuada que mostra o choque constante entre a felicidade e a tristeza.

“Vânia” é um bom exemplo do espírito tchekoviano em Português. Uma peça onde as temáticas e as opções cénicas se conjugam bem.

Fotografia de Margarida Dias



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