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Vencer

Mussolini ausenta-se da sua história.

“Vencer” de Marco Bellocchio é um filme biográfico por portas travessas. Da dificuldade de se reter na figura de Benito Mussolini – maior do que a vida, ilusória, fugitiva, como o são as de pessoas tão marcantes para a história – preferiu-se contemplar os malefícios do seu governo, não sobre o povo em geral, mas sim sobre a sua (primeira? – não existem documentos oficiais, provavelmente destruídos, pelo que a dúvida persiste) mulher e o seu filho bastardo.  É uma opção compreensível, é mais fácil conseguir o afecto do público por uma ou duas personagens do que por milhões. Mas o filme perde por isso.

Perde quando a figura de Mussolini desaparece: o fulgor inicial da obra de Marco Bellocchio vem da fúria de vencer, de ser alguém, de ser deus do jovem Benito, quando este ainda pertence ao Partido Socialista, quando desafia Deus a fulminá-lo, quando se desliga do partido, quando funda o jornal “ll Popolo d’Italia”, quando forma o Partido Fascista. Benito deixa de existir quando se torna Il Duce. Deserta a vida de Ida Dalser e o filme. Dele só resta a caricatura grotesca que criou para si, nos noticiários cinematográficos e na rádio. No entanto, “Vencer”, tal como Ida Dalser, anda à procura dele o resto do tempo, e nós com ele. A sua ausência é imponente, provavelmente mais que a sua presença o seria, mas sabe-nos a pouco. O que é uma opção estilística interessante e inteligente, é também um dos grandes defeitos do filme.

E perde segunda vez quando, depois de largar Mussolini, se resume a seguir a  figura de Ida Dalser, mulher obstinada, obsessiva, obcecada por Mussolini. Lá está, percebe-se a mensagem do filme: a loucura de Mussolini é premiada, enquanto a loucura de Dalser a enclausura em hospitais psiquiátricos para o resto da vida; Ida Dalser só é louca por se opor à loucura de Mussolini (nem é politicamente, a sua batalha é pelo reconhecimento do seu casamento e do seu filho), como todos os outros que se lhe opunham o eram. O problema, para além de ser bastante transparente, é a mensagem ser martelada nas nossas cabeças uma e outra vez, e mais umas quantas, ao longo dos últimos dois terços do filme. Sem alívio algum, o que reforça a mensagem, mas torna tudo demasiado claustrofóbico e exaustivo.

O “formalismo” demasiado arrumadinho, demasiado bonitinho (não falamos do rigor formal que às vezes eleva) fazem pesar ainda mais os defeitos do filme, tornam-no desgastante e matam a excitante primeira meia-hora. Talvez as lutas políticas do pós-Segunda Guerra sejam mais interessantes, matizadas e nos digam mais. Durante o fascismo não havia luta política e é isso que falta a “Vencer”, que já nasce derrotado – o título é obviamente irónico, até as vitórias de Mussolini esbarraram em derrotas estrondosas. Ou seja, é um retrato justo, mas isso pode não bastar em cinema.



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