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Vamos sentir falta de tudo aquilo que não entendemos

Vera Mantero no Alkantara 2010.

Vera Mantero, que começou por estudar dança clássica, ainda fazia parte do Ballet Gulbenkian quando as várias edições dos Encontros Acarte afirmavam a nova dança e o novo teatro no Grande Auditório, no Anfiteatro e nos Jardins da Fundação Calouste Gulbenkian. Não sei que lastro ou influência  isso teve  para o seu trabalho, esqueci-me de lhe perguntar. O que é certo é que desde essa altura, até ao último Alkantara, em que apresentou, na Culturgest, “Vamos sentir falta de tudo aquilo de que não precisamos”, ela se foi tornando num dos mais importantes nomes da renovação da dança portuguesa contemporânea, tendo recebido o Prémio Almada do Ministério da Cultura (2002) e o Prémio Gulbenkian Arte (2009).

O seu trabalho tem sido mostrado em toda a Europa, na Argentina, no Brasil, Canadá, EUA e Singapura. Os títulos de alguns dos seus trabalhos, Até que Deus é destruído pelo extremo exercício da beleza, 2009, Poesia e Selvajaria (1998), Para Enfastiadas e Profundas Tristezas (1994), dão bem conta da sua vivacidade interpelativa. Ou, como disse Gil Mendo na conversa no final do espectáculo, de como “é uma coreógrafa que só quer fazer coisas quando tem coisas para dizer”.

“Vamos sentir falta de tudo aquilo de que não precisamos”, é nesse aspecto, o da comunicação, um trabalho em que Vera Mantero assumiu abertamente o desejo de ser entendida. Explicou-nos:

“São muitos anos de incompreensão. Custa muito estar sempre a ouvirmos ah, não se percebe bem. Acho que as pessoas estão muito condicionadas pela ideia de verem um trabalho artístico e terem de perceber. Não estamos habituados a receber por outros canais que não sejam o da racionalização, o da explicação. Infelizmente somos muito levados a isso.”

Tem por isso uma estrutura narrativa quase linear: os intérpretes trazem sucessivamente cabeças cheias de coisas que vão sendo esvaziadas e deixadas pelo palco. O palco vai ficando repleto de carrinhos de brincar, moedas, rebuçados, cruzes, armas, argolas, recortes de jornais, pipocas, pedras, trapos e tudo isso saiu de cabeças de manequim. A partir de certa altura o espectáculo começou a fugir um pouco desta linearidade: das cabeças começaram a surgir cada vez mais coisas não tão tangíveis. Deixam de ser apenas coisas que consumimos, começam também a ser símbolos de uma ideologia que, provavelmente, também nos consome a nós. Há cruzes, armas, moedas. Começa a impor-se um universo em desordem, o caos. Uma acção de transformação: as cabeças são pintadas com uma base. Há uma intérprete que chora, “Vamos morrer!”, as coisas começam a desagregar-se. Sucedem-se imagens que ficam, como aquela mulher com várias cabeças ligadas entre si. Já quando caminhamos para o final Vera Mantero surge a cantar (haveria de reconhecer na conversa que foi a primeira vez que o fez num trabalho coreográfico, ela que desde 2000 se tem dedicado a cantar em projectos de música experimental), numa canção que assinala a sensação de estranheza, de desligamento. Depois de uma sucessão de acções que surgem como as instruções para uma dança, o espectáculo termina voltando, através do humor, à linearidade narrativa com que começara, propondo um manual de instruções para o uso da cabeça.

A conversa com o público

Depois do espectáculo, como é prática corrente no Alkantara, Vera Mantero e a sua equipa falaram com os espectadores, numa conversa moderada por Gil Mendo, da Culturgest.  Não sendo uma entrevista, apresentamos alguns momentos desta troca de impressões, já que revelam aspectos importantes para a compreensão do trabalho da coreógrafa. Gil Mendo começou por lhe pedir que falasse do processo de criação. Vera Mantero, reforçou esta ideia da necessidade de que tudo fosse muito bem explicado:

“Como tu disseste, vocês perceberam muito bem. Ainda bem, porque eu queria fazer uma peça onde se percebesse tudo muito bem. Porque estava um bocadinho cansada de ouvir dizer depois das minhas peças que não se percebe bem, que é esquisito, hermético. Então queria fazer uma peça que fosse muito explícita, muito directa, ao ponto de arriscar que fosse até demasiado explícita. Achei que era bom experimentar ir para o lado oposto. Havia vários temas que eu queria abordar, a ganância, a avidez, o querer ter sempre mais, e depois aparecem outras coisas, umas cruzes, que eu também não acho mal a gente livrar-se delas, mas o grosso da coisa tornou-se esse lado do consumir, do ter, do açambarcar. Há armas…as armas é algo que já tinha aparecido em trabalhos anteriores e eu queria voltar às armas, e queria também ter corpos, corpos desmembrados, e por aí fora.  O único pedaço de corpo que encontrámos foi as cabeças. Mas como já havia outros objectos em cena, carros, outras coisas, começámos a perceber que tudo isso cabia dentro das cabeças, e isso começou a atrair-nos a atenção.  E resolvemos explorar mesmo isso a fundo. Eu tive um período bastante bom de trabalho com a Rita Natálio, na dramaturgia, antes de trabalhar com as outras pessoas. Não foi preparando a peça, dizendo que ela vai ser assim, mas recolhendo muita informação. É claro que no processo de trabalho há muita improvisação, as pessoas trazem as suas coisas.”

Há uma espectadora que assinala que há uma progressão para um esvaziamento das cabeças e pergunta-lhe se isso significa que caminhamos no sentido da demência colectiva:

“Eu acho que sim. É muito difícil viver no meio disto tudo. E isso cria umas espécies de esquizofrenias, de curto-circuitos, de impossibilidades. Como é que se vive no meio disto tudo?“

Na sala estava a equipa do espectáculo. Começou-se por isso a falar também das várias áreas de criação da peça, como a do dispositivo cenográfico, assinado por Nadia Lauro e depois, da música e da sonoplastia, de Andrea Parkins:

“Os adereços são da equipa toda. Todos os objectos. A Nadia chegou um pouco depois. Eu trabalho com a Nadia há 12 anos mas confesso que antes de trabalhar com ela eu e as pessoas que trabalham comigo éramos muito mais responsáveis pelos objectos. Com ela fomos deixando de nos ocupar disso. Eu desta vez pensei que queria voltar a recuperar essa possibilidade de, enquanto intérpretes, trazermos coisas do mundo. Por exemplo ela ao princípio duvidou da utilização das cabeças. E foi aí que ela encontrou uma solução para aquele chão, que tem a mesma cor das cabeças. Eu sinto que o performer tem de ser dono e senhor daquilo em que mexe. A Andrea teve uma coisa muito engraçada, porque a primeira coisa que fez foi gravar o som daquilo que nós fazíamos”.

Andrea explica que, como Nadia Lauro, também chegou depois, quando já havia textos, vozes, muitos objectos (ela também não estava segura sobre o recurso às cabeças) e que, como se tratavam de objectos muito pequenos, ela teve de expandi-los a nível sonoro. E  foi assim que terminou a conversa, Gil Mendo tinha-lhe pedido para falar sobre o modo como os intérpretes tinham marcado o seu trabalho, até porque, explicou, “Não és uma pessoa que trabalhes sobre a abstracção, preocupas-te em reflectir de modo critico e eu sei que tu te preocupas e procuras pessoas que tem essas mesmas preocupações. “. Vera Mantero respondeu:

“Claro. Até porque eles trazem muitas propostas, muitos projectos. Trazem imensas ideias, imensas propostas. Procuro pessoas que estejam interessadas quanto eu em abordar as questões, que tenham anseios, desejos de fazer coisas, para que eu possa dialogar com elas. Há pouco tempo li uma coisa muito interessante no jornal, eram uma noticia muito pequenina, que dizia que as pessoas que falam de coisas importantes são mais felizes. E eu preciso de estar com pessoas que tenham essa mesma necessidade senão fico entediada.”

“Vamos sentir falta de tudo aquilo de que não precisamos” – Ficha Técnica

Direcção Artística: Vera Mantero
Interpretação e Co-Criação: Christophe Ives, Marcela Levi, Miguel Pereira, Vera Mantero
Colaboração Dramatúrgica: Rita Natálio
Dispositivo Cenográfico e Figurinos: Nadia Lauro
Adereços: toda a equipa
Música e Sonoplastia: Andrea Parkins
Desenho de Luz e direcção técnica: Erik Houllier
Operação Som: Rui Dâmaso
Operação Luz: Jean-Marc Segalen
Produção: O Rumo do Fumo
Co-produção: alkantara festival (Lisboa, Portugal), Fundação Culturgest (Lisboa, Portugal), Kunstenfestivaldesarts (Bruxelas, Bélgica), Festival Montpellier Danse 2009 (Montpellier, França), Teatro de la Laboral – Ciudad de la Cultura (Gijón, Espanha)
Co-produção e residências CNDC, Centre national de danse contemporaine (Angers, França), O Espaço do Tempo (Montemor-o-Novo, Portugal), PACT Zollverein (Essen, Alemanha)
Apoio Les Brigittines, Centro Cultural Vila Flor, Atelier Re.Al
Projecto co-produzido por NXTSTP, com o apoio do Programa Cultura da União Europeia



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