Vicious 5 & Pixies

A melhor nova banda rock nacional e a melhor banda rock dos anos 80.

Até 2004, o público português admirador de Pixies dividia-se em dois grupos: os que tinham assistido ao memorável concerto no Coliseu, em 1991, e os outros, que lamentavam ter nascido uns anos depois do devido. Contudo, a reunião e a actuação da banda em Portugal nesse ano, permitiu que muitos realizassem (ou repetissem) um dos seus sonhos de adolescente.

Mas a reunião dos Pixies prolongou-se mais do que se previa, indo além do mero capricho: a banda concluiu que continuava a divertir-se em palco (eu juro que vi Frank Black sorrir e mais do que uma vez, até) e isso é que interessa. Por isso, as produtoras portuguesas têm aproveitado e, num hábito que começa a ser comum, parece quererem esgotar as bandas junto do público português (os Depeche Mode que o digam). Este é, então, o terceiro concerto em dois anos dos Pixies em Portugal – e a casa ressentiu-se disso.

A noite iniciou-se, no entanto, com os lisboetas The Vicious Five, pontas-de-lança indiscutíveis da revolução musical que se faz actualmente em Lisboa. Para quem tem acompanhado a sua carreira por perto, é notória uma grande evolução da banda no que diz respeito às actuações ao vivo, algo que se reflecte não só nos arranjos e na desenvoltura musical, mas sobretudo no à-vontade com que se apresentam em palco – sobretudo o vocalista e frontman Joaquim Albergaria, cujos passos de dança estão cada vez mais fluídos –, não se atemorizando perante um palco e uma plateia generosamente maiores dos que estão habituados a tocar.

O concerto faz-se em pouco mais de meia-hora, mas poderiam ser muitas mais que poucos se importariam. Com os temas do álbum de estreia, “Up On The Walls”, a desfilarem de forma escorreita, enroladas em bolas de fogo e adrenalina, os Vicious 5 agitaram as primeiras filas da plateia, uma vez que, inexplicavelmente, o resto do público manteve uma atitude apática. Talvez se explique por estarem à espera dos Pixies, que chegariam logo a seguir.

É certo que os Vicious 5 e os Pixies podem ir beber as suas influências a fontes diferentes (apesar de pertencerem à mesma nascente), mas ambas sabem de cor o evangelho rock; apenas o pregam de outra forma.

O concerto dos Pixies inicia-se de forma súbita, com David Lovering a irromper com a sua bateria pelo Pavilhão Atlântico adentro, quando as luzes ainda não tinham sequer baixado por completo. A sensação foi a mesma de termos saltado para um comboio de alta velocidade em andamento: de tirar o fôlego. Depois, surgiram Black Francis, Kim Deal e Joey Santiago e reconheceu-se os acordes de «Bone Machine». A histeria havia explodido junto do público.

É certo que Francis Black pode parecer um jovial gorducho de meia-idade e Kim Deal uma dona de casa entregue à nicotina, mas o primeiro continua a possuir os gritos mais diabólicos e poderosos da história do rock (para quem tem dúvidas, basta escutar «Tame») e a segunda mantém a sua voz doce, que serve tão bem de contra-peso em temas como «Monkey’s Gone To Heaven» ou «Is She Weird».

O concerto fez-se em duas partes: a primeira, com uns Pixies mais sonoros e explosivos, que erguem uma muralha de som impenetrável, mas surpreendentemente límpida, atirando para o público como bolas de energia e de forma interrupta os seus temas; e a segunda, onde após ensaiarem uma despedida, Francis Black troca a sua guitarra eléctrica pela viola acústica e atacam os temas mais dirty-pop, como «Where’s Is My Mind», «Nimrod’s Son», ou o terrorismo sónico de «Vamos» (na sequência que foi o ponto alto de toda a actuação).

Existem ainda momentos que são sempre mágicos, em qualquer concerto dos Pixies, a saber: o já mencionado «Tame», que pôs até o público dos balcões de pé, aos saltos e a gritarem a plenos pulmões; «Monkey’s Gone To Heaven», sobretudo por sabermos que a seguir vem o explosivo «Debaser»; o início de «Gigantic», onde finalmente Kim Deal tem o microfone só para si e pode receber a tão merecida ovação; ou «Hey», cantada em uníssono pelas milhares de gargantas presentes, num momento verdadeiramente arrepiante.

Quando os Pixies abandonaram o palco ainda o concerto ia relativamente curto e os fãs enumeravam várias canções que queriam ouvir. Por isso, o público exigiu o encore, a que a banda correspondeu sem, no entanto, corresponder às expectativas – numa opção algo irónica, os Pixies regressaram apenas para tocar «Here Comes Your Man», que apesar de ser a música que toda a gente quer ouvir, fez terminar o concerto numa espécie de anti-clímax.

Há quem lhes chame de vendidos por continuarem a dar concertos sem motivo aparente. O que é certo é que os Pixies não andam a enganar ninguém: não dão mais do que aquilo que prometem e até já afirmaram em público, mais do que uma vez, que não estão interessados em gravar mais nenhum disco de originais. O que é certo é que não há notícias de ninguém que tenha dado o seu dinheiro por mal entregue.



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