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Magia Negra

“O tempo do Vinil” é o nome uma série de edições lançadas pela Valentim de Carvalho em 2008. Um título que provoca uma sensação hermética de um tempo finito. Sabem que mais? Para muitos, hoje ainda é tempo de vinil.

Para além do usufruto caseiro e valor coleccionável, os discos de vinil revestem-se ainda de uma característica de ferramenta nas mãos de um DJ – mas porquê usar ainda vinil quando existe tanta e tão variada tecnologia disponível? Porquê usar um veículo mais lento, mais pesado e que consome mais quando podemos ter outros mais rápidos, mais leves e… claro, mais económicos?

DJ, djei, djay… a figura nem sempre reúne o maior dos consensos: há quem os encare como um mal necessário, quem lhes dedique uma devoção religiosa, ainda quem os ignore ou admire as suas capacidades enquanto condutores de massas. Mas de um festival para uma festa entre amigos há uma regra que se mantém: alguém tem de controlar o som, assim como há alguém que controla as bebidas, o espaço ou a porta.

Desempenhar a tarefa pode ser simples conhecendo o processo de mistura e os elementos em jogo. Resumindo o que se passa atrás de uma cabine básica de um club, bar, etc: ligada a toda a amplificação da sala existe uma mesa de mistura conectada por sua vez a um par de pratos e a um par de leitores de CD – estes são os meios de produção sobre os quais o DJ actua utilizando discos de vinil, CD, a mistura dos dois ou substituindo-os por um computador portátil com algum software da nova revolução/emulação como o Serato, Final Scratch ou Traktor.

Ao DJ pede-se técnica para dominar estes elementos e uma selecção musical coerente. A mistura entre faixas pode ser suave e progressiva – mais associada a estilos demarcadamente 4/4 como o House ou Techno ou agressiva e rápida como no Hip Hop ou Rock. O beatmatching – o conceito de acertar o tempo entre duas músicas, é uma das principais etapas a ultrapassar e é essencial, não adiantando referir que a selecção musical é o mais importante; cinquenta por cento para cada é justo, porque ninguém gosta de ouvir acidentes de comboio sonoros e um conjunto de músicas fantásticas ou uma técnica perfeita com um alinhamento dos infernos.

A escolha das ferramentas do ofício estão a cargo da vontade de cada um; os discos de vinil – especialmente o formato de 12” (doze polegadas) são utilizados desde finais da década de 70, contendo versões estendidas, remisturadas ou especiais para as pistas de dança; a sua qualidade de som, o número de cópias, o preço e o peso são e sempre foram factores que sempre fazem balançar o seu valor entre uma conotação positiva ou negativa. Exigem compromisso e simultaneamente são factor de exclusividade pela sua posse.

O CD e sua capacidade de duplicação que ameaçou a hegemonia do plástico negro no inícios dos anos 90 pela comodidade e democratização, parece nunca ter cumprido a missão que lhe estava destinada – muitos ainda devem chorar a venda de colecções de vinil em nome da substituição pelo prático formato digital e a edição de faixas em 12” nunca chegou a ser simultânea nos dois formatos.

O mp3 potenciou o uso do CD actuando numa realidade virtual mas utilizando-o como hospedeiro; os ficheiros digitais têm desenvolvido uma vida autónoma e devido à existência de leitores adaptados libertaram-se do elemento físico de uma vez por todas. Esta imaterialidade trouxe a conveniência da partilha gratuita que por sua vez abanou as fundações da indústria musical; um novo modelo de consumo/produção de música.

Numa perspectiva de lógica evolutiva, seria natural que os suportes se substituíssem progressivamente, mas será mesmo assim? Actualmente estamos numa fase intermédia e algo confusa, tendo em conta que devido à digitalização “passar música” se tornou uma actividade banalizada, acessível a qualquer um e não apenas restrita àqueles com posse física do disco de vinil original e limitado. Que lugar lhe está destinado?

Na Inglaterra do Séc. XIX, nos inícios da Revolução Industrial, Ned Ludd encabeçou um movimento social de artesãos que lutava agressivamente contra a mecanização; ser “luddita” hoje seria negar a revolução tecnológica que nos envolve, mas isso não significa menosprezar o passado. A posse e utilização de discos de vinil não deve ser encarado como factor de legitimação; a velocidade e abundância da internet trouxe muitos benefícios na capacidade de acesso a músicas que de outra maneira seria complicado de aceder e poder utilizá-las é uma benesse.

Com a ajuda de um computador, um DJ pode ver-se livre do peso dos discos e ter acesso a milhares de músicas à distância de alguns toques de rato, mas toda esta facilidade é algo necessariamente bom? Ao mesmo tempo retira um pouco do desafio: uma mala com 100 discos é uma aposta, são as armas escolhidas, as ferramentas – claro que chegar a um Club e ter as músicas erradas é um desastre, mas é algo que pode ser corrigido com planeamento e sensatez. Gerir 20.000 músicas pode ser ainda uma tarefa mais complicada – ao mesmo tempo que é uma rede segura é uma armadilha porque pode-se ir a todo o lado sem ir a lado nenhum.

Aderir ao digital faz bem ao físico e à carteira – comprar discos é mais caro que comprar .mp3 ou .wav, mas é realmente satisfatório a longo-prazo? Um CD escrito com um marcador ou uma pasta perdida nos confins de um disco rígido é ter realmente algo? As vendas de ficheiros online ainda não causaram um impacto desastroso no mercado do vinil – até porque este é baseado na Cultura e não Moda – mas é provável que mais tarde ou mais cedo aconteça um desequilíbrio flagrante. Resta esperar que alguns se mantenham fiéis à causa em número suficiente, cumprindo herança das edições em plástico negro.

Regularmente surgem vozes, notícias e reportagens contrastantes que tanto apregoam a decadência do formato como o seu revivalismo – para quem compra e vende discos, são ecos estranhos de viajantes do futuro “Mas ainda se fazem destas coisas?”, FAQ despropositadas “Onde posso comprar um leitor de vinil?”. Se amanhã acabassem as prensagens ainda existiriam discos para nos entreter por várias décadas –  e bem mais caros, como de artefactos se tratassem, no entanto não será o respeito que lhes devemos actualmente?



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