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Virtus

Há um novo astro no hip-hop português. Chama-se Virtus, é do Porto e tem um álbum monumental acabadinho de sair: “UniVersos”

Os fãs de Sam the Kid podem ficar descansados: o rapper e produtor de Chelas tem um legítimo sucessor a norte do país, mais precisamente na cidade do Porto. Dá pelo nome de Virtus (aka João Rodrigues), tem um dedo refinado na produção e compõe letras que, sem cair em exageros, não nos lembramos de ouvir há muito tempo (para não dizer nunca) no hip-hop português. É tudo conferível em “UniVersos”, álbum independente lançado no início deste ano com selo da Sexto Sentido.

Virtus é um caso sério na música portuguesa da actualidade e a falta de atenção mediática só se explica pelo desconhecimento e desinformação a que grande parte do hip-hop (alternativo e não só) continua votada (embora os últimos álbuns de Halloween e Kacetado tenham merecido algum destaque na imprensa). A devoção e mestria que Virtus põe em cada verso já vinham do seu EP anterior, “IntroVersos” (2008), mas a maturação na escrita e na produção atingem o ponto rebuçado em “UniVersos”, álbum onde inexiste uma faixa menos boa e em que tudo é pensado ao pormenor. Este cuidado e carinho, quase artesanais, na produção global do álbum (tal como Sam the Kid, Virtus canta e produz integralmente a sua música) – e que fazem transparecer uma verdadeira declaração de amor à música – é, aliás, um dos pontos em comum com Samuel Mira. Também em “UniVersos” se pressente esse perfeccionismo de filigrana, em que não há ponto sem nó e tudo é harmonia. Esse amor à arte, manifestado na preocupação do criador com a criação, presente, no músico de Chelas, em “À procura da perfeita repetição” (para não falar no álbum “Beats Vol. I”, composto exclusivamente por instrumentais), é notório, no disco do portuense, em faixas como «De que forma» (magnífica) ou nos interlúdios de «À sombra» e «Mais nada além de ser».

Mas se há aspecto onde a convergência entre o rapper do Porto e o de Lisboa é mais visível, ele prende-se com o pendor acentuadamente introspectivo e poético da escrita de Virtus, na qual sobressai uma atmosfera existencial profundamente marcada por interrogações sobre a presença do homem (ele mesmo, Virtus) no mundo, suas relações e afectos e as angústias da grande urbe moderna. É assim em «Excepções», «Perdidos & Achados» (um beat roubado aos melhores anos do hip-hop, os 90) e, acima de todas, «Caminho de volta» (com videoclip), faixa de uma profundidade inaudita onde avulta o desdobramento de personalidade pessoano, e espécie de night diary em que um jovem questiona os rumos tomados na vida, a relação amorosa com a mulher que ama e a quebra da tradição monogâmica (“Eu amo / mas a noite questiona a minha existência”). E por falar em crescimento, a nostalgia da infância e o medo de ser adulto – síndrome Peter Pan – são temas recorrentes em “UniVersos”, designadamente, em «Outros Modos» ou «Datas».

Também o discurso de intervenção está presente, mas com uma especificidade fundamental: é que, tal como no registo mais introspectivo, também aqui Virtus usa e abusa de um alto nível de abstração poética na narrativa. Ou seja: se quiserem coisas clarinhas e fáceis (“o sistema é uma cambada de ladrões”, etc.), não vão por aqui; se quiserem abanar a cabeça e pensar (sim, as duas coisas são possíveis, por mais que o hip-hop contemporâneo o negue!), então, ficarão certamente a reflectir depois de escutarem «Só mais um pouco» (beat a evocar as sonoridades mais austeras dos Dealema), «Às escuras» ou a monumental «História de todas as histórias», autêntico tratado de realismo social (com direito a uma citação implícita de Gabriel García Márquez), onde o olhar aguçado e pessimista de Virtus se foca sobre a condição social como factor determinante da existência humana, naquela que é uma leitura determinista por excelência, tributária, por exemplo, de um Sam the Kid («Realidade Urbana») ou de um Valete no seu registo mais engagé. Tal como Sam the Kid («Não percebes o hip-hop», «Poetas de Karaoke») ou Mundo Segundo, o rapper da Invicta não foge ao discurso pedagógico virado “para dentro”, isto é, de sensibilização, junto da comunidade hip-hop, dos verdadeiros valores que este deve preservar como cultura. Essa preocupação, tão comum neste meio – e que surge como reacção natural à degradação promovida pelo chamado gangster rap –, manifesta-se, por exemplo, em «Algo a dizer» ou «É só artistas» (“Não me falem de crise musical, vocês estão doidos / Vi que 50 cêntimos deu para dividir por todos”).

Depois, há momentos pontuais brilhantes, como o típico registo back in the days, em «Diferença» (que evoca, explicitamente, Alberto Caeiro e termina como Sam the Kid termina «Beleza Interior»), a misteriosa «Figuras Públicas», o prazer do rap pelo rap («O tema») ou a divagação reflexiva em «Até Sempre» (introdução de Sophia de Mello Breyner e citações explícitas de Herberto Hélder e Orfeu) e «Post Scriptum» (onde o registo abstracto atinge níveis superlativos).

A erudição, os jogos de palavras e a perícia no manusear de um vasto arsenal de recursos estilísticos (metáforas, imagens, hipálages, aliterações, diáforas) têm correspondência na composição musical, o que faz de “UniVersos” um dos mais requintados álbuns que o hip-hop português já conheceu. Não se limitando aos samples, ora mais vigorosos (numa sonoridade que nos habituamos associar ao hip-hop da velha escola portuense – Mind da Gap, Dealema, etc.), ora mais jazzísticos («Afinal», «Outros Modos»), Virtus reúne momentos ao piano, linhas de guitarra, baixos ou sopros (atmosfera orgânica que lhe advém, ao que sabemos, da sua formação musical).

A riqueza incalculável que este álbum encerra, e o contributo decisivo que ele dá para a maturação do hip-hop nacional, não vão, decididamente, ficar resolvidos com esta crítica. Se vivêssemos num país em condições, onde o hip-hop fizesse parte da actualidade cultural como qualquer outro género musical (E.U.A.), correriam rios de tinta na imprensa (especializada ou não) sobre “UniVersos”. Por isso, caro leitor, enquanto isso não acontece, faça como nós: oiça as faixas que estão disponíveis no youtube e, se gostar, adquira o produto. A música portuguesa agradece.



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