Viton Araújo conduz-nos ao Além | “100 Coisas Para se Fazer (Depois de Morrer)”

Viton Araújo conduz-nos ao Além

Há muita coisa para fazer depois de se bater a bota

Surgiu no mercado, há uns bons anos, um livro direccionado para cinéfilos profissionais e amadores que sugeria os filmes que deveriam ser vistos antes de cruzada a fronteira do Além. “1001 Filmes para ver antes de morrer” era o seu título e, desde então, outros apareceram, sugerindo viagens e excentricidades que “era bem” realizar antes do grande adeus.

Viton Araújo, redactor publicitário, poeta, escritor e humorista nascido em Porto Alegre (Brasil) no ano de 1982, pensou na coisa ao contrário. Tudo bem que há muita coisa interessante para se ver e fazer nesta vida, mas onde raio estava o guia com as melhores sugestões para quando nos juntarmos aos habitantes do Sétimo Céu ou do sempre aquecido Inferno?

O resultado foi “100 Coisas Para Fazer (Depois de Morrer)” onde, com a ajuda do ilustrador Gustavo Nardini, escreveu o que lhe foi ditado pela espírito de Mauro Camargo que, pelos vistos, estava imensamente insatisfeito com a monotonia da vida após a morte.

Encontramos sugestões para todos os gostos, tais como puxar o rabo do diabo, saltar de pára-quedas sem pára-quedas ou ver as top 10 top models a tomar banho. Mas atenção que não vai poder passar a eternidade – e ir riscando a lista – à sombra de uma bananeira, pois mais cedo ou mais tarde será tempo de rodar a roleta da reencarnação e partir para outra. A acompanhar o livro há ainda três vales de aulas grátis imperdíveis: piano grátis com Beethoven, filosofia com Sócrates e escrita criativa com Dostoievsky.

Aproveitámos a ocasião para colocar algumas perguntas a Viton Araújo, numa conversa que aconteceu na Terra mas esteve um pouco Além.

Viton Araújo conduz-nos ao Além | “100 Coisas Para se Fazer (Depois de Morrer)”

Qual a tua relação com Portugal? Já vives por cá ou andas muitas vezes a funcionar em modo de jet-lag? Já participaste em inúmeros eventos nacionais, do Poetry Slam LX ao Festival do Silêncio…

Eu vivo cá em Lisboa há dois anos, tempo suficiente para ter um bigode e falar “cá” ao invés de “aqui”. A minha relação com a cidade tem muito a ver com a língua, fui desde o ínicio bem recebido pela malta do poetry slam português. Fico feliz por haver espaço em bares, teatros e casas de shows para a minha poesia.

Deve levar-se uma mala com alguns pertences para o Além, um pouco à moda egípcia, ou a vida futura providencia todas as necessidades sem necessidade de logística?

Aí está uma boa pergunta. Costumo sugerir às almas recém-desencarnadas que façam um seguro de morte – cobre desde assaltos à sua nuvem ao caríssimo transporte dos principais bens terrenos.

Das 100 sugestões apresentadas diz-me três que estejas mortinho por experimentar

Logo após bater as botas pretendo aproveitar o cupão “Aula grátis de escrita criativa com Dostoievsky” oferecido no livro. Fora isso, sempre quis “Ter a bíblia autografada” e “Perguntar porquê o John e não e o Ringo?”.

Como está a correr a vida no Além a Mauro Camargo? Tens falado com ele via médium?

O Mauro apegou-se um bocado a mim e adquiriu o péssimo costume de aparecer no espelho da casa de banho enquanto faço a barba. Ele está bem mas, cá entre nós, depois do comentário de Shakespeare sobre o livro (“Se já não estivesse morto, morria de tanto rir”) ficou um bocado esnobe.

Viton Araújo conduz-nos ao Além | “100 Coisas Para se Fazer (Depois de Morrer)”

Diz-se no prefácio que este livro foi ditado, palavras e imagens, por ele. O que representou – ou representa – Mauro Camargo para ti enquanto autor e criador?

É sem dúvida um dos melhores escritores mortos ainda em actividade. Tanto eu como o Gustavo Nardini aprendemos muito com a sua forma bem-humorada de tratar qualquer assunto, por mais sombrio que seja.

Acreditas na vida no Além ou o livro não passa de gozo puro?

Nunca levei muita fé nessa história de vida após a morte. Entretanto, depois que se vê um fantasma e ele pede para psicografar o seu livro fica difícil não acreditar.

Por curiosidade, já estiveste nalguma daquelas sessões espíritas com velas e um copo vazio a viajar entre dedos e letras?

O jogo do copo não fiz, sempre morri de medo. Já estive em algumas sessões espíritas em terreiros de Umbanda – aliás, uma religião africana muito bonita cheia de simbolismos interessantes.

Há projectos para breve de que nos possas falar um pouco?

Estou a trabalhar num projecto de poesia falada que espero finalizar em 2013 para contar todos os detalhes à RDB. Se o mundo não acabar, é claro.



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