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Vodafone Mexefest 2016

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O Mexefest começou abençoado pelas tréguas da chuva que apenas seriam quebradas já perto do final da noite.  Até esse momento chegar muito se passou. Esta é uma dessas histórias.

Dia 1

Foi com a dita bênção que tudo começou, às 19h30, no magnífico salão da Sociedade de Geografia de Lisboa. Lula Pena entra em palco e senta-se. Consigo trás apenas a sua viola. É mais do que suficiente. Fita-nos (não mais o irá fazer durante quase todo o concerto) e diz “Bem-vindos, boa noite e boa viagem”. É a frase perfeita para dar o mote a mais um Mexefest. O reportório da lisboeta é vasto e dolorosamente belo. Há poucas vozes com a capacidade de personificar tão bem a nossa alma. E digo alma porque não consigo deixar de

pensar que a palavra fado neste sentido pode ser demasiado redutora. O silêncio é reverente enquanto Lula canta “O negro que sou, inclusive na alma”, do poema de Ronald Augusto. Não há pausas nem tempos mortos entre canções. As palavras que saem da boca de Lula Pena são apenas aquelas que se entrelaçam nos acordes que flutuam pelo salão. Não nos encara de frente; curva-se sobre a sua viola e quase que parece que é como se não estivesse mais ninguém na sala. A verdade é que nos alimentamos mutuamente, numa partilha de alma e de emoções. Quando saímos daquele espaço, fazemo-lo um pouco mais completos e com a alma mais cheia.

O espaço do antigo Cine-Teatro Capitólio foi remodelado. Ficou fantástico; combina simplicidade com funcionalidade. A parede lateral do lado esquerdo do palco abre para um terraço; o espaço interior e exterior ligam-se de uma forma convidativa. Nerve é o primeiro a subir ao palco. Mike El Nite terá a segunda parte do concerto a seu cargo. Nerve faz das palavras facas apontadas à jugular. «Monstro Social» surge logo no início e o texto fala por si “Lutar por uma causa? Eu cá, sou pelo prazer de juntar palavras e direccionar raiva injustificada. A maioria dos meus colegas na praça, burros que nem uma porta e, ainda assim, recebem notas. Parabéns. Este meio acolheu-me e ajudou-me a dar forma à minha personalidade e aprender a lidar com ignorância extrema.”. As palavras poeta urbano não são de todo desprovidas de sentido. Pelo meio há tempo para uma aparição da Capicua para “Juras & Dalilas”, canção da própria que conta com Nerve como convidado. Há também uma canção nova, «Música de Dança» com Nerve a pedir para não ligarmos para o que vai dizer “porque não interessa nada”. Aqui o presente é negro. O futuro é negro. Mas nada disto é sinónimo de conformidade. Antes pelo contrário. Depois há a passagem de testemunho para Mike El Nite e é também a altura de rumar à Estação do Rossio.

Baio foi uma surpresa. A matriz das canções  é pop e electrónica. Entranham-se facilmente mas para isso também ajuda e muito a postura que Baio adopta em palco; um sorriso desenhado no rosto, camisa, casaco, lacinho amarelo e canções com pés e cabeça. É palpável o aumento da adesão por parte do público. Antes de se atirar a «I Was Born in a Marathon» partilhou que era o final de digressão perfeito e para isso muito contribuiu a magnífica vista com o Castelo de São Jorge em pano de fundo. Depois ainda podemos escutar um cover de «Need You Tonight» dos INXS que é recebido de braços abertos.

A garagem da EPAL é mesmo uma garagem e os Ganso fizeram dela casa durante o concerto que aí deram. Os chapéus são logo a primeira coisa que salta à vista. Estão lá para isso mesmo mas rapidamente passam para segundo plano. Basta começar a escutar o rock com pinceladas de blues e que a espaços a faz lembrar os Capitão Fausto (elogio). Para os mais distraídos até pode parecer que a banda se está borrifar mas não estão. Estão é a divertir-se num local que se revelou perfeito para eles no que ao ambiente diz respeito mas que deixou a desejar pela acústica.

A passagem pelo Coliseu para ver NAO foi breve. Começou por surpreender a moldura humana presente e depois a própria NAO. O cabelo e a postura em palco seriam por si só suficientes para agarrar o nosso olhar mas a juntar a isso está a sua voz. Limpa, potente e segura. Com personalidade e desejo de altos voos.

A Casa do Alentejo é um local único mas tem um problema enorme com a acústica e Howe Gelb não foi de todo indiferente a isso. Gelb apresenta-se de fato escuro e chapéu branco de abas. Elegância e classe. É um exímio contador de histórias, muitas delas giram em torno de Tucson, Arizona como pano de fundo. É uma América profunda. A acompanhá-lo em palco estão dois dos suspeitos do costume dos Giant Sand, na bateria e no contra-baixo. “Future Standards” é o pretexto para este encontro. O álbum acabou de ser lançado e nas suas canções, sempre construídas em torno do piano, encontramos muitos elementos jazzísticos. São canções que exigem atenção e que o ruído que teima em se manter na sala teima em dificultar mas Gelb até a pedir silêncio tem classe; “We can hear your thoughts… For the next minutes just think for yourselves.”. Houve também tempo para homenagear Leonard Cohen com um cover para «A Thousand Kisses Deep». A parte final do concerto leva-nos para mais perto do universo dos Giant Sand e damos por nós a pensar que estamos na Casa do Alentejo a escutar a grande canção americana pela guitarra de Gelb e, por isso, obrigado Mexefest!

Os Jagwar Ma tinham um objectivo: colocar o pessoal a dançar porque a tradição no Mexefest assim o dita. Foi isso que os australianos fizeram num Coliseu com uma óptima acústica e moldura humana. Isso levou a que a setlist se focasse mais em canções com forte matriz electrónica e menos naquelas em que o rock e o psicadelismo coexistem de uma forma bastante saudável e destinguem os Jagwar Ma de outras bandas. O momento alto foi, sem grande espanto a «Come and Save Me» e a missão foi cumprida com muita competência.

E por esta altura já chovia.

Dia 2

Desta vez a chuva não deu tréguas, foi uma constante e a adaptação às condições foi inevitável; passo acelerado, alguns guarda-chuvas e muitas capas que foram distribuídas junto às entradas das várias salas.

Meg Baird estava enfeitiçada pela beleza da sala da Sociedade de Geografia de Lisboa. Isso era por demais evidente. Bastava olhar a forma como fitava o espaço, o sorriso que tinha e no final acabou mesmo por confirmar isso mesmo; “This room is a dream. Thank you for listening.”. As canções de Baird também são de um folk sonhador e etéreo, muito por culpa da voz da norte americana que em muitas canções acaba por lhes conferir um tom quase edílico.

A segunda paragem da noite é, literalmente, na porta ao lado. Gallant vai actuar no Coliseu. É daqueles casos em que se toma uma decisão e decidimos arriscar. Ouvir algo que não conhecemos. Algumas vezes corre melhor do que outras. Desta vez correu bem, extremamente bem. Christopher Gallant é merecedor de tudo aquilo que de bom tem sido escrito sobre ele. Com uma voz soberba e acompanhado com uma banda de três elementos que tem perfeita noção do seu lugar e quando deve intevir. Gallant faz o resto. A forma como se movimenta em palco, faz com que pareça que quer estar com todos os presentes para partilhar as suas canções. O R&B é um género visto como estando sempre em constante reinvenção; Gallant mostra-nos o porquê desta afirmação. Em «Talking to Myself», Gallant canta “I’ve been talking to myself lately / I’m asking for advice, oh / I’ve been slowly loosening my grip on this reality / Tongue-tied, the dominoes break / So won’t you lend me your faith?” e a nossa resposta é um sim, sem hesitar.

Antes de Elza Soares dá-se um pulo à Garagem EPAL onde se estava a mostrar um pouco daquilo que se está a fazer no domínio do hip hop em Portugal. A curadoria ficou a cargo de Rui Miguel Abreu e se o nível apresentado não foi o mesmo do que se viu no Capitólio no dia anterior, pelas palavras de Nerve de Mike El Nite, é importante ter em conta que aqui estamos a olhar para o futuro.

No Brasil diz-se, em jeito de brincadeira, que Elza Soares está morta só que ainda não o sabe. Dona de uma história de vida que impressiona, lançou o primeiro álbum de originais com 79 anos de idade. Agora estava ali, sentada no seu trono, com o seu cabelo roxo, olhando para nós, como uma rainha olha para os seus súbditos e nós só nos podemos sentir gratos por poder partilhar estes momentos com ela. O concerto arranca com «Coração do Mar» e a «A Mulher do Fim do Mundo». É a forma de Dona Elza se apresentar: “Eu quero cantar até o fim / Me deixem cantar até o fim / Até o fim eu vou cantar / Eu vou cantar até o fim / Eu sou mulher do fim do mundo / Eu vou, eu vou cantar, me deixem cantar até o fim”. Arrepia. É imensa. O bom humor é uma constante e nós somos “altamente fixes”. As canções abordam sempre uma questão social e fracturante. Em «Maria da Vila Matilde» aborda a violência de que muitas mulheres são vítimas: “Cê vai se arrepender de levantar a mão pra mim”. Em «A Carne» é a cor de pele o centro das atenções. E Dona Elza não tem papas da língua. Tudo é dito. Não fica uma pedra por virar: “A carne mais barata do mercado é a carne negra”. Rubi junta-se a Elza Soares em «Benedita», conferindo uma soberba componente de performance a uma canção já por si só com uma vincada aura teatral. Duas palavras: concerto memorável!

Os TaxiWars são o mais recente projecto de Tom “dEUS” Barman. Como estão a tocar ali memso ao lado, na Casa do Alentejo passamos por lá. A força motriz destas canções é o Jazz e, em especial o saxofone de Robin Verheyen, e algum improviso. Barman ocupa-se das vozes e de algumas programações. É frenético mas tem algo que nos mantém agarrados, canção, atrás de canção. Mas é tempo de ir até à sala Manoel de Oliveira, no São Jorge.

Os Digable Planets nasceram em Brooklyn em 1992. Na altura, tiveram uma existência curta mas intensa, até 1995. 2016 ficará para sempre marcado por uma nova reunião e algumas centenas pessoas que escolheram ir até ao São Jorge numa noite chuvosa de Novembro, foram recompensadas com um concerto fabuloso. Um trio de MC’s (membros fundadores), Ishmael Butler, Craig Irving e Mary-Ann Viera, rodeado de um conjunto de músicos de eleição a desenrolarem uma sonoridade que combina elementos jazzísticos com o hip hop. O resultado foi simplesmente soberbo. Ninguém diria que já não se reuniam há alguns anos. A aura dos 90 é evidente. E nem a banda pretende o que seja diferente mas não é menos verdade que a sonoridade consegue, ao mesmo tempo, soar moderna. Neste ponto a banda em palco é essencial; todos desempenham o seu papel na perfeição. Cada elemento percebe qual o seu espaço e quando tem a sua oportunidade para brilhar (aquele baixo, aquele baixo!!!). Há pessoas na sala que são mais novas que a banda que ali está à sua frente mas todos celebram numa demonstração inequívoca de intemporalidade.

Branko Live fez o Coliseu parecer o Lux. Mais uma vez o Mexefest ia terminar a dançar, desta vez com João Barbosa e o seu Atlas a conduzir. House, Baile Funk e toda uma panóplia de sonoridades urbanas são-nos servidas entre imagens recolhidas em várias cidades do mundo, e que rodeiam a plataforma em que Branko de encontra. Já perto do final surge o momento porque muitos esperavam e que já se sabia que ia acontecer. «Reserva Pra Dois» com Mayra Andrade. “Quem me vai dizer no amor o que é bom ou ruim?”. Ninguém, digo eu. Temos de descobrir por nós próprios. E o Mexefest é assim também, com muito para descobrir.

Até para o ano!

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Texto por Miguel Barba
Fotografia por José Eduardo Real



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