Vodafone Mexefest | Dia 1 (29.­11.­2013)

Vodafone Mexefest | Dia 1 (29.­11.­2013)

Mobilidade e escolha

O início deste Vodafone Mexefest foi feito com atraso da parte do escriba, que acabou por custar os concertos que tiveram lugar entre as 20h e as 22h. Assim, após uma entrada algo ofegante no Coliseu fruto de descer a Avenida da Liberdade quase em passo de corrida, sinto um enorme alívio quando vejo que as Savages começaram a tocar há pouco tempo. A sala está muito bem composta. O movimento é constante ou não seja exactamente essa a premissa que está na base do Mexefest. Mobilidade e escolha (por muito que possa doer) são por isso as palavras de ordem mas neste momento a ideia é mesmo ficar por ali e ver (finalmente!) as Savages.

A guitarra salta logo à vista (ou ao ouvido). Crua. Quase visceral. A iluminação reforça essa ideia. Depois há a voz de Jehnny Beth. Ora num registo quase de spoken word, ora a cantar. É uma presença imponente, quase intimidante. A forma como nos fita directamente nos olhos enquanto passa a sua mensagem. No centro de tudo está “Silence Yourself”, um dos álbuns incontornáveis de 2013. Há «Hit Me», «No Face» ou «Husband» e o Coliseu treme perante a violência dos acordes e das palavras. É possível sentir uma reverência para com as quatro mulheres que em cima do palco conseguem espalhar por toda a sala uma aura de post ­punk e por momentos parece que estamos numa garagem.

Nova corrida desta vez em direcção à Sala Manuel de Oliveira, no Cinema São Jorge, desta feita para ver John Grant que esgota a lotação em dois tempos. O norte-­americano tem uma história de vida bem complicada mas a sua forma de estar e a maneira como actualmente encara a vida permitiu­-lhe criar álbuns tão distintos e belos como “Queen of Denmark” e “Pale Green Ghosts”. O primeiro parece saído da década de 70, enquanto que o segundo podia ter surgido na década seguinte. No entanto, ao vivo, até parece que algumas canções do álbum mais recente se aproximam mais da sonoridade do primeiro álbum, o que de um ponto de vista meramente pessoal sabe bastante bem! A sala fica de imediato rendida ao ex-­Czars e para isso também muito contribui a simpatia e sorrisos cúmplices que Grant vai semeando entre o público, já que a nossa língua “is very dificult”, segundo o próprio. O alinhamento centra-­se no último álbum mas há também para escutar a bela «Marz», do primeiro registo. Já «Pale Green Ghosts» e «Black Belt» puxam a um pézinho de dança. «GMF» (que caso não saibam quer dizer Greatest Motherfucker) e «Glacier», ­ canção mais política de Grant, porque hoje em dia é quase uma obrigação, mesmo que a sua veia política não seja muito vincada, ­ surgiram já no final para fechar com chave de ouro um grande, um enorme, um excelente concerto. Sim, foi mesmo bom!

Logo de seguida Yoann Lemoine, ou Woodkid, está prestes a entrar em palco quando entro na sala mais nobre de concertos da Rua das Portas de Santo Antão. Podia ser facilmente confundido com um rapper, muito por culpa das roupas largas que enverga e do boné, mas a sonoridade é outra. A noite de concertos irá ser encerrada ao som de pop. É sem sombra de dúvidas a maior enchente (se bem que por esta altura já não há muito mais coisas a acontecer, apenas RAC no Ateneu e Mr. Bird no Florida). Sejamos honestos. Ele sabe­-la toda. A produção é perfeita. As luzes, o posicionamento em palco. Para os fotógrafos é mel. É o background como designer gráfico e realizador de vídeos a falar mais alto. A tendência para arranjos grandiosos é recorrente. As canções evoluem sempre num crescendo mas as entradas esticam demasiado e acabam por quebrar o ritmo entre canções. “The Golden Age” está quase sempre presente, excepção quando se escuta «Brooklyn», do EP de estreia. Cada canção parece querer desenhar uma paisagem sonora, reforçado pelas imagens de paisagens aéreas que são projectadas. Um concerto mais do que competente mas, que face à fasquia estabelecida pelos concertos anteriores (em especial pelo John Grant), nunca conseguiu superar.

Fotografia por José Eduardo Real.



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