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Vodafone Mexefest | Dia 2 (25.11.2017)

De um leque de novas vitórias se pode gabar novamente o Vodafone Mexefest

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Apesar de ter chovido timidamente durante todo o dia, o clima ficou novamente seco à hora de reabrir as portas do segundo dia de Vodafone Mexefest. Ainda assim, não surpreendeu a opção de transferir para a sala do Cine-Teatro os concertos agendados para o Terraço e Bastidores do Capitólio, dado que não valia a pena desafiar a meteorologia. Foi este o nosso primeiro destino, à imagem do dia anterior, numa jornada inteiramente dedicada ao hip hop na sala do Parque Mayer.

As primeiras rimas e batidas foram providenciadas pelos decks de Nasty Niles, donde eclodiram essencialmente as mais recentes tendências deste género musical. O membro do colectivo de Brooklyn Pro Era (tal como CJ Fly, que actuaria mais tarde) acabou por dar um mote certeiro para os espectáculos que se seguiriam neste espaço.

O ritmo abrandou ligeiramente com estilo relaxado do Conjunto Corona, que estimulou os ânimos com o seu hip hop bem sui generis. Tendo o último disco “Cimo de Vila Velvet Cantina” cumprido recentemente um ano, pode considerar-se que foi uma festa de aniversário animada e merecida.

Virando completamente a agulha, a paragem seguinte foi a Casa do Alentejo onde as Sopa da Pedra encantaram o público presente com os seus jogos de vozes, aos quais acrescentam cada vez mais percussões e outros instrumentos bem tradicionais. As dez raparigas portuenses surpreenderam tudo e todos ao surgirem no palco central da Sala de Espelhos, tendo percorrido o trajecto até ao palco ad-hoc do Mexefest após um canto introdutório. O cariz tradicional das suas canções rimou sobremaneira com o local.

O horário mostrava que estávamos próximo de um dos momentos mais aguardados do Mexefest, muito provavelmente a banda mais badalada do cartaz desta edição. Apesar de recente, podemos afirmar que o disco debutante dos Cigarettes After Sex goza já de bastante culto por entre os melómanos nacionais. Tal como o ritmo das suas composições, a banda de El Paso foi-se dando a conhecer de forma vagarosa, lançando singles ao ritmo de um por ano desde 2015, o que apenas terá alimentado o culto. Previsivelmente, em concerto a sonoridade não varia muito da gravação de estúdio, acrescendo somente a emoção da experiência colectiva em concerto e das projecções bastante acertadas para com a sonoridade. A fórmula dos Cigarettes After Sex foi reduzir as rotações aos discos de rock alternativo dos anos 80 e adicionar-lhes languidez e sensualidade. São recorrentes os ecos de uns Jesus and Mary Chain ou de uns Echo & the Bunnymen nas melodias que o quarteto vai tecendo para bel-prazer da atenta multidão. Para além dos temas pertencentes ao álbum homónimo, houve ainda tempo para uma pertinente versão dos REO Speedwagon.

Ao sair do Coliseu dos Recreios, decidimos atalhar caminho para o Teatro Tivoli BBVA, para a única visita que lhe fizemos neste Mexefest, temendo que mais uma fila interminável nos impedisse de ver Julia Holter. A edição do álbum “In the Same Room” este ano, contendo maioritariamente versões captadas ao vivo de temas dos seus registos de estúdio, poderia ter dado alguma indicação da direcção para a qual se dirige a compositora de Los Angeles. Julia Holter entrou no palco do Tivoli com uma pilha de pautas na mão e foi tocando as teclas do piano num tom que apontava ao improviso. Sendo neste caso um improviso que terá sido registado e estava agora a ser apresentado ao público. E assim continuou ao longo das três composições a que experienciámos. Julia confidenciou que ultimamente se tem sentado ao piano e tocando de forma improvisada, limando essas rascunhos a posteriori. Pareceu-nos um exercício demasiado abstracto para o ambiente de um festival.

Colocámos novamente o Capitólio no GPS para assistir ao concerto de Allen Halloween. A “Bruxa”, em conjunto com a sua crew Youth Kriminals, ofereceu uma actuação bem emotiva para gáudio de um público que, em grande parte, conhecia de trás para a frente as narrativas que o rapper ia disparando. Não deixou de ser curioso ver pessoas de diversos estilos colados ao palco do Cine-Teatro, por entre os quais se encontrava Valete, que foi desfrutando tranquilamente ao fundo da sala. Allen Halloween aproveitou a ocasião para apresentar algumas versões acústicas dos seus próprios temas, que irão ser compilados no próximo trabalho, sob o nome “Unplugueto”. Menção especial para «Bandido Velho» que proporcionou um momento arrepiante nesta fase do concerto, sendo igualmente digno de destaque o excelente trabalho de Cyrillo Gonçalves na guitarra. Dada a forte prestação, não espantou que a “Bruxa” tivesse inclusivamente direito a encore.

O facto de Allen Halloween nos ter prendido a atenção até ao derradeiro segundo, acabámos por ter que abdicar do ansiado concerto de Sevdaliza, visto que a fila saía do hall do São Jorge e estendia-se por mais de 100 metros.

Moullinex era o senhor que se seguiria e a quem cabia encerrar a edição deste ano do Mexefest. Sabíamos que o espectáculo estava garantido, restava apenas saber que surpresas o projecto encabeçado por Luís Clara Gomes tinha reservado para a assistência do Coliseu. A festa é sempre uma constante nas suas actuações e um dos desafios é conseguir dançar mais que os músicos em palco, o que não é tarefa fácil no caso de Moullinex. Desde cedo nos interrogámos sobre um pano verde colocado nas escadas da plateia, juntamente com uma câmara a apontar para o mesmo. As dúvidas foram desfeitas logo nos primeiros instantes quando Ghetthoven (o primeiro convidado a entrar em acção) se colocou na área desse pano para dar voz a «Like A Man», fazendo as vezes (ou vozes) de Marta Ren. As imagens captadas pela referida câmara eram projectadas em directo no fundo do palco, onde eram alvo de uma série de constantes efeitos especiais, num exercício sem dúvida original. Tal como Orelha Negra, Moullinex apostou forte na componente visual e em dar um concerto único no Vodafone Mexefest. O rol de convidados foi-se estendendo pelo concerto fora, com aparições da inevitável Da Chick, dos sempre sensuais Best Youth em «Hidden Affection» e de Xinobi para a interpretação de «Family Affair» (original da Discotexas Band). No final, e apesar da forte cãibra que molestava o baterista Diogo Sousa (que acabou por recuperar minimamente enquanto Moullinex foi mantendo o público entretido com «Flora»), ainda tivemos direito a um explosivo encore. Mais uma retumbante vitória para este projecto.

De um leque de novas vitórias se pode gabar novamente o Vodafone Mexefest, que espalhou pela Avenida da Liberdade mais uma série impressionante de concertos, incluindo sempre novos espaços, reinventando-se aos poucos, apesar de já ter descoberto a fórmula certeira, de forma a evitar simultaneamente eventuais descaracterizações.

Recordem o primeiro dia do Vodafone Mexefest 2017 aqui.

Fotografia por Raquel França



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