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Vodafone Paredes de Coura 2023 | Dia 1 (16.08.2023)

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Texto por Álvaro Graça e fotografia por Rui de Freitas.

Trinta anos. Todas as vezes são marcantes por terras courenses, mas estes números redondos conferem automaticamente uma cor especial.

Aos Evols foi concedida a honra de abertura desta edição do festival minhoto, em pleno Palco Yorn, a qual foi assinada com a toada sóbria, mas interessante que a banda de Vila do Conde fornece habitualmente. Demos as mãos às suas guitarras, que nos conduziram por ruas obscuras, iluminadas pelas melodias das suas composições.

O palco primário foi estreado pelos Dry Cleaning, cujo motor foi embalando as palavras da carismática Florence Shaw, numa sonoridade que ao vivo reforça a pujança da guitarra de Tom Dowse. As linhas fortes providenciadas pelo baixo tornam tudo ainda mais denso, formando uma neblina por entre a qual o spoken word quase parece dissonante, mas acaba por ser o que torna a banda inglesa única.

Os Calibro 35 foram uma lufada de ar fresco, dado que se dedicam a uma sonoridade que nem sempre é encaixada nestes eventos. Os italianos assinam autênticas bandas-sonoras para filmes que vamos gizando na nossa mente ao sabor da inspiração deles, que nos contagia naturalmente. Sempre com um travo a cinema antigo, a banda parte sempre do impulso fornecido pelos teclados e sopros tocados por Enrico Gabrielli (por vezes simultaneamente).

Ainda sob a luz do dia chegou ao Palco Yorn o rock alternativo protagonizado por Snail Mail, que preencheu por todos os recantos esta área. Provavelmente a primeira grande enchente deste ano para sentir uma das importantes vozes desta vaga de rockers femininas norte-americanas. Lindsey Jordan é obviamente a alma e o coração do projecto, onde despeja inspiradamente as suas vivências de juventude, sempre com melodias rasgadinhas às quais pareceu faltar uma espécie de fagulha para tornar a performance inesquecível. Porém havia muitas razões para que o dedicado público de Paredes de Coura apreciasse sobremaneira.

O primeiro grande concerto do trigésimo Vodafone Paredes de Coura decorreu, logo a seguir, no palco principal. Os Yo La Tengo fabricaram uma exibição super personalizada, com um equilíbrio notável entre as várias vertentes do seu estilo. Desde as guitarras desgarradas quase a perder o controlo nas sábias mãos de Ira Kaplan, até às melodias agridoces embrulhadas em camadas mais melosas entoadas por James McNew. Ainda que maioritariamente baseado no álbum lançado em Fevereiro, o concerto do grupo de Nova Jérsia foi uma excelente introdução da banda a quem eventualmente ainda não conhecia. E todos quantos assistiram tornaram pessoas ainda mais cool por terem bebido desta fonte.

Depois duma aparição muito bem conseguida do trio Julie, que debitou o seu indie rock musculado e inspirado, seguiram-se no Palco Yorn os mui aguardados Squid. E fazerem jus a toda a curiosidade que registávamos para os ver. Saídos da fornada do novo post-punk britânico, que tanta coisa boa nos tem ofertado nos anos mais recentes, os jovens oriundos de Brighton encantaram a plateia com o seu jeito obtuso e irrequieto, que ajuda a manter a frescura ao longo de toda a actuação. Saíram genuinamente boquiabertos com a efusiva demonstração de toda a gente que acorreu ao palco secundário. Uma das melhores actuações da jornada inaugural do Vodafone Paredes de Coura.

Na quarta-feira os principais holofotes do Palco Vodafone apontavam para Jessie Ware, velha conhecida dos festivaleiros portugueses. Com um som altamente produzido, que ainda não é totalmente costumeiro por estas paragens, a artista britânica custou a arrancar, fazendo com que o concerto parecesse deslocado no contexto de Paredes de Coura. Todavia teve a mestria, dedicação e conhecimento para lograr agarrar progressivamente o público, tendo para tal contado com uma valorosa ajuda dos dançarinos que foram quase roubando o espectáculo. As coreografias foram injectando um novo elã, com o bónus de entusiasmarem invariavelmente a multidão sempre que assinavam manobras mais espectaculares. Reconheça-se que a versão de Cher também catapultou a prestação de Jessie Ware, que soube usar os trunfos que tinha à mão.

Para culminar a noite no palco maior do Vodafone Paredes de Coura chegaram os Bicep, que nos recordaram inevitavelmente dos The Blaze, que pisaram este mesmo solo na edição prévia. Não só pela disposição da dupla norte-irlandesa em palco, como também a aposta forte nos jogos de luz e inclusivamente toada electrónica que os caracteriza. Um fecho de noite interessante e dançável.

Leiam aqui a reportagem do segundo, terceiro e quarto dia de festival.



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