Vodafone Paredes de Coura 2015 | Dia #1 (19-08-2015)

Vodafone Paredes de Coura 2015 | Dia #4 (22-08-2015)

O festival que explode corações

O céu acordou tristonho no último dia do Vodafone Paredes de Coura. Demasiado cinzento e a derramar lágrimas. Acreditamos que os deuses também estavam tristes por estarmos no último de festival. Aliás, a chuva faz parte do festival desde sempre. Em modo de brincadeira até dizemos que o festival Paredes de Coura não é o mesmo sem chuva. Alguns estavam preparados – galochas e impermeáveis que saíram do baú e voltaram a apanhar ar. Outros aproveitaram a boleia para abandonarem o festival e outros ainda aproveitavam para improvisar o guarda-roupa do dia com sacos plásticos a cobrir o corpo.

No dia anterior, encontrámos o Samuel Gonçalves e o Pedro Rodrigues – parte integrante dos Holy Nothing. Partilharam o entusiasmo de poder pisar o palco Vodafone FM e de estar naquele local idílico. Fomos confirmar todo esse entusiasmo e vontade de criar música ao vivo pelas 18 horas, momento em que subiram ao palco e ainda escutámos «Cumbia». Este trio acaba por transpirar musicalidade e denota-se o à vontade perante o público que aplaudia e dançava euforicamente.

Durante a tarde tivemos o privilégio de escutar e assistir ao ensaio de som da Banda do Mar e antevimos, mentalmente, que aquele concerto podia meter água – apenas por causa do dilúvio que se fazia prever. Contudo, a banda de Mallu Magalhães, Marcelo Camelo e Fred Ferreira, trouxe o sol com eles e iluminaram, literalmente, todo o anfiteatro natural. O público, esse, estava em êxtase. Durante o tempo em que estávamos  feitos “mongos das grades”, deu para sentir a troca recíproca de amizade e amor ente a banda e o público. Houve abraços fraternos, houve momento mágico durante «Dia Clarear» pois as nuvens abriram-se e o dia clareou, houve «Muitos Chocolates» e, claro, «Mais Ninguém». Este foi o penúltimo concerto da banda que dificilmente esqueceremos.

Depressa caminhamos para o palco Vodafone FM onde a voz melodiosa de Natalie Prass fazia as delícias do público, sobretudo masculino – uma espécie de Father John Misty no que diz respeito ao fetiche de atracção. Este era também um dos concertos mais aguardados e que merecia maior destaque… Talvez numa próxima possa fazer parte do palco principal tendo em conta a sua notoriedade e crescimento a nível de composição musical e melodias. Com um semblante fofo e querido, Natalie encantou com o seu sorriso e, em especial, com «Bird of Prey». Se durante o caminho ainda ouvíamos comentários sobre o concerto de Charles Bradley e Tame Impala, já no final da noite o concerto de Natalie foi igualmente comentado. Bom sinal – ficou mesmo gravado para mais tarde recordar com nostalgia da boa.

Foi também com muita pena que não assistimos ao concerto dos Woods. A garganta estava a ficar afónica e para conseguirmos assistir aos restantes concertos sem quebras nem mais doenças, preferimos abrigar-nos do frio na zona de imprensa. Foi de lá que ouvimos os Temples. Na sua sonoridade apresentam algum psicadelismo, alguma colagem aos The Doors, seja nas melodias, seja na própria voz do vocalista – valeu-lhe o casaco de lantejoulas que nos causou alguma inveja. Todavia, «Shelter Song», «Keep In The Dark» e «Mesmerize» fizeram-nos bater o pé e com pena de não estar a pular no meio da multidão.

“Quem é a Lykke Li?” – sim, ouvimos essa pergunta várias vezes e como resposta ouvimos “é aquela que canta a «I Follow Rivers»”. Quase gritámos de dor. É certo que «I Follow Rivers» é uma boa canção e que até passa em rádios como a Comercial e RFM em versão remix (espanta-te!), mas Lykke Li tem outras grandes canções. Contudo a sua presença é meio apagada. O seu universo soturno transfigura-se num negro conto de fadas – a sua entrada em palco com fumo branco e o seu guarda roupa em tecido acetinado, mangas e calças compridas à boca de sino e o seu cabelo escorrido cheio de gel não são propriamente os elementos de beleza e nem a favorecem. Mas aspectos físicos à parte, a presença da artista com o público também não foi a melhor no que diz respeito a empatia. Por mais que esta se esforçasse, mesmo expressando algumas palavras em Português, não pareceu ser o suficiente para arrancar aplausos fortes da plateia excepto em «I Follow Rivers», claro está. «I Never Learn», «No Rest For The Wicked», «Gun shot» e «Never Gonna Love Again» fizeram parte do desfile de canções encantadoras que soaram a belo e que nos aquietaram o coração quando julgámos a actuação como perdida. Lykke Li ainda nos brindou com duas versões: «Hold On We’re Going Home» de Drake e «Don’t Let Me Down» dos Beatles com que se despediu no meio de nuvens de fumo, fazendo prometer um encore que nunca existiu.

Para fechar o cartaz e de forma dançável estiveram RATATAT a dar tudo nos sintetizadores e guitarras ruidosas que faziam interferência nos nossos ouvidos.

Na edição em que o festival festejou o seu 22º aniversário, este continuou como novo, como um menino a crescer forte e saudável que vive de todo o amor que existe no universo. Paredes de Coura continua a ser mítico e o que mais desejamos é que nada disso mude. Para o ano prometemos mais e melhor. Repetimos mais uma vez: este é um festival de afectos e emoções. Vivas à organização!



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