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Voltei, Voltei…

Portugal em Agosto é um oceano de romarias, bailaricos saloios, meninas faceiras, merendas serranas, folia colectiva e um enxame de matrículas amarelas. O calor aperta e sobe também a portugalidade com o regresso dos emigrantes.

Não há mês como Agosto. Todos os anos, a generalidade dos portugueses desce ao Algarve para ir a banhos, enquanto os jovens se dispersam pela variedade de festivais de música que celebram o ser jovem enquanto objecto de marketing. Muitos outros, que vivem longe da terra que os viu nascer, aproveitam o mês estival para verem familiares e amigos, numa espécie de Natal fora de época.

Portugal, de resto, sempre foi país de viajantes, categoria em que os emigrantes facilmente se inserem. Fizemos uma primeira vaga de emigração contemporânea entre os anos 50 e 70 do século passado: muitos foram aqueles que partiram à procura de melhores condições de vida e uma sociedade mais justa. Linda de Suza é o exemplo acabado do emigrante-tipo que acabámos de descrever. A alentejana nascida em 1948 partiu para França “a salto” com uma famosa mala de cartão num braço e uma criança de colo no outro, mas fez carreira no mundo da música.

Nos países de destino destes emigrantes de meados do século XX, geralmente França ou Alemanha, as condições de vida não eram muito edificantes e os trabalhos reservados aos portugueses eram servis, na fábrica ou na construção civil. O português, iliterado e marginalizado, arregaçou as mangas e construiu um futuro melhor para os seus filhos. Apesar da precariedade, o salário de país desenvolvido permitia o envio de remessas de dinheiro para Portugal e assim o emigrante ajudava em duas frentes: cá e lá. E, enquanto as aldeias iam perdendo habitantes, viam a sua fisionomia alterada com a construção de novas e opulentas habitações dos emigrantes que assim acautelavam o próximo mês de descanso na terra-natal.

Depois do 25 de Abril, o regresso é facilitado e o emigrante faz-se agora acompanhar pelos filhos que já nasceram e cresceram lá fora, falantes caricatos do português adulterado com o sotaque de origem. Como esponja cultural que é, o emigrante português é moldado pela cultura do país dos seus filhos e quando regressa a Portugal traz consigo um avanço cultural que por vezes cai mal – do pronto-a-vestir ao novo modelo da BMW. Os bens materiais são mais que vaidade, são o símbolo da vitória em terras estrangeiras.

O emigrante típico português é constantemente retratado como uma personagem de anedotas. O bigode, a mullet, a camisa com padrão, o ouro ao pescoço e pulsos – todos elementos popularizados por diversos artistas populares, muitos deles emigrantes. É preciso olhar para lá do cliché; os tempos mudam e com eles a caracterização do emigrante. Até porque, anos depois, os filhos da primeira vaga já cresceram e acarinham as recordações dos muitos dias de Agosto passados em alegre bucolismo regado a pão e vinho. A felicidade dessas lembranças é o suficiente para despertar talentos como rappers de dupla nacionalidade como Lucenzo ou Mic-L&Sotrop que ganham a vida a gritar “Portugal, tu me manque!”.

Claro que é impossível falar do emigrante na cultura popular sem observar o fenómeno da música ligeira. Mas há exemplos recentes que aumentam a variedade de homenagens em outras artes, oferecendo até um interessante conflito “hi-culture” VS ”low-culture”. A cultura popular tanto representa a epopeia do emigrante com artistas como Dino Meira, como a eleva a bonitos exercícios fílmicos dos quais será exemplo “Aquele Querido Mês de Agosto”, filme de Miguel Gomes em que a ficção se mistura com o documentário para inaugurar, se não um novo género, pelo menos um novo olhar sobre a emigração e sua mitologia.

E como falar do português emigrante sem falar em Roberto Leal? Até porque, é bom lembrar, os destinos de emigração não se esgotam na Europa e estendem-se a todo o mundo. Roberto Leal não exporta só boa disposição e o seu país de origem, exporta também produtos típicos como pão, vinho e azeite portugueses para dar uma imagem abrangente das maravilhas mil da ocidental praia lusitana. No Brasil é português, em Portugal é brasileiro, lá toca guitarra e aqui pandeiro. E não é este limbo de identidade nacional (“criado nessa jinga de fado e carnaval”) que constrói a magia do que é ser emigrante? Poucos sintetizaram tão bem como Roberto Leal, um “brasuca lusitano, portuga tropical, alfacinha baiano”, o sentimento de ser português. Atente-se em algumas citações de músicas do cantor: “vou visitar a nossa terra que há tempos que eu lá não vou”; “ó minha gente, estou chegando, minha saudade por sorrisos vou trocar”; “é tão linda a minha aldeia, o lugar onde eu nasci, sob a luz de uma candeia lembro a terra onde vivi”; “hoje distante junto a outros do seu povo canta canções para a terra recordar”; e claro “não precisa passaporte para dizer que és português” (sic). No lugar do documento temos o “sorriso triste”, o olhar irresistível, a “saudade de outro tempo ou de algum lugar”, o “falar brejeiro” que nos denuncia – enfim, mesmo calado “está na cara que és português”. Somos todos, Roberto.

O que parece não mudar é o sentimento dos que ficam, que teimam em acusar os emigrantes de trocar a pátria por melhores condições de vida. Esquecem-se, os infames acusadores, que muitas vezes é o ditoso berço amado que empurra os seus filhos para o abismo da emigração. Esquecem-se também que os portugueses de sucesso são sempre emigrantes: de Afonso de Albuquerque a Cristiano Ronaldo, passando por aquele nosso familiar que estuda nos E.U.A. (ou pelo anónimo que aparece nos “Perfis de Futuro” da revista Pública).

O que também não muda, mas ainda bem, é a civilidade do emigrante português. O emigrado não cria distúrbios, não incendeia carros, não cria conflitos civilizacionais com os hábitos que insiste em praticar. O português emigrante trabalha e educa os seus. Depois, chegado o mês de Agosto, viajam até cá para viver mais Portugal num mês do que a maioria de nós durante um ano. É um enlevo sentimental o regresso, uma espécie de vir à tona respirar, tomar um fôlego de Portugal e regressar, enfim, ao país do quotidiano.

Portugal é mais nosso em Agosto.



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