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Wagner Pinto

O Xirú*

Deparei com este artista por sugestão de um amigo meu… não conhecia… e deparei também com o facto de os artistas brasileiros não terem muita divulgação no nosso país. O Brasil tem muito para dizer no campo das artes, assim como os outros países da América Latina. Encontramos lá um universo gráfico refrescante que deveria ser mais divulgado por nossas terras.

O artista que nos interessa aqui, é originário de Porto Alegre e vive em São Paulo. Poderia ser adjectivado de artista “street art” mas seria reduzi-lo demais a uma certa tendência. É interessante ver como, em certas exposições, ele faz entrar os murais dentro das galerias e como depois eles próprios jogam com os trabalhos expostos de forma mais convencional. Isto é patente na exposição “Miração”, em que os quadros se encontram colocados não numa parede branca mas numa composição pintada na parede, quadros num quadro, desenhos como que extraídos dum desenho mais global, pequeno mundo focado dum mundo envolvente…

O que sobressai no seu trabalho é uma profusão de formas intricadas duma criatividade estupenda que remete “a símbolos da umbanda, candomblé, grafismos indígenas, endumentária religiosa elementos alquímicos e do folclore da floresta”… a essa influência que transparece à primeira vista, se acrescenta toda uma linguagem abstracta de formas e cores que provêm, a meu ver, da vida contemporânea ocidentalizada que se pode viver numa cidade como São Paulo, o que cria um misto intricado perfeitamente original, que se declina em murais, publicações, ou simples desenhos em papel ou tecido.

O uso da tipografia não é esquecido, e fiquei intrigado por um livro-objecto chamado “Xirugravuras”, com a participação de vários artistas gaúchos, e que foi realizado com uma máquina Johannisberg, 1929, uma das últimas letter press em uso no mundo. Tipos de letra em madeira, ao estilo dos cartazes que por lá chamam de “lambe-lambes” e que eram rapidamente colados nas paredes para anunciar shows populares…

É tambem de salientar que contrariamente ao que se pode pensar dum artista que se situa numa  vertente mais gráfica, urbana, quasi Arte Bruta, não está ciente do que se joga ao nível da arte contemporânea, já o Jean-Michel Basquiat se queixava disso, dessa forma de etiquetar alguns artistas que se movem numa forma de arte mais popular… mas aqui o nosso amigo Wagner já assimilou os Duchamp, Beuys e outros Warhol mesmo quando fala de outras referências como Undertwasser ou Twombly e, como se sente com muitos artistas sul-americanos, não faz disso um peso para acarretar… livre a desenhar e a pintar, vamos de certeza ouvir falar do Wagner Pinto e do seu trabalho.

* O termo XIRÚ tirado do dicionário gaudério-tupi, quer dizer algo como “camarada, mano, brother”



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