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Watchmen

A obra de Alan Moore que revolucionou a BD foi recentemente adaptada ao cinema por Zach Snyder. Mas afinal que heróis são estes?

Quando em 1985 a editora DC Comics obteve os direitos de alguns personagens da já extinta Charlton Comics, o célebre escritor Alan Moore começou a desenvolver uma história onde revitalizaria alguns desses antigos Super-Heróis, tal como havia feito com “Miracleman” em 1982. Uma vez que a sua ideia iria afectar radicalmente a vida destes personagens, o editor Dick Giordano recusou a proposta inicial e tentou convencer o autor a criar novos Heróis. Moore acabou eventualmente por aceitar. No entanto, e uma vez que queria manter uma certa familiaridade genérica de Super-Herói ao leitor, manteve como base de inspiração os antigos personagens da Charlton ao criar os “Watchmen“.

Esta obra surge-nos como uma história sobre a desconstrução do Super-Herói como nunca antes tinha sido vista, onde o autor cria um mundo extremamente consistente em que pessoas “normais” sem qualquer tipo de capacidades especiais optam por defender o mundo com as suas próprias mãos. A primeira vaga destes vigilantes mascarados surge no final dos anos 30, que viria a tornar-se no primeiro grupo de Super-Heróis, os “Minutemen“. Através de excertos do livro “Under The Hood” (escrito ficticiamente por Nite Owl, um dos “Minutemen”), que podem ser encontrados no final dos primeiros capítulos, Moore aproveita para aprofundar as origens e o desenvolvimento destes personagens que apesar de não serem os principais acabam por nos providenciar uma visão mais ampla deste mundo, mostrando-nos como a sua existência afectou a sociedade ao longo da História.

É no entanto sobre a próxima geração de Heróis que a trama principal se centra. Rorschach, Nite Owl II, Ozymandias, Silk Spectre II, Doctor Manhattan e The Comedian, o membro que faz a ligação entre as duas gerações. A maior diferença entre este novo grupo e o seu antecessor é sem dúvida alguma a existência do Dr. Manhattan, o primeiro e único personagem da história a conter realmente poderes. Após ter sido completamente desintegrado durante um acidente laboratorial, Jon Osterman “renasceu das próprias cinzas” como Dr Manhattan, um semi-deus, capaz de manipular matéria ao nível atómico, ou seja, capaz de virtualmente criar tudo o que imaginar. A sua existência viria a trazer uma clara vantagem militar aos E.U.A. e por isso, ao contrário do que aconteceu na realidade, em “Watchmen” a América venceu a guerra do Vietname, o que manteve Nixon na presidência durante vários anos incluindo aquele em que se desenrola esta aventura, 1985.

A história começa com o misterioso homicídio de Edward Blake, o vigilante conhecido por The Comedian. Uma vez que em 1977 o governo lançou uma lei a proibir a actividade independente de vigilantes, a maioria destes Heróis encontra-se, no início desta história, ou reformados ou a trabalhar para o governo, salvo a excepção de Rorschach, o único a manter-se ilegalmente activo e a dar a mínima importância ao assassinato de Blake que na sua opinião se trata de uma conspiração cujo objectivo consiste em eliminar todos os Watchmen.

Como disse anteriormente, “Watchmen” aborda de forma fascinante a desconstrução do Super-Herói mas, à medida que a história se vai desenvolvendo, cedo nos apercebemos que estamos perante algo maior e mais complexo, perante uma história sobre poder que nos leva a reflectir acerca da nossa própria humanidade.

Outra ideia muito interessante foi a de contar uma história de BD dentro de outra. Estou a referir-me a “Tales of the Black Freighter”, um conto fascinante sobre um náufrago que encontra o desespero ao tentar regressar a casa para salvar a sua família dos temíveis piratas do navio “Black Freighter” e que funciona também como uma alegoria em relação a determinados momentos de “Watchmen”.

No que toca à arte, Dave Gibbons fez um trabalho extraordinário, onde cada prancha contém uma quantidade enorme de detalhe e simbolismo. Nas suas próprias palavras, pretendia construir o visual da história de forma a que cada página fosse imediatamente identificada como sendo parte desta obra e não de uma outra história qualquer.

“Watchmen” foi sem dúvida um marco na 9ª arte, considerada como uma das obras maiores do seu género e sendo a única BD até à data no top de 100 melhores romances do séc. XX da “Time”. Por todas estas razões, não é de estranhar que a vontade em adaptar este colosso ao Cinema tenha começado no mesmo ano em que o livro terminou a sua publicação, 1986. Passados cinco anos tudo aparentava estar no caminho certo para a sua execução, com Terry Gilliam na realização e Charles McKeown no argumento. Contudo, e para além do facto de apenas terem conseguido juntar um quarto do orçamento necessário, Gilliam viria a abandonar o projecto uma vez que considerava “Watchmen” uma obra inadaptável ao Cinema e que resultaria melhor como uma mini-série. Em 2004 foi a vez do nome de Darren Aronofsky surgir associado a esta adaptação, mas o realizador abandonou esta ideia para se dedicar exclusivamente ao seu projecto pessoal “The Fountain”. Mais nomes surgiriam mas a tarefa herculeana acabaria por cair nas mãos de Zach Snyder que em 2006 impressionou com a forma como optou por adaptar o livro de Frank Miller, “300”.

Apesar de a arte de Gibbons funcionar perfeitamente como um Storyboard, tanto ele como Moore estruturaram esta obra para ser contada em BD e tirarem assim o máximo partido desta forma de contar histórias com imagens. Neste sentido, uma adaptação literal para Cinema é impossível e como o próprio autor disse à Entertainment Weekly “há coisas que fizemos em Watchmen que apenas resultam em BD, e foram criadas assim para salientar coisas que outros meios não poderiam”. Além disto, temos a questão do tempo e por isso não é de estranhar que Snyder tenha acabado por criar duas versões deste filme, uma significativamente maior que contará com a animação de “Tales of the Black Freighter” e poderá ser encontrada aquando a saída do filme em DVD, e a versão cinematográfica com cerca de 190 minutos que se foca exclusivamente na trama principal.

Goste-se ou não do filme, temos de reconhecer que Snyder e sua equipa demonstraram uma enorme paixão e respeito por esta obra ao adaptá-la. O livro foi claramente usado como Storyboard e é fantástico observar o pormenor com que algumas das suas sequências ganham vida no grande ecrã.

No que toca ao elenco, sou obrigado a destacar o trabalho excepcional de Jackie Earle Haley e de Jeffrey Dean Morgan, que retratam na perfeição Rorschach e The Comedian. É absolutamente deslumbrante ver estes dois personagens ganharem vida na tela. Billy Crudup também não desilude no que será um dos papéis mais complicados do filme, o do Dr. Manhattan.

Apesar de estar repleto de momentos geniais, nem sempre o filme consegue manter a mesma linha de qualidade e nesse sentido fica a sensação de termos assistido a uma obra um pouco desequilibrada. As escolhas da banda sonora, por exemplo, apesar de compreensíveis na sua maioria para quem está familiarizado com a BD, nem sempre resultam da melhor forma e aqui não posso deixar de salientar a cena de sexo ao som da «hallelujah» de Leonard Cohen que foi uma das piores cenas de Cinema a que assisti neste ano.

Um grande ponto positivo é sem dúvida o cariz explícito das cenas de violência. Snyder optou por se manter fiel à agressividade da obra e a retratá-la em todo o seu esplendor e glória ao invés de a tornar mais leve a fim de poder ser visualizada por um maior número de pessoas, uma opção que merece destaque e parabéns.

O facto de o realizador se ter mantido, dentro do possível, muito fiel ao livro será um ponto positivo para uns e negativo para outros, porém e tomada a sua posição, devo dizer que não compreendi algumas das suas escolhas nas poucas cenas que optou por alterar, nomeadamente o “nascimento” de Rorschach que em termos psicológicos nos dá uma imagem bastante diferente do personagem e uma das cenas finais entre Manhattan e Ozymandias que desapareceu para ser apenas mencionada num diálogo não tão poderoso entre Nite Owl II e Silk Spectre II. O tão falado final alterado fez-me completo sentido e mesmo preferindo o do livro não tenho nada a criticar. Aliás, estas próprias alterações das quais discordo são apenas uma opinião muito pormenorizada deste apaixonado pelo livro e que em nada contribuem para tornar o filme pior.

Apesar de interessante, a experiência de “Watchmen” é muito mais intensa e completa na BD. Afinal de contas, foi especificamente para esse meio que foi criada, e por isso aconselho a todos a leitura desta magnífica obra caso tenham ou não gostado do filme. Dificilmente a adaptação de Snyder revolucionaria o Cinema como o livro o fez com a BD, mas verdade seja dita também não tinha de o fazer. Por agora resta-nos apenas esperar pela tão aguardada “Director´s Cut” e confirmar verdadeiramente até onde Zach Snyder conseguiu levar “Watchmen” no grande ecrã.



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