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Wes Anderson

O Deus das Pequenas e Antigas Coisas.

Figura indissociável do cinema norte-americano dos últimos anos, Wes Anderson há muito que encontrou um registo pessoal, ao ponto de definir aquilo a que se chama cinema independente (mesmo que verdadeiramente não o seja) desta década. De um certo modo, está para a sua era como Hal Hartley esteve durante a década de noventa. A nível estilístico, de linguagem e do público, com todas as diferenças que marcam as gerações e na forma como se vê cinema hoje em dia.

Queria ser escritor. Começou por escrever peças semelhantes às que existem em “Rushmore” (1998) e cedo percebeu que não queria trabalhar sozinho. Os argumentos dos seus filmes são sempre co-escritos com amigos, primeiro com Owen Wilson (“Bottle Rocket” (1994/1996), “Rushmore” e “Royal Tenenbaums” (2001)), depois com Noah Baumbach (The Life Aquatic Of Steve Zissou (2004) e o seu futuro filme, “Fantastic Mr. Fox”) e em “The Darjeeling Limited” (2007) com Jason Schwartzman e Roman Coppola. Alguns destes – Owen Wilson e Schwartzamn – são actores com quem regularmente trabalha, ao qual se junta gente como Bill Murray,  Seymour Cassel, Anjelica Houston e Luke Wilson.

Partimos dos seus dois primeiros filmes, “Bottle Rocket” e “Rushmore” (analisados pelo André e a Isabel, respectivamente), provavelmente os menos conhecidos, para falar de Wes Anderson. Não porque ninguém fala deles, mas porque são algo virgens face ao que veio depois com “Royal Tenenbaums”. Gostar muito deles também ajuda, face aos filmes posteriores, cada um com uma abordagem fresca e progressivamente menos contida, mais liberta de constrangimentos.

“Bottle Rocket”

Wes Anderson deu de caras com Owen Wilson durante a sua licenciatura em filosofia. Começaram a trabalhar na curta-metragem “Bottle Rocket” (1994) já com ideias para uma longa-metragem, que só viria a acontecer dois anos mais tarde, e em “Rushmore”, que seria a segunda longa a resultar desta parceria. “Bottle Rocket” é o típico filme que há uns anos atrás apanharíamos no canal Hollywood e que nos deixava logo agarrados. Está carregado de uma ingenuidade que vicia, se torna alucinante, e de um sentimento de falsa adrenalina, genialmente marcado no corpo e na voz de Owen Wilson.

É um filme de estreias: Wes Anderson como realizador e argumentista, Owen Wilson como argumentista e actor e o seu irmão, Luke Wilson, como actor. Estes dois, formam uma parelha inigualável, divertidos sem tornarem “Bottle Rocket” obrigatoriamente num feel good movie, tensos sem estragarem a boa disposição geral e imersos num overacting que contribui para tudo funcionar tão bem. São dois amigos, ao qual se junta um terceiro, Bob (Robert Musgrave) que decidem cometer um pequeno crime na sua comunidade local. E quando se fala em pequeno, é mesmo pequeno, mas Dignan (Owen) tem uma disfunção qualquer que o faz imaginar que aquilo vai ser o maior crime de sempre e, por isso, obriga os outros a executarem-no como se tal fosse. Está tudo planeado, desde o golpe, passando pela fuga, até à estadia num motel qualquer durante tempo indeterminado até que a coisa passe.

A ideia é banal, mas o que a coloca além é o entusiasmo exagerado de Dignan, monstruoso e apelativo, que desfaz o cenário típico deste género de filmes. É um motor que arrasta o argumento juntamente com as personagens e onde se encontram as bases para as motivações de algumas das personagens de Wes Anderson. Por exemplo, a de Owen Wilson em “The Darjeeling Limited”, aí mais madura e controlada, mas com a mesma determinação em alcançar os seus objectivos. Também é, de certa forma, o ponto de partida para um certo ridículo/exagero que existe graças a uma total liberdade criativa dos actores. Em “Bottle Rocket” ainda desfasados/afastados da realidade e, daí em diante, logo em “Rushmore” mais controlados por noções de formato, de estilo e inseridos no universo do realizador. Isto porque “Bottle Rocket” é muito cru, ingénuo e inexperiente, e daí para “Rushmore” Wes Anderson dá um passo gigantesco num prenúncio do rigor perfeccionista em todos os filmes, curtas e anúncios televisivos, basicamente tudo a que se dedicou no futuro.

“Rushmore”

Parte de “Rushmore” foi filmado no mesmo colégio privado em que Wes Anderson levou a palco as primeiras peças que escreveu. Que melhor local para se imaginar um filme do que a nossa escola , que explorámos de uma ponta à outra.

Logo no início a música com o seu toque colegial, algo renascentista, institui o tom do filme. Não é por acaso que a câmara treme ligeiramente de entusiasmo, quando deveria estar assente num tripé, nem o efeito de distorção da lente que enuncia a fábula. Conhecemos logo o protagonista, a música cresce, pára e dispara com uma flauta desvairada e puff, acorda-se na igreja do colégio. Esta cena acelerada seguida de duas outras a apresentar mais três personagens. Pouco depois, passa-se a um momento hilariante, em jeito de videoclip, a introduzir a panóplia de actividades do mau aluno, Max interpretado por Jason Schwartzman, aqui ainda com 17 anos. Em cinco minutos alguns dos muitos tiques estilísticos que se vão repetir em filmes póstumos são revelados; referências e até falhas com piada.

Algumas personagens de “Rushmore” foram concebidas a partir do filme “A Charlie Brown Christmas” (1965) de Bill Melendez: Max, seu pai e a professora da primária. Bill Murray gostou tanto da ideia do argumento que se predispôs a colaborar no filme à borla e, como já foi referido, é desde então presença regular nos filmes de Wes Anderson. A sua personagem reconhece o carisma daquele miúdo de 15 anos (Max), torna-se seu amigo mas não evita apaixonar-se pelo primeiro amor do rapaz, uma professora da escola de “Rushmore”, Rosemary Cross, interpretada por Olivia Williams.

Este filme evidencia uma ligação particular com “Harold & Maude” (1971) de Hal Ashby, no que concerne à escolha musical e à relação metageracional das personagens principais, embora seja “The Graduate” (1967) de Mike Nichols, que Wes Anderson reconheceu como a preponderância em “Rushmore”, tanto na banda-sonora como na estrutura. Com efeito, a banda-sonora de “Rushmore” é um ingrediente essencial, não só por conduzir ou estabelecer ritmo a cenas em particular e pelo papel estruturante geral mas também por aludir a outras épocas e outros filmes. Este filme conta com muitos temas da chamada grande invasão britânica dos anos 60, surpreendente até porque realça o estilo que à primeira vista não se sabe que Max tem. E há mais simbiose entre música e imagem neste filme do que no seguinte, exceptuando a associação entre as músicas de Nico e Margot Tenenbaum, criada à sua semelhança, a canção de Elliot Smith (que faleceu depois do filme) torna tangível a ideia de suicídio numa cena videoclipesca demais. Acrescente-se já que Wes Anderson conta com a colaboração de Mark Mothersbaugh, dos Devo, para música dos seus filmes, recheando-os com composições volúveis e coloridas.

No entanto, em “Rushmore”, o realizador ressalta o seu domínio na duração do som, do silêncio, do diálogo, o qual as imperfeições formais. Para além da música, Wes Anderson também vai buscar objectos ao passado, significantes para a caracterização das personagens, um traço pessoal da sua obra. Os cenários são preenchidos de pormenores em constante relação ora com o que está dentro ora fora do filme. Poucos são os objectos que nos indicam quando é que os filme tomam lugar (duma foto duma câmara de vigilância logo no início de “Rushmore” ao iPod de “The Darjeeling Limited”), e se bem que se tem a sensação da distância temporal ser curta, as histórias podiam se ter passado noutra altura, tal é o isolamento de Wes Anderson.

O protagonista de “Rushmore” frequenta um colégio privado por ter conseguido uma bolsa, diz que o pai é neurocirurgião, quando na verdade é barbeiro, e a pressão de classe fica por aí. E se em “Rushmore” há o multimilionário amigo de Max e o colégio privado ostentoso, no filme seguinte, “The Royal Tenenbaums”, as personagens são de classe alta e alvo de inveja. E como se os cenários luxuosos não fossem suficientes em ambos os filmes, quando os pais são expulsos de casa é para um hotel de cinco estrelas que vão morar. Em todos os filmes a segurança monetária das personagens contribui para o desfasamento destas para com o real. Denota-se que “The Royal Tenenbaums” retrata uma família rica que se reúne porque o pai que abandonou as três crianças prodígios, está supostamente a morrer, mas na verdade está falido.

Orson Welles influenciou muito Wes Anderson, “The Royal Tenembaums” vai beber a “The Magnificent Ambersons” (1942), a família rica em declínio de estatuto, a casa, a narração inicial na terceira pessoa, e, também presente noutros filmes, os planos de elaborada perícia técnica. Protegido de Martin Scorcese, copiou os planos de câmara lenta (existentes em “Rushmore” e no final de todos os seus filmes), e a exibição de objectos de cima, como Hitchcock, entre outros.

A obra de Wes Anderson é tragicómica, onde uma doçura delicada coexiste com momentos de frieza. O humor é muito seco, mordaz e sardónico na procura de frases como “I saved Latin. What did you ever do?” (“Rushmore”) ou “Of course it’s dark, it’s a suicide note.” (The Royal Tenenbaums”). A ironia advém também da música. O registo por vezes é um bocado fora, possível de suscitar as mais díspares reacções da nossa parte tal a miscelânea. Isto explica-se em grande parte por uma superficialidade nas sensações, ou melhor, destoa por não conter as emoções de uma forma típica da indústria norte-americana. Ou, melhor ainda, foge da intensidade gratuita. Não há um notório aprofundamento no retorno temático da frustração, depressão, perda. A morte é representada com naturalidade em todos os seus filmes, sendo que “Rushmore” e “ The Royal Tenenbaums” têm cenas em cemitérios. Porém, as relações amorosas são distantes e filmadas como tal até “The Life Aquatic With Steve Zissou” e ao arrebatamento em “Hotel Chevalier”, curta-metragem ligada a “The Darjeeling Limited”.

Neste último, inspirado pelos filmes de Satyajit Ray (e a quem Wes Anderson dedicou), rumou à Índia para buscar inspiração para o escrever, juntamente com Roman Coppola e Jason Schwartzman. Retrata, nas suas próprias palavras, “a viagem de reunião de três irmãos à procura da sua mãe”.

Outra marca distintiva é que no início de todos os filmes as personagens principais são apresentadas individualmente. Talvez a separação dos pais quando tinha 8 anos tenha contribuido para as suas famílias atrofiadas de todos os seus filmes. A construção de personagens e a sua caracterização têm traços da personagem principal de “Catcher In The Rye”, como a família Glass (“The Royal Tenenbaums”) entre outras de J.D. Sallinger, Scott Fitzgerald, as aspirações e falhanços das personagens de Orson Welles, Scorcese, as relações entre personagens com um grande intervalo de idades em “Le Souffle Au Coeur” (1971) de Louis Malle, Mike Nichols, Hal Ashby , mais precisamente “The Last Detail” (1973) liga-se a “The Darjeeling Limited, que alude vagamente a “Husbands” (1970) de John Cassavetes, ou os diálogos de Godard.

E apesar de as inúmeras influências directas (que não dão para listar aqui) e da sua família de criativos, o cinema de Wes Anderson tem um carácter autoral muito vincado. Há um cuidado obessivo muito evidente logo na composição de planos sempre trabalhados até ao ínfimo detalhe, portanto, só por isso dificilmente aborrece um espectador. Mais distintiva é a escolha de lentes de grande amplitude, que distorcem os cantos da imagem. Menos invulgar é a sequência dinâmica de planos variados, cuja edição é estruturada com base na música.

Ilustração do artigo de Isabel Salvado



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