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“Why Vinyl Matters” de Jennifer Otter Bickerdike

Uma boa parte da minha adolescência, nos anos 90, foi passada a copiar CD’s de amigos para cassetes que depois eram escutadas até à exaustão e rebobinadas vezes sem conta. Pelo meio, desenvolvia-se o talento de conseguir rebobinar e parar mesmo naquela parte da canção que queríamos mesmo ouvir. Ao mesmo tempo a colecção de CD’s ia crescendo. Os vinis pareciam algo demasiado grande, velho e bafiento, que os nossos pais ouviam.Ocupavam muito espaço… Mas lá mais para o final da primeira década deste século, voltamos a ouvir falar e a escutar vinis e, pé ante pé, eles ressurgem para uma imensa minoria. Uma imensa minoria que aprecia cada detalhe do artwork, que torna um vinil único, tal como o som que deles sai. Nem o tamanho já importa. Como o complemento deste ressurgimento, temos o streaming. É indispensável, não nos enganemos, é que abre-nos o mundo. O vinil surge como a cereja no topo do bolo para o amante da música. Aquilo que nos permite manter uma relação enamorada com aquilo que escutamos, que nos permite sentir de facto aquilo que ouvimos. Nas nossas mãos.

Pelo meio vão surgindo objectos criados com muito amor e dedicação, que procuram mostrar como e porque é que, contra todas as expectativas, o vinil não só ressurgiu como está efectivamente a conquistar uma cota de mercado que já não pode ser olhada apenas como marginal. Um exemplo disso é o livro “Why Vinyl Matters”, da autoria de Jennifer Otter Bickerdike, historiadora de cultura pop. A premissa na base deste livro é simples; ser um manifesto para músicos e fãs sobre a popularidade do vinil e sobre aquilo que o torna realmente melhor, quer através de factos, quer através de anedotas e histórias contadas pela própria autora ou nomes como Henry Rollins e Lars Ulrich entre outros.

O meu primeiro vinil foi o “Unknown Pleasures” dos Joy Division, embora não tenha a certeza se o comprei ou se foi um presente. Pareceu um bom ponto de partida começar por aí a conversa com Jennifer Otter Bickerdike. “O primeiro álbum que comprei com o meu próprio dinheiro foi o “Talk Show” dos Go-Go’s (N. do E.: editado em 1984). Eu tinha visto os vídeos deles num programa que tínhamos na Califórnia chamado “Friday Night Videos”. Na altura ainda não tínhamos MTV, por isso gravávamos o programa semanal, que dava a uma hora tardia, tipo 11 da noite (é que quando és um miúdo isso é quase como se fosse a meio da noite)”. E acrescenta ainda que “pensava que eles ficavam tão fixes. Queria ser uma Go-Go desesperadamente – é que eles pareciam muito mais bem vestidos e eram como hiper versões de alguns dos miúdos mais velhos que eu conhecia do meu bairro”.

Os sítios onde compramos os nossos vinis são importantes. Muitas vezes acabamos por desenvolver uma relação quase religiosa e com visitas recorrentes. Quando penso nas lojas de discos por onde já passei há uma que me vem sempre à cabeça inevitavelmente. Chama-se Pet Sounds e fica em Estocolmo. Podia passar lá horas. Fácil mesmo. A distância neste caso é um claro obstáculo mas a ligação prevalece. É assim que funciona. Para Jennifer também há uma loja assim. “AMOEBA AMOEBA AMOEBA AMOEBA! É apenas e só Amoeba, mas eu tenho de dizer o nome várias vezes e com maiúsculas porque é uma loja magnífica. Costumava ir à loja de Berkeley, na Califórnia quando andava na universidade. Pensava que toda a gente que lá trabalhava era mesmo fixe. Eles sabiam tanto sobre todo o tipo de música que por vezes me sentia intimidada para falar com eles, porque pareciam mesmo enciclopédias andantes”. A paixão já lá estava e daí até arranjar um emprego no meio foi apenas um pulinho e “era a cena mais importante poder entrar naquela loja e colar um poster de uma banda com a qual estava a trabalhar na altura. À medida que fui progredindo na minha carreira, tive oportunidade de conhecer vários dos fundadores da Amoeba. Marc Weinstein, que entrevistei para o Why Vinyl Matters, é um destes senhores. Ele tem sido uma inspiração e um mentor para mim ao longo dos anos. Nas lojas Amoeba – agora são três – há alguma coisa para toda a gente, vinis baratos, coleccionáveis e pessoal prestável e bem informado. O ethos (N. do E.: espírito) do retalhista independente é tão importante para esta cultura e a Amoeba é um exemplo lindo disso mesmo”.

O cuidado colocado em cada página de Why Vinyl Matters, deixa perceber que estamos perante um trabalho feito com amor, porém a ideia inicial até era um pouco diferente, como nos contou Jennifer: “eu sou totalmente obcecada pelo ouro FM dos anos 70 como os Doobie Brothers, Eagles ou os Fleetwood Mac, e queria realmente escrever um livro sobre isso. Acontece que a minha agente na altura já estava farta de me ouvir dizer como as sleeves dos álbuns destas bandas eram espectaculares e um dia virou-se para mim e disse-me que eu devia era escrever um livro sobre o vinil e porque eu adoro tanto o formato. Isto foi há quase três anos. O projecto simplesmente cresceu e cresceu a partir daí. A forma como as entrevistas, as fotos e outros bocados foram ganhando forma, foi totalmente orgânica”.

Gosto de apreciar o artwork num vinil, o detalhe e o tamanha das sleeves. Adoro o som que ouvimos quando deixamos cair a agulha sobre o disco. Adoro mesmo ficar apenas a olhar para o disco, enquanto roda à minha frente. Pequenos prazeres que não têm preço. Mas cada pessoa tem a sua experiência, o seu ritual. “Ir à loja, encontrar aquela pérola e depois tornar isso algo realmente importante – tens de pensar em levantar-te, colocar o disco, depois virá-lo, etc. É todo um processo. Estou sempre a pensar que não tenho tempo, mas na realidade o vinil FAZ com que tenha tempo”, acrescenta Jennifer. Uma das melhores partes de escrever um livro como este é mesmo ter a oportunidade de entrevistar artistas fabulosos (o que eu não daria para uma conversa com o Henry Rollins!) e Jennifer tem plena noção disso e quando lhe pergunto qual a sua preferida diz que se sentiu “uma sortuda por ter entrevistado todas estas pessoas que tiveram a gentileza de me dar um pouco do seu tempo e dos seus pensamentos. Sempre que ia fazer uma entrevista, pensava que não podia haver melhor do que isto. Depois ia para a seguinte e pensava, OH MEU DEUS ESTA É QUE FOI A MELHOR! Acho que por estar a falar com pessoas sobre algo que ambos adoramos tanto, levou a que isso trouxesse ao de cima o melhor de cada um”.

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O vinil e o streaming podem ser vistos como um complemento um do outro. Serviços como o Apple Music ou o Spotify permitem que escutemos praticamente tudo, quando queremos e em qualquer lugar. Por outro lado, o vinil assegura que a música tem substância, que é palpável. A questão que aqui se levanta é se isto vai durar e para onde caminhamos; “vivemos num mundo cada vez mais virtual. Escolher um livro, um disco, uma revista, são tudo belas experiências tácteis, cada uma individual, ao contrário das páginas ‘anónimas’ num iBook ou num ficheiro de MP3. Tenho ouvido dizer que ‘o revival do vinil é nostalgia’ ou que ‘são apenas pessoas mais velhas a comprar discos’. E conclui dizendo que “se entrarmos em qualquer loja de discos, vamos ver que isto é completamente irreal. Vemos todos os grupos etários, classes e géneros de apreciador de vários tipos de música a comprar discos”.

O vinil importa e veio para ficar.



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