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Willy Moon

“Eu sou como um Pacman. Alimento-me de tudo e depois volto a deitar cá para fora, de uma forma muito pessoal, muito minha”

No passado sábado, dia 26 de Janeiro, Willy Moon voltou a pisar o palco do Musicbox num concerto muito intenso e especial.

Horas antes do espectáculo, a Rua de Baixo conversou com este jovem artista australiano, que se distingue por ter um estilo muito próprio.

A tua música é muito diferente de tudo o que estamos habituados a ouvir. O que é que te levou nesta direcção?

Foi isso mesmo. Em 2008, quando comecei a fazer música, tinha dezanove anos e vivia na Alemanha. Não tinha muito que fazer e não conhecia outros músicos na altura, então comecei eu a escrever música. Nunca tinha cantado antes, e nunca me tinha passado pela cabeça que me iria tornar num cantor; eu só tocava guitarra. Mas depois comecei a escrever canções e não conhecia ninguém para as interpretar, pelo que comecei eu mesmo a cantá-las. Tudo começou a crescer a partir daí. Para mim é como voltar a ser criança. Assim tenho uma oportunidade de explorar e tentar coisas diferentes. Isto é a coisa mais divertida que eu consigo imaginar para fazer. É tudo num nível muito básico. A música para mim é liberdade, liberdade de expressão. A maioria das pessoas não tem oportunidade de se expressar como realmente é. Quem pode expressar-se com liberdade é um privilegiado e sinto que posso fazer algo em que mostro o que faço e o que sou.

Viveste em Berlim durante alguns anos. Como é que essa experiência te influenciou e à tua música?

Acho que me influenciou imenso. Entre o período em que cheguei e saí de Berlim mudei muito. Cheguei a Berlim a usar jaquetas e calças de ganga e sai de lá vestido num fato. Senti que tive um grande momento nessa altura da minha vida. Como que uma grande janela, para me encontrar a mim mesmo, encontrar o que eu queria fazer e para onde queria ir. Tudo na minha vida mudou em Berlim. Eu vejo a minha vida dividida em duas partes: pré- Berlim e pós-Berlim.

Gostavas de voltar a viver lá?

Penso que não. Penso que foi na altura certa. Já regressei várias vezes e considero a cidade fascinante, porque é quase esquizofrénica. Berlim permite às pessoas viverem a sua vida, e serem que realmente são. As pessoas são livres.

Se pudesses escolher um artista, de qualquer época, para trabalhar contigo, quem escolherias?

Adoraria trabalhar com o James Brown, ou Cab Calloway, mas acho que a música deles é tão perfeita como é, que provavelmente eu iria estragar alguma coisa. Eu gosto realmente é de trabalhar comigo mesmo.

Sei que tens alguns discos de música de Bollywood na tua colecção pessoal de vinis. Como é que descobriste este tipo de música?

Eu comecei a ouvir este tipo de música através do pessoal do Hip Hop; o Timbaland, por exemplo, fez samples de músicas de Bollywood. Comecei a ouvir e fiquei fascinado. É uma música tão diferente de tudo o que eu conheço. Também comecei a ouvir música do Médio Oriente. O meu pai viveu lá, no Kuwait, Qatar, e estive lá durante alguns meses. A minha memória mais marcante de lá são as rezas ao longo do dia. Momentos intensos e bonitos. Quando vivia na parte Este de Londres estava muito perto de uma mesquita e ouvia todos os dias as rezas. Aquele momento parecia-me tão bonito: aquelas pessoas todas a comunicarem com Deus. Eu pessoalmente não acredito nisso, mas admiro e respeito esses momentos.

Mas acho que fiquei fascinado com a música de Bollywood, por ser tão “alien”. Também gosto de música com tablas, e instrumentos de percussão hipnóticos.

Um dia, encontrei uma caixa grande recheada de discos, no outro lado da estrada. Estava no meio de uma pilha de lixo, mas pensei que alguém poderia ter-se esquecido daquilo ali, ou deixado por engano. Não queria roubar os vinis de ninguém. Então continuei a voltar ao local, para ver se alguém tinha levado os discos, mas continuavam lá, no mesmo sítio. Foi um acontecimento bonito. Senti-me como um arqueólogo que descobre coisas do passado. Quando ouvi os tais discos de Bollywood, senti que não havia ligação com nada do que eu já tinha ouvido.

Se tivesses de descrever o teu estilo de música a alguém que nunca te ouviu, o que dirias?

Eu diria que a minha música começa no rock ‘n’ roll e depois expande-se para outras direcções. É como uma bomba que explode do rock ‘n’ roll, mas depois alimenta-se de tudo. Eu sou como um Pacman. Alimento-me de tudo e depois volto a deitar cá para fora, de uma forma muito pessoal, muito minha.

Como é que descobriste o teu próprio estilo?

Eu tocava guitarra desde pequeno e depois comecei a produzir música no computador, porque não conhecia outros músicos. Não conhecia bateristas ou pessoas que tocassem outros instrumentos. Comecei a cantar como disse antes, porque não conhecia cantores. Então comecei a fazer tudo por mim mesmo, sozinho. Isto deu-me liberdade, podia fazer o que queria, como queria. De alguma forma, eu aprecio a ignorância na música. Aprecio quando as pessoas fazem música vinda de um lugar de ignorância, porque se aprenderes demasiado sobre as coisas, isso limita-te de ires noutras direcções. Eu estava a tentar explorar música diferente, mas ao mesmo tempo estava a tentar manter-me ignorante, para me permitir descobrir a minha essência.

Estás entusiasmado com o concerto de logo à noite?

Sim, actuar é um dos grandes prazeres do que faço. No palco sinto-me ligado com as outras pessoas, de uma maneira muito aberta e livre. É uma espécie de comunhão, todas a pessoas juntas naquele momento estão a viver e a partilhar a mesma experiência. Cada vez mais as nossas vivências são individuais, e estas são das poucas oportunidades para as pessoas estarem juntas e partilharem experiências. É muito especial e muito humano. Algo que eu valorizo muito.

Fotografia por José Eduardo Real



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