Woods @ Musicbox (08.04.2017)

Woods @ Musicbox (08.04.2017)

Talvez por ser sábado à noite, talvez pela subida dos termómetros que já vai tirando mais pessoas das ronhas de suas casas, talvez porque por uma enorme vontade de ver pela primeira vez os Woods após o lançamento do incrível “City Sun Eater in the River of Light”, mas a verdade é que é se o Musicbox não estava esgotado, deveria estar bem perto disso. E que bom que é ver aquela sala assim composta. O seu pedido de amor parece ter resultado em cheio.

Já eram perto das onze quando subiram a palco, em formato quinteto, tal como se têm apresentado nesta tour que terminou ali no Cais do Sodré. Antes de entrarem para as coisas novas que andaram a magicar, os Woods apresentaram-se com «Leaves Like Glass», tema vindo de “With Light and With Love”, que já nos tinha abraçado debaixo das árvores de Paredes de Coura e agora escutamos por debaixo do balbúrdia de sábado à noite da Rua do Alecrim. Mas claro, ali dentro isso não passa pela cabeça de ninguém, está toda a gente completamente imersa nas melodias da voz deliciosa de Jeremy Earl acompanhado da sua guitarra acústica e dos seus amigos.

E é logo de seguida que esta malta de Brooklyn nos mostra o que andou a fazer de novo. Diz-se que não há 2 sem três, não é? Pois bem, foram 4 os temas que ouvimos de rajada do último disco da banda. Começaram com«Politics for Free» uma tema que transforma as agitações políticas dos tempos modernos em simplicidade e num riff vindo da guitarra de Jarvis Taveniere tão orelhudo que de certeza que ninguém se importaria de voltar ali sempre que levasse com as desilusões do mundo à frente. A seguir trouxeram-nos a última e a primeira canção deste álbum. Primeiro com «Hollow Home» e, após Earl ter trocado a guitarra acústica pela eléctrica, «Sun City Creeps», um tema que espelha bem todas as influências novas que os Woods andaram a beber. Uma canção que vai a quase todo o lado onde o grupo já andou e que liga isto tudo de uma maneira sublime. Em estúdio estes temas contaram com uma ajuda de sopros, mas ali não houve trompetes nem saxofones. E não era preciso, assim chegou bem para transmitir a ideia – o que faltava em sopros, o teclista Kyle Forester acabava sempre por compensar, ora com o seu Nord, ora com os seus coros, ora com a sua percussão improvisada na garrafa de Heineken. «The Take» viria a terminar esta sequência, um tema de altos e baixos, que ora se passa por sons simples e solarengos, com a voz de Earl a ser ajudada pelos coros da restante turma, como traz também um caos vindo de quem sabe criar Psych Folk como muito poucos, um ruído que enche ali o musicbox com os dois guitarristas a malharem as suas cordas, esgalharem solos cheios de fuzz e wah vindos directamente do psicadelismo e criarem um barulho imenso que se mantém único pela única constante da música – uma linha do baixo de Chuck Van Dyck constantemente a repetir-se ao longo destes quase 10 minutos de música (um pedal de loop não faria melhor) ligando todas as suas fases. Confesso, tenho um especial carinho por este formato de canções.

Após este espalhafato, foi altura de voltar à guitarra acústica, naquilo que pareceu uma maneira de voltar à floresta com os amigos para cantarem juntos e sem preocupações. Então não foi a isso que os Woods tão bem nos habituaram? Em«Cali in a Cup», um tema resgatado a 2012, mostraram isso mesmo, com Taveniere a liderar a harmónica de um dos temas mais populares, o que se fez também notar pelas reacções do público.  O Musicbox todo estava com o grupo.

Taveniere chega-se ao microfone. Fala-nos de um tema novo de um álbum que vai sair no mês que vem. Pensamos, claro, em«Love is Love», single avançado para a sua apresentação. Porém, não é «Love is Love» que ouvimos, mas sim «Creature Comfort», das mais belas do já mencionado (e bem) “City Sun Eater in the River of the Light”. E que, mais uma vez, vem mostrar as mais recentes influências africanas e mais dançáveis, que torna irresistível bater o pé ou abanar a anca. Para finalizar esta primeira parte, ouvimos «With Light and With Love» que, com os seus corajosos 9 minutos, volta a ir buscar aquilo que de melhor há no psicadelismo que encheu as medidas de quem andava à procura disso. No único encore, trouxeram-nos «Suffering Season» e a inevitável «Moving to the Left», provavelmente a sua canção mais carismática. No final desta voltam a abandonar o palco, agora de vez. Não nos trouxeram «Love is Love», mas sim a vontade de continuarmos a sorrir à vida e que, por mais motivos que existam nos dias de hoje para nos deitar abaixo e para ficarmos aflitos com o mundo que nos rodeia, existe sempre quem nos inspire e que nos faça acreditar que há esperança. E isso é amor.



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