Woody Allen

O cineasta e o músico, no CCB dia 27 de Dezembro.

Allan Stewart Konigsberg, mais conhecido como Woody Allen: um excelente realizador; uma prima donna; hipocondríaco e depressivo; um músico medíocre; neurótico e workaholic. São tudo adjectivos que se encaixam na descrição do cineasta e músico nova-iorquino, um dos mais celebrados realizadores da sua geração.

Woody Allen iniciou-se no mundo da comédia muito cedo, escrevendo primeiro para outros artistas e, mais tarde, no mundo da stand-up comedy. O salto até ao cinema foi breve e em 1966 assina o seu primeiro filme, “What’s Up, Tiger Lilly”. Era o início de uma carreira profícua no mundo da sétima arte, agraciada com os mais diversos e prestigiados galardões ao longo dos anos.

A sua obra cinematográfica é o espelho fiel da sua persona e da sua atitude perante o mundo. Os seus filmes, que vieram redesenhar um novo estilo dentro da comédia, com um peculiar estilo de crítica, non-sense e absurdo, ganharam admiradores por todo o mundo ao longo das quatro décadas de carreira. No entanto, a sua obra é muito mais apreciada na Europa, em geral – e em França, em particular – do que nos próprios EUA. Allen parodiou esse facto no recente “Hollywood Ending”, em que se auto-retrata na pele de um realizador neurótico e hipocondríaco à procura de não desperdiçar a sua última chance de recuperar o prestígio perdido. Talvez seja um reflexo da sua origem judia europeia, muito mais sensível que o público norte-americano.

Personagem frequente dentro da sua própria obra, Woody Allen representa-se nos seus filmes como um nova-iorquino neurótico e depressivo, amante de jazz e com medo da morte. Allen afirmou certo dia “não tenho medo da morte, apenas não quero estar presente quando isso acontecer”. O seu vício pelo trabalho e o amor ao cinema têm-se projectado numa média de um filme por ano. Portugal prepara-se para receber nas suas salas o seu mais recente trabalho, “Match Point”, que conta com a presença da coqueluche internacional Scarlett Johanson. Pode-se justificar o Allen workaholic com o facto de Allen temer o futuro desconhecido. “Este ano sou uma estrela, mas e no próximo? Um buraco negro?”, terá interrogado certa vez em entrevista.

Raramente Allen participou em filmes que não fossem os seus. Uma dessas excepções foi o hilariante “Casino Royale”, episódio cómico não oficial da saga James Bond – “Faço filmes para mim. Não me importo se vão depois pela sanita abaixo”, terá dito com a arrogância e a atitude auto-depreciativa que lhe são conhecidas. De facto, a sua obra reflecte um estilo muito pessoal, onde se reflectem as influências dos seus maiores ídolos: Groucho Marx, Frederico Fellini e Cole Porter. Do primeiro, retirou a componente cómica do cinema físico na altura em que a sétima arte ainda não tinha descoberto o sonoro; do segundo retirou o estilo muito pessoal, de como se desconstrói nas próprias obras, dialogando abertamente com a câmara; e do último, absorveu as composições jazz, das quais é fervoroso admirador.

Os filmes de Woody Allen também acabam por ser uma projecção da forma de estar na vida. Woody Allen nunca se conformou com o status quo da sociedade e as regras pré-estabelecidas de ética e moral e, ao longo dos anos foi coleccionando casos e escândalos. E se em 1977 deixou muita gente estupefacta ao não aparecer à entrega dos prémios da Academia, onde foi agraciado com o Óscar de Melhor Realizador graças à sua obra-prima “Annie Hall”, em 1992 Woody Allen chocou meio mundo, ao casar com Soon-Yi Previn, filha adoptiva de Mia Farrow, ex-companheira com quem compartilhava a custódia.

Esse episódio de 1977, em que Allen não compareceu à cerimónia da entrega dos Óscares por preferir ficar a tocar com a sua banda jazz no antigo Michael’s Pub, agora Carlyle Café, deixou antever que a faceta musical de Woody Allen seria para levar mais a sério. É que paralelamente ao Allen cineasta, existe ainda um Allen músico. Amante de jazz, algo que é visível em todas as bandas-sonoras dos seus filmes. Allen é um apaixonado pelo clarinete, que toca na New Orleans Jazz Band, à qual empresta o seu nome e o seu star power, de forma a compensar o seu limitado reportório técnico.

Apesar de assinar um filme por ano, Woody Allen consegue dispensar sempre tempo para tocar com a sua banda, todas as segundas-feiras, no Carlyle Café, em Nova Iorque, e para embarcar em pequenas digressões pelas principais cidades europeias, que faz questão de serem bem recompensadas monetariamente. É certo que num concerto de Woody Allen And His New Orleans Jazz Band estamos sempre a pagar o nome do realizador e não a capacidade da banda. Mas já há muito que Woody Allen ganhou o rótulo de prima donna e não é agora que vai começar a importar-se com isso.

Depois de ter abrilhantado a reveillon do Casino Estoril o ano passado, Woody Allen And His New Orleans Jazz Band estão de volta a Portugal, desta vez ao palco do Centro Cultural de Belém, em Lisboa, para um concerto único no dia 27 de Dezembro, espectáculo inserido numa mini-digressão europeia.

É certo que não se espera um concerto musical genial e também é certo que muitas das pessoas que vão lá estar não vão para ver, mas sim para serem vistas. No entanto, Woody Allen é sempre Woody Allen, um dos realizadores de topo da Sétima Arte. E se ver um filme seu é como conversar com um velho amigo – apesar de já sabermos o tipo de conversa que vamos ter, é sempre prazenteiro –, assistir a um dos seus concertos também não será muito diferente



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