Wordsong

A reedição do albúm que nos mostra que a poesia é muito mais que meras palavras

No passado mês de Outubro foi reeditado Al Berto, o albúm/livro que o projecto Wordsong lançou em meados de 2002. A reedição do albúm coincidiu com a apresentação ao vivo do projecto no pequeno auditório do CCB e no Hard Club em Gaia.

O projecto constituído por Alexadre Cortez dos Rádio Macau (baixo e programações), Pedro D’Orey dos saudosos Mler Ife Dada (voz) e Nuno Grácio dos extintos Ravel (guitarra e programações) surgiu na sequência do espectáculo “Filhos de Rimbaud”, concebido e organizado pelo próprio Alexandre Cortez em 1995 e onde o próprio Al Berto foi convidado. “Horto de Incêndio”, o último livro que o poeta publicou em vida, foi construído precisamente a partir de textos escritos propositadamente para o evento. Já nessa altura tinha ficado no ar a ideia de fazer música à volta da sua poesia. Infelizmente não foi possível porque em 1997, Al Berto faleceu. No ano seguinte, no dia em que Al Berto comemoraria o seu 50º aniversário, foi organizada uma festa no Fórum Lisboa em homenagem ao poeta. Festa essa organizada pelo próprio Cortez e a Assírio & Alvim. Apareceram diversos artistas, entre os quais, Pedro D’Orey, com quem ficou combinado trabalhar em conjunto a obra do autor. Em 2001 surgiu o ponto de partida para Wordsong, tendo-se juntado Nuno Grácio.

Todo este projecto gira em torno de um poeta, um homem  muitas vezes esquecido, mas nunca ignorado.
Al Berto, pseudónimo de Alberto Raposo Pidwell Tavares nasceu em Coimbra no ano de 1948. Teve sempre um ar extremamente irreverente para o seu tempo. Filho de uma família da alta burguesia de origem britânica extraordinariamente conservadora, na sua adolescência traja de modo displicente de calças de ganga e ténis rotos, para escândalo geral. Terá sido a primeira afirmação da sua diferença intelectual.
Devido ao seu extraordinário dom natural para a pintura, a família decide enviá-lo para a Escola António Arroio, em Lisboa.

Em 1967, sai de Portugal para residir em Bruxelas, onde entra para a École Nationale Supérieure d’Architecture et des Arts Visuels (La Cambre) / Peinture Monumentale.

Em 1969, com alguns amigos artistas plásticos, fotógrafos e escritores funda a associação internacional Monfaucon Research Center.

Foi a partir desta viragem da sua vida que Al Berto decidiu abandonar a pintura e assumir-se definitivamente como “autor de textos literários”.

A exposição de pintura de final de curso em La Cambre fala-se que terá sido um escândalo. A sala foi forrada a papel de prata na sua totalidade e as únicas representações foram uma série de fotos em polaroid que não eram do todo susceptíveis de serem observadas por espíritos moralistas.
No entanto os quadros mais característicos de Al Berto eram enormes telas que podiam ocupar toda uma parede com representações tipo Andy Wharol em cores berrantes, como que banda desenhada, com técnicas tão diversificadas como a pintura sobre jornal ou transparências inusitadas.

Regressa a Portugal em 1974 onde se dedica a vários projectos e escreve as suas obras mais importantes. “O Medo” talvez tenha sido a sua obra mais divulgada, muito devido ao Prémio Pen Club de Poesia que lhe foi atribuído em 1988.

Mas onde incluímos a obra de Al Berto?

Nas primeiras obras poéticas, Al Berto seguiu de perto a linha surrealista, especialmente a que emana de Herbeto Hélder. Posteriormente, funde a poesia na prosa, criando uma espécie de deambulações fragmentárias.

Se a arte existisse “a bem da arte”, no sentido estrito de existir apenas para dar prazer através de formas e padrões abstractos, seria de esperar que todas as buscas da verdade fossem igualmente boas e que o modo e forma dessa busca constituísse a única distinção importante entre o bom e mau. Como disse Henry James “Uma obra de arte que tem que ser explicada falha, no que toca, suponho à sua missão”.

Talvez Al Berto gostasse que a leitura da sua obra tivesse uma das citações maiores da sua amiga pessoal, Sophie Podolsky: “os cabelos do sol também são as minhas mãos”… Talvez tivesse sido isso aquilo que Al Berto construiu na sua vida. Como disse Eduardo Lourenço “Al Berto pertenceu a este mundo e esta linguagem de poetas de um crepúsculo tão dourado por formas tão difíceis de habitar por dentro”.
Al Berto morre de linfoma em Lisboa a 13 de Junho de 1997.

Foi este passado e criatividade que inspirou o projecto Wordsong. A necessidade de homenagear um dos maiores poetas contemporâneos do nosso século. Um poeta que muitos não conheciam e que através da música vieram a conhecer. Mas o projecto não consiste apenas nas palavras de Al Berto. A música, que varia entre a electrónica e a pop, não fica atrás da poesia e cria uma atmosfera própria.

Nesta reedição o albúm conta com duas novas criações de João Peste(Pop Dell’Arte), JP Simões e Sérgio Costa(Belle Chase Hotel), concebidas a partir de colagens de textos/poemas  de Al Berto, sendo que Peste coloca a voz directamente em cima do instrumental pré-gravado “Cais”. No caso de JP Simões, tratou-se da composição de um tema “de raiz”. O disco foi reeditado em dois formatos: Cd/Livro e um cd simples. Para além destes convidados os Wordsong contam com a participação tanto no disco como nos espectáculos ao vivo de Alberto Garcia na bateria, Filipe Valentim nos teclados, e Tó Trips na guitarra.

Os concertos no CCB foram um sucesso e mostraram que os Wordsong ao vivo conseguem cativar e entusiasmar até o espectador mais incrédulo. Uma postura em palco e uma linguagem corporal muito expressiva de Pedro D’Orey e a presença de nomes como Jorge Palma, JP Simões e João Peste, contribuíram para um espectáculo de grande qualidade de onde as pessoas saíram satisfeitas com o que presenciaram. A música e os textos são de grande qualidade, mas ao vivo os Wordsong ganham outra dimensão muito devido às projecções de vídeos específicos para cada tema que prendem o espectador ao palco. Em muitos temas, esses vídeos apresentam a letra dos temas, dando uma maior visibilidade perante o espectador dos textos de Al Berto. O vídeo ficou a cargo de Nuno Franco, ao qual tem que se dar os parabéns pelo excelente trabalho efectuado. Os pontos mais altos da noite foram sem dúvida a presença de Jorge Palma, interpretando um tema por ele criado a partir de um poema de Al Berto e a participação em “Les Mots” numa nova roupagem do tema. As presenças de JP, Simões e Sérgio Costa assim como João Peste foram, sem dúvida, mais valias para o concerto. Temas como “Ouve-me” e “Telegrama.STOP” foram talvez aqueles mais aplaudidos pelo público. Este último foi no fim do concerto interpretado por todos os músicos que participaram no concerto, acabando em festa um concerto marcado sempre pela presença de Al Berto. Uma presença que foi exprimida pela voz de Pedro D’Orey e que foi sentida dentro de cada um dos espectadores que enchia o pequeno auditório do CCB.

Não se pense que os Wordsong apenas foram criados para homenagear Al Berto. Pode ter servido de mote para a sua génese mas felizmente existem muitos poetas que merecem homenagem. Qual é o senhor que se segue ? Fernando Pessoa.

NOTA: Os concertos no CCB foram gravados e serão posteriormente editados em DVD em 2004.



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