WrayGunn @ Alquimista

Um barril de pólvora prestes a explodir.

Talvez fosse coincidência, mas não deixou de cheirar a presságio quando, minutos antes do início dos concertos, a maioria das pessoas presente avançou em massa para o piso de cima do Santiago Alquimista, em busca de uma confortável cadeira. De facto, o público que encheu a sala do Santiago Alquimista esteve longe daquele que o ano passado contribuiu para um concerto memorável dos Wraygunn, naquele mesmo espaço – apesar da boa moldura humana, foi um público pouco interventivo e, por vezes, algo receoso de enfrentar a letargia.

Mas não comecemos pelo fim.

Os Dead Combo são um duo de cordas composto por Tó Trips e Pedro Gonçalves, que reproduzem a banda-sonora de uma Alfama perdida algures no oeste norte-americano. Esta espécie de western vadio é uma confluência de estilos, desde o fado, o blues e o country, absorvidos pelas “guitarras desajeitadas” e o “contrabaixo tuga”, como eles lhes chamam. Por isso, não foi de admirar que o concerto se iniciasse numa toada intimista e pessoal, por vezes algo tímida.

Misturando o reportório do álbum de estreia, “Vol. 1”, com alguns novos temas do álbum que deverá estrear no início do próximo ano, os sons dos Dead Combo rapidamente começaram a ocupar os espaços vazios que o minimalismo do início do concerto tinha provocado, atraindo a atenção do público, hipnotizado pela mise-en-scène visual daqueles dois homens que ocupavam o palco de forma burlesca.

No final, temas como «Rua Das Chagas» e, especialmente, «Eléctrica Cadente» soaram abrasivamente fortes e noctívagas, como a noite fria que corria lá fora. Como a cereja no topo do bolo, os Dead Combo despediram-se com a peculiar versão de «Temptation» (inclusive com direito a kazoo), um original de Tom Waits, gravado para a compilação radiofónica “3 Pistas”.

Foi um concerto curto que terminou, precisamente, quando começava a consolar a alma. Estava, no entanto, preparado o terreno para a chegada dos Wraygunn.

Acabados de chegar da digressão promocional europeia, cujos ecos dizem ter sido correspondida por favoráveis críticas, os Wraygunn traziam uma mala cheia de expectativas neste retorno a palcos nacionais, como o filho pródigo que regressa a casa.

Foi num registo lo-fi, com «The But For The Grace Of God Go I», um original de Kid Creole And The Coconuts, que os Wraygunn iniciaram o concerto – a sensual Raquel Ralha liderou o grupo até ao momento em que soaram as palavras de Martin Luther King, no discurso que lança a abertura de «Soul City». Estavam abertas as hostilidades.

O alinhamento, sem pausas de maior para respirar, preocupou-se em seguir uma linha crescente ao longo do percurso rock-punk de raízes blues, sempre com predominância no reportório de “Eclesiastes 1.11”, que teve direito a um duelo entre o percussionista João Doce e o baterista Pedro Pinto em «How Long, How Long?». De “Soul Jam”, o primeiro álbum da banda de Coimbra, ouviu-se «Ain’t Gonna Break My Soul», aqui em versão blues-dançável.

A atitude pouco interventiva do público não ajudou a queimar o rastilho do barril de pólvora rock que são os Wraygunn, mesmo com a sensual Raquel Ralha a pedir ao público que se chegasse à frente. Foi então com uma tímida mini-evasão do palco que os Wraygunn partiram para a última vaga do concerto, com o punk acelarado de «She’s A Spead Freak» ou o garage de «Drunk Or Stoned». Quanto a «You Really Got Me» não foi uma surpresa total, uma vez que já estavamos avisados que o original dos The Kinks tem sido habitual no alinhamento dos últimos concertos. Supreendeu sobretudo pela reinvenção de um dos riffs mais populares da história do rock’n’roll.

A banda deixou o palco depois de «All Night Long» (com direito a deambulação até ao balcão por parte de Paulo Furtado, para pedir um Jack Daniels, talvez para ajudar a esquecer um ano em que “desapareu gente como RL Burnside ou Link Wray”), mas voltou sob os fortes aplausos para o encore – e para terminar, os Wraygunn uniram três décadas de rock, entoando o hino dos The Who, «My Generation».

Paulo Furtado havia revelado que a banda estava mais bem ensaiada do que nunca; de facto, os Wraygunn apresentaram-se no Santiago Alquimista como uma máquina muito bem oleada. Musicalmente perfeitos, faltou-lhes contudo imprevisibilidade e explosão, dois factores que poderiam transportar o concerto para um nível seguinte de galvanização. E, como Paulo Furtado mais do que uma vez perguntou, faltou sobretudo que o público lhe soubesse dizer “o que os faria feliz”.



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