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Wraygunn

O pecado do egoísmo. Entrevista com Paulo Furtado

Foi demasiado tempo. Foi demasiado o tempo que tivemos de aguardar pelo regresso dos Wraygunn. Felizmente essa espera terminou e deu-nos a desculpa ideal para uma sessão de perguntas e respostas com Paulo Furtado, com “L’Art Brut” no centro das atenções.

Passaram quase 5 anos desde o lançamento de “Shangri-La” e pelo meio houve um álbum que marca, no melhor dos sentidos, uma carreira a solo, o “Femina”. Sentiste que esta era a altura ideal para retomar onde os Wraygunn tinham ficado?

Bem, mais do que sentir que era a altura para recomeçar a trabalhar com os Wraygunn, fui de certa forma “chamado” por uma canção que a Raquel fez, chamada «Track you down». Foi esse o momento que despoletou o desejo de voltar a trabalhar e compor com estas pessoas, de compor a pensar em Wraygunn. De resto, acho que o tempo entre os álbuns acabou por se revelar benéfico, acho que crescemos muito como músicos e conseguimos com maior facilidade reinventar a nossa música, por tudo o que vivemos pessoal e musicalmente neste período.

“L’Art Brut”. O título pretende evocar a categorização artística (criada pelo artista francês Jean Dubuffet)? Qual a razão/história por detrás desta escolha?

O “L’Art Brut” é o nosso álbum mais egoísta, creio eu. É uma manta de retalhos. É egoísta no sentido em que não foi pensado, foi feito ao sabor da corrente, deixámo-nos levar pelo que nos dava mais prazer a nós, música a música. E depois cosemos tudo nesta manta que se tornou um disco. E que faz sentido, mas criou ele mesmo o seu próprio sentido. É como uma viagem. Nós não fazemos Arte Bruta, temos uma noção do que fazemos no mundo, de que vamos fazer entrevistas para promover um disco, vender concertos, etc… Mas a Arte Bruta é um dos locais bonitos e puros na Arte para onde olhámos para nos inspirar, para ganhar forças para fazer mais um disco, para manter a necessidade de fazer música pela música… às vezes tens que “limpar” a mente, os olhos e os ouvidos para o conseguir fazer…

A sonoridade de “L’Art Brut” marca um distanciamento relativamente ao que fizeram no “Shangri-La” e mais próximo dos dois primeiros álbuns. As diferenças são evidentes e há também uma maior maturidade. Concordas?

Acho que sim, a primeira parte da pergunta… Definitivamente não à segunda… este álbum está tão distante dos primeiros, mesmo do ponto de vista da composição… acho que tem sempre existido uma evolução no nosso som, não nos queremos repetir… mas por outro lado nunca há uma ruptura, há uma certa continuidade, há um “som” que se mantém como nosso…

Fala-nos um pouco sobre a capa do “L’Art Brut”. Qual a história por detrás da foto?

A foto da capa desconstrói o mito do pecado original. Retiramos a culpa a Eva, e consequentemente às mulheres. Esta ideia do pecado original tem trazido tanto mal ao mundo e às mulheres… A Raquel simboliza o mar que abraça o Homem (eu), que oferece a maçã a uma Sereia (a Selma). E o canto das sereias, como todos os que o ouviram já sabem, leva os homens à loucura….

Os Wraygunn conseguiram, com todo o mérito, entrar e conquistar num mercado exigente como o Francês. Essa aposta vai ter continuidade com o “L’Art Brut”?

Quando fazemos um disco isso não faz parte dos planos. Mas depois de acabado, sim, queremos chegar a toda a gente que nos queria ouvir. Agora em Abril vamos a França, é um País que nos tem tratado muito bem e nos tem recebido com muita hospitalidade, gostamos muito de lá tocar. Mas queremos tocar em toda a Europa, queremos ir a Inglaterra também, ir o mais longe possível…

É evidente como na vossa música existe uma reverência pelo Rock’n’Roll e pelas suas raízes negras mas ao mesmo tempo conseguem, álbum após álbum, não se limitar a prestar uma homenagem, a olhar apenas para o passado. O futuro também tem uma palavra a dizer. E já o fazem há quatro álbuns. É algo 100% consciente ou acaba por surgir naturalmente?

É natural, acho. Olhamos para o passado mas vivemos no presente, e queremos fazer música no mínimo para hoje, com sorte para o amanhã… quando olho para trás, para o “Eclesiastes 1.11”, ninguém no mundo naquela altura misturava Gospel, Blues, Punk, Soul e Hip Hop como nós fizemos… Nem eram géneros que estivessem em contacto… Acho que foi um álbum de algum modo visionário, nesse aspecto… Quem sabe se este o poderá ser também? Não sabemos, não andamos a acompanhar as “modas” e os “movimentos” que estão na berra agora, que são idolatrados pela imprensa e depois caem no esquecimento. O nosso caminho é às vezes paralelo a isso, outras vezes desvia-se, outras coincide com o que o mundo quer ouvir… É normal, para quem faz música com honestidade (e felizmente para quem não o faz também) ter momentos de maior sucesso, de maior reconhecimento, e às vezes teres que seguir um caminho mais solitário…

Estão prestes a regressar à estrada, aos palcos, onde os Wraygunn se sentem como peixe na água. Já sentiam a falta disso?

Muito. Demasiado, até… Mal podemos esperar…

Caso se cruzem com os Wraygunn façam o favor de pecar. Não se vão arrepender.



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