Wye Oak|”The Louder I Call, The Faster it Runs”

Wye Oak|”The Louder I Call, The Faster it Runs”

O novo trabalho dos Wye Oak viu a luz do dia no passado dia 6 de Abril, editado pela independente Merge e é um belíssimo conjunto de canções que são muito mais do que a sua aparência estética, tal como o atesta a maior parte das letras.

Até agora deambulando algures entre o country, o folk ou até o dream pop, é em “The Louder I Call, The Faster it Runs” que se consolida a grande viragem musical dos Wye Oak, que se tinha começado a desenhar sobretudo em “Shriek” e que no álbum seguinte, “Tween”, se esbateu ligeiramente noutras influências – talvez por se tratar de um álbum composto por faixas postas de lado aquando dos dois trabalhos anteriores. Senhores autores de grandes músicas, a verdade é que nem sempre o conjunto dos seus longas durações parecia ter corpo suficiente para aguentar a estrutura, como se não houvesse confiaça suficiente para afirmar o que queria.

A realidade é que a maioria das letras retrata precisamente essa mudança e nas palavras de Jenn Wasner, vocalista da banda, a afirmação de querer viver a vida de forma plena surge quase como uma descoberta que anda de mão dada com a construção do novo trabalho – a faixa «Lifer» talvez seja o exemplo maior dessa postura , dessa definição. Talvez seja por isso que o som the “The Louder I Call, The Faster it Runs” seja mais adulto, mais concreto, mais definido, uma afirmação clara de identidade quando anteriormente a alma não estava totalmente de acordo com a música. É preciso não esquecer igualmente que o novo trabalho marca o momento em que Jenn e Andy finalmente se juntaram para preparar trabalho em conjunto, já que até então o faziam à distância, cada um vivendo agora em cidades diferentes. Esse afastamento físico entre os dois membros da banda, que se conhecem e trabalham juntos desde o tempo da escola, e o facto de Jenn, já em 2016 ter sentido necessidade de em paralelo seguir o chamamento de projecto a solo parecem ter contribuído com novo fôlego na sonoridade dos Wye Oak.

O álbum começa com uma explosão de vida e electrónica, já mais voltada para um moderno trip hop ou indie pop, cheio de sons sobrepostos, camadas deliciosas de energia musical, falando precisamente dessa afirmação da alma. Os Wye Oak criaram uma espécie de tratado filosofico-musical melodioso que junta grandes batidas, excelentes linhas de sintetizador e uma Jenn Wasner completamente presente neste cenário, voz forte e abandonada, sem medos. Por isso, algumas das faixas, apesar de abrandarem um pouco o ritmo, não deixam de fazer sentido no conjunto das restantes, não são quebras aborrecidas só para servir de intervalo e aproveitam até para incluir riffs de guitarra que vão buscar o espírito de tempos mais recuados de rock da banda oriunda de Baltimore.

«The Louder I Call» é um complexo crescendo de som em que, de facto, os músicos se encontram de corpo e alma, tocando, como sempre, uma miríade de instrumentos mas, desta vez, como gente grande – não menorizando, claro, os trabalhos anteriores mas apenas chamando a atenção para uma maturidade consciente que não estava ainda presente na carreira da banda e que tinha todas as condições técnicas para dar suporte a esse crescimento. Esse crescimento significou para os Wye Oak uma mudança de som assumida que, por vezes, roça até o experimentalismo romântico de Björk por alturas do Medúlla em «My Signal», o psicadelismo retro futurista de St. Vincent em «Symmetry» ou a beleza sintetizada de Future Islands em «It Was Not Natural» mostrando não uma imitação daquelas influências mas uma mescla intensa de sons e interesses.

“The Louder I Call, The Faster it Runs” é uma grande surpresa, honesta, verdadeiramente ecléctica mas coerente, viciante, sem pretensões a nenhum título, entusiasmada por percorrer os espectros sonoros que lhe apetece, livre de explorar os meandros tanto da música como dos músicos que lhe dão vida. Na realidade, é um trabalho que mergulha profundamente nas questões mais despidas e complexas, em letras consequentes, conscientes mantendo na fórmula, no aspecto, um sentido objectivo, de corpo cheio de sintetizadores bem presentes na base das músicas em conjunto com a bateria de Andy. A voz de Jenn volteia em harmonia com a música mas muitas vezes parece mais um instrumento, como acontece, por exemplo, na faixa que dá título ao álbum. Noutros momentos, Jenn assume todo o protagonismo e encontra-se no centro, só ligeiramente acompanhada pelos instrumentos. No final, dá-se conta de que o álbum já fez uma data de loops no leitor e que se continua a encontrar motivos pelos quais ficar a ouvir, descobrindo de cada vez um novo pormenor, um novo instrumento, uma nova inflexão, ouvindo com atenção aquilo que os Wye Oak têm para dizer nesta sua nova vida sonora que tanto promete e que é uma enorme lufada de ar fresco com bons químicos misturados.



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